Empresa que pagou Arruda recebe R$ 400 milhões do governo de SP
Polícia
Federal interceptou pacote de dinheiro enviado pela CTIS, empresa dirigida
por tucanos
O
ex-secretário de Relações Institucionais do governo de Brasília, Durval
Barbosa, revelou em depoimento feito à Polícia Federal que na manhã do dia
13 de outubro passado, ao chegar ao seu gabinete, encontrou um pacote de
dinheiro enviado por Sedex pela empresa de informática CTIS “para chegar ao
governador José Roberto Arruda (DEM) e demais pessoas”. Durval revelou que
preencheu uma folha de papel com os nomes, números e percentuais das pessoas
que deveriam, segundo a empresa, receber o dinheiro, e anotou: “CTIS mandou
entregar na secretaria (recepção) como Sedex”.
A CTIS Tecnologia S/A é a mesma empresa de
informática responsável pelo Consórcio Educat, que foi vencedor de uma
licitação para alugar 100 mil microcomputadores ao governo de José Serra
(PSDB), em São Paulo. A empresa assinou um contrato no valor de R$ 400
milhões com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) do governo
do estado para fornecer locação de computadores ao custo de R$ 4.000 por
unidade. Os computadores seriam destinados ao projeto “Computador na
Escola”. A CTIS, que faturou R$ 457 milhões em 2008 e R$ 609 milhões em
2009, dos quais 80% só no governo de São Paulo, também tem contratos com a
Secretaria de Fazenda do governo do Distrito Federal e com a Terracap
(Companhia Imobiliária de Brasília).
Durval informou à Polícia Federal que, apesar de
ter feito as anotações sobre a destinação dos recursos, desistiu de
entregá-los. Ao contrário, decidiu telefonar para a promotora de Justiça,
Alessandra Queiroga, e entregar a ela o pacote enviado pela CTIS. Do valor
contido na encomenda, estimado por ele em R$ 63 mil, 40% (R$ 25,3 mil)
deveriam ser entregues ao governador Arruda. Para o vice-governador, Paulo
Otávio (DEM), estavam destinados R$ 18,9 mil e para José Geraldo Maciel,
então chefe da Casa Civil de Arruda, seriam entregues R$ 6,3 mil. Os outros
R$ 12,6 mil deveriam ir para uma pessoa de nome Antônio Gomes, que a Polícia
Federal ainda não identificou.
Durval Barbosa fez um acordo com a Polícia
Federal para colaborar nas investigações dos crimes da dupla Arruda/Paulo
Otávio. Ele receberia em troca uma redução de sua pena em processos pelos
quais responde. A promotora recolheu a encomenda entregue por Durval e
chamou a Polícia Federal. Depois de interceptar a encomenda, a PF iniciou as
investigações. A perícia feita pelo Instituto Nacional de Criminalística
(INC) a pedido da PF concluiu que havia no pacote, que permaneceu lacrado,
notas de R$ 50 presas por um elástico. A perícia foi realizada com a ajuda
de raio-X. A PF pediu aos peritos que localizassem possíveis impressões
digitais. “As imagens obtidas mostram objetos retangulares com formato
compatível com cédulas monetárias, que aparentam estar agrupadas em maços
envoltos com elástico”, diz o relatório do INC.
A CTIS já vinha sendo investigada pela Polícia
Federal por fraudes em licitações públicas. No contrato com o governo de São
Paulo ela seria responsável por abastecer as cerca de 4 mil escolas
estaduais com computadores. Pelo contrato milionário assinado pela empresa
com o governo paulista seriam instalados 25 computadores por cada escola.
Como esse número de computadores jamais chegou às escolas estaduais, os
parlamentares da oposição estranharam o montante gasto no projeto e pediram
que o Tribunal de Contas do Estado (TCE), a Polícia Federal e o Ministério
Público Estadual iniciassem uma ampla investigação sobre a CTIS.
Já no mês de maio, diante da revelação de que
diretores da empresa eram membros do PSDB, o deputado Roberto Felício
(PT-SP) iniciou a coleta de assinaturas para instalação de uma CPI para
investigar os contratos da CTIS com o governo Serra. A bancada tucana, por
ser maioria na Assembleia Legislativa paulista, mais uma vez conseguiu, à
época, abafar as denúncias e impedir as investigações. O diretor executivo
de “vendas governo” da CTIS era ninguém menos do que o tucano Fernando
Gusmão Wellisch. Ele foi diretor de tecnologia do Banco do Brasil na
administração Fernando Henrique Cardoso e dirigiu a Secretaria de
Coordenação e Controle de Empresas Estatais, órgão vinculado ao Ministério
do Planejamento, no período em que Serra foi ministro da pasta.
Em 2002, Fernando Wellisch foi um dos
coordenadores da campanha de José Serra à Presidência da República. Logo
após a campanha, em 2006, ele assumiu a Secretaria de Fazenda do Município
de São Paulo, por indicação do tucano, onde permaneceu até ocupar a
diretoria da CTIS. Outro integrante do comando da CTIS é Martus Antônio
Rodrigues Tavares. Antes de ser membro do conselho de administração da
empresa, ele foi nada menos do que ministro do Planejamento de FHC. Em
assembleia da CTIS realizada em 28 de novembro do ano passado, Tavares
deixou formalmente o conselho de administração da empresa, enquanto Wellisch
permaneceu no comando da empresa.
Em março o Departamento de Proteção e Defesa da
Concorrência, da Secretaria de Direito Econômico (SDE), do Ministério da
Justiça e o Departamento de Polícia Federal deflagraram a Operação Mainframe
para investigar a CTIS e outras empresas por fraudes nas licitações públicas
e formação de cartel. “Todos os contratos da empresa serão analisados e
vamos instaurar quantos inquéritos forem necessários”, afirmou o
superintendente da Polícia Federal em Brasília, Disney Rosseti. Em 16 de
março, o juiz substituto Waldemar Cláudio de Carvalho, da 13ª Vara da
Justiça Federal em Brasília, autorizou a Polícia Federal a apreender
documentos e computadores na sede da CTIS.
É inevitável que haja um cruzamento das ações da
Operação Mainframe, que investiga contratos da CTIS com o governo de São
Paulo e com outros estados, e os trabalhos da Operação Caixa de Pandora que
desbaratou o esquema de corrupção comandado pelo governador José Roberto
Arruda. Preferido de José Serra para ser seu vice numa eventual chapa à
presidência em 2010, Arruda enfrenta atualmente, após as denúncias recheadas
de filmes, gravações e depoimentos, feitos por Durval Barbosa, um processo
de expulsão do DEM. Junto com seu vice, Paulo Otávio, também do DEM, José
Roberto Arruda está ameaçado pela abertura de um processo político para
afastá-lo do governo.
SÉRGIO CRUZ