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Eleições em Macondo:
A maquininha quebrou...
ROBERTO QUESADA#
A tormenta fraudulenta não é novidade, dava para ver, por se tratar de
eleições em condições tão arbitrárias como sob a bota de um golpe de
Estado-Militar. O espetáculo era outro, ver e constatar como se faria. A
maquinária da imprensa conhecida como ‘imprensa golpista’ em Honduras não
dormiu noite e dia gritando com voz esbaforida, quase um lamento de SOS :
Hondurenhos, todos e todas, ao voto. Esse grito não encontrou eco nos
ouvidos deliberadamente surdos.
O TSE (Tribunal Supremo Eleitoral) presumiu e inclusive estabeleceu provas
com uns tais celulares de onde informariam números de votantes que
rebateriam na cabine central do Tribunal e lá disseram que nem os próprios
estadunidenses teriam uma tecnologia eleitoral tão precisa, imaculada e
“transparente”. Foi o que balbuciou um sujeito em nome do Tribunal. E que
depois de duas horas de fechadas as votações o mundo inteiro, com
extraterrestres incluídos, saberiam os resultados das eleições mais claras
da historia da humanidade. Porém, tardaram mais de cinco horas para
enquadrar os números, enquanto os visitavam militares constantemente, entre
eles três coronéis, no lugar onde se supõe que só deveriam estar os membros
do TSE.
O cenário visto pela imprensa nacional e internacional nas ruas e lugares de
votação era inevitavelmente verde, mas não ecológico. Verde oliva, militar:
tanques, metralhadoras de alto calibre, militares e polícias se deslocando
de um sítio a outro y superando em grande número os votantes.
Mesmo que o governo de fato encabeçado por Micheletti e Vásquez Velásquez em
Honduras tenha obrigado os funcionários que trabalham para a Administração
Pública a sair para votar, não era suficiente para os astronômicos
resultados. Ao meio-dia informes desde toda Honduras anunciavam a escassa
participação. Na minha rede pessoal de testemunhas desde Tegucigalpa, San
Pedro Sula, La Ceiba, Santa Bárbara, Olancho, Choluteca e de tantos lugares
mais, tive informação fidedigna da ausência de votantes nas mesas
eleitorais.
Dessa mesma forma constatamos que os votantes em Nova Iorque chegaram a 500,
em Los Ángeles, Miami, e outras das cidades onde vivem hondurenhos houve
mínima ou nenhuma votação. Daí que não se pode somar à fraude 1 milhão e
tanto de hondurenhos que moram nos EUA.
As fotos e vídeos que recebíamos nos remetiam de imediato à Comala, de Pedro
Páramo, do mexicano Juan Rulfo: povoados desolados, fantasmagóricos. Seria
bom exigir ao TSE e à ‘imprensa golpista’ essas cenas de multidões (que não
sejam montagem) pois ao que parece os votantes foram extraídos da ficção
pela sua invisibilidade.
Contudo me surpreendeu uma quase sorridente Patricia Janiot da CNN
anunciando, cedo, com toda sua cara lavada, que em Honduras haviam saído a
votar 70% da população na santa paz, sendo que eu escutava a transmissão ao
vivo desde San Pedro Sula (segunda cidade hondurenha em importância)
transmitindo a tremenda repressão a uma enorme marcha: tanques, fuzis, gases
lacrimogêneos, pauladas… tudo transmitido pelo mesmo diretor da Rádio Uno,
Arnulfo Aguilar, que enquanto cumpria com o seu dever jornalístico corria
junto com a população para se resguardar. Muita gente tem me ligado e
escrito se queixando dessa atitude de Janiot, mas lhes explico que ela não
tem culpa, é só uma empregada que cumpre com o roteiro que lhe encomendam.
Portanto não há que esperar nada dela e outras e outros que são “leitores”
de redes. Assim é esse trabalho, se não é ela é outra e se não obedece a
expulsam do Palácio.
Quando fecharam as urnas e supostamente o TSE recebia os dados via celular,
aconteceu um tremendo apagão em Olancho, o maior departamento [Estado] de
Honduras. E através das emissoras Uno, Globo, Progresso, as pessoas
denunciaram que era parte da fraude.
Depois houve a espera e como diria Joaquín Sabina, conhecido cantor e
compositor espanhol]: “e nos deram as oito e as nove e as dez e as onze…” E
finalmente apareceram os do TSE e a desculpa, sem precedentes, que deu o
presidente deste Tribunal : “Tivemos um problema técnico, é que se estragou
um link”. E ato seguido passou a palavra a um técnico para que explicasse o
porquê das eleições, porquê da demora e porquê não tinha sido possível
digitar os resultados (juro que não é invenção de novelista, ali estão as
gravações).
PROBLEMA TÉCNICO
Mas, como se fosse pouco, Saúl Escobar, presidente do TSE, disse que era um
problema técnico. Horas antes, o embaixador dos EUA, Hugo Llorens, tinha
dito coisa parecida. Abordado por um jornalista da Rádio Globo num centro de
votação disse que não andava observando, mas acompanhando pessoas de sua
segurança que deviam votar ali (que magnânimo o embaixador). Diante de uma
pergunta do jornalista, respondeu: “as eleições são uma questão técnica e os
resultados estatísticos o dirão.” Coincidência ou é assim, tecnicamente
natural a vida em Macondo, digo, Honduras?
Outras das tantas raridades destas eleições é que o Tribunal Supremo
Eleitoral contratou a empresa Hagamos Democracia [Façamos Democracia] para a
contagem de votos, e contratador e contratado entraram em contradição.
Enquanto a empresa disse que havia 47% de participação, o TSE falava em 61%.
Ainda, pela boca de urna se dizia que o candidato do Partido Nacional,
Porfirio Lobo Sosa, arrasava por mais de 30% com seu principal adversário, e
já feitas as contas, a diferença foi muito menor. A Rádio Globo, em análise,
argumenta que se tratou de um pacto entre Lobo e os derrotados, exigido
pelos Estados Unidos para que se mantivesse o bipartidarismo.
Sem dúvida, pelo que consta, se viu, escutou, por exemplo, que acabou a
tinta, mas não acabaram os votos.
De qualquer maneira, os hondurenhos fomos obrigados a falar deste tema, pois
realmente o que nos concerne é o que se pretende deixar no esquecimento,
seja com uma vitória da seleção ou de uma eleição. É que ainda estamos sob o
golpe de Estado-Militar, que continuamos submersos numa ditadura, que os
repressores estão ali, espreitando o povo e que, na realidade, as eleições
nunca deveriam ter ocorrido sem antes ter sido revertido o golpe de Estado e
restituído o atual presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya
Rosales. Único cenário propício para conversar sobre uma autentica
conciliação nacional.
Mr. Obama: bem-vindo à América Latina. Presidentes latino-americanos: se
isto fica assim, se reafirma sem a menor dúvida que retornam os golpes de
Estado com efeito dominó, reiniciados já nesta terra.
O povo hondurenho já havia derrotado a ditadura por nocaute, mas veio
Washington a lhe dar oxigênio durante a contagem na boca de Thomas Shannon,
e desde então começou a se cumprir a profecia de Barack Obama em Trinidad e
Tobago: “uma nova era de relações com a América Latina”.
*Escritor e diplomata
hondurenho,
diretor do site Honduras-USA Resistência |