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Telefónica
diz que não vai investir os 2,4 bi anunciados para 2009
Presidente da filial espanhola declara que não tem como fazer os investimentos
prometidos para liberar o Speedy porque as vendas estiveram suspensas
Como provavelmente lembram os leitores, depois de seis panes seguidas no serviço
de Internet via banda larga da Telefónica, o Speedy, até a Anatel teve que tomar
alguma providência, antes que o Sardenberg perdesse o cabide. Assim, suspendeu
as vendas do Speedy. Dois meses depois, com a promessa de R$ 2,4 bilhões de
investimentos este ano, e com o ministro Hélio Costa e o presidente da Anatel,
Ronaldo Sardenberg, fazendo lobby descarado pró-Telefónica, a venda do Speedy
foi liberada.
Agora, o presidente da Telefónica, Antonio Carlos Valente, declarou que, devido
à suspensão do Speedy, a Telefónica não terá condições de fazer os investimentos
prometidos. Não é uma gracinha, leitor? A Telefónica promete fazer investimentos
para liberar o Speedy e, agora, diz que não tem condições de fazê-los porque o
Speedy esteve suspenso...
Note-se que a Telefónica teve lucro líquido (isto é, dinheiro livre, depois de
pagos todos os custos e despesas) de:
2006 – R$ 2 bilhões e 816 milhões;
2007 – R$ 2 bilhões e 363 milhões;
2008 – R$ 2 bilhões e 425 milhões;
2009 – R$ 1 bilhão e 628 milhões (até o 3º trimestre).
Isto é, somente nos últimos quatro anos (sem contar, evidentemente, o último
trimestre deste ano), o lucro líquido da Telefónica foi R$ 9 bilhões e 232
milhões.
No entanto, ela diz que não tem condições de investir o que prometeu porque o
Speedy esteve suspenso por 60 dias.
A recente entrevista do presidente da filial da Telefónica no Brasil, aliás, é
semelhante ao depoimento daquele punguista que declarou ao juiz: “doutor, o
sujeito deixou a carteira tão fácil de pegar que só podia querer que ela fosse
roubada; que culpa tenho eu?”.
Porém, o sr. Valente está solto. E não é um simples batedor de carteiras, mas
funcionário de uma companhia que rouba bilhões do Brasil – assim como de mais de
uma dezena de países -, talvez a mais despudorada organização criminosa que já
apareceu por aqui.
Diz Valente que a Telefónica acha ótimo que exista uma rede pública de fibras
óticas - isto é, a rede da Eletronet, Eletrobrás, Petrobrás, etc. - e até aceita
usá-la, pois, “se existe uma rede de fibra óptica disponível, por que não
usar?”. Mas não aceita que uma empresa pública seja a administradora dessa rede
pública: “acho desnecessária uma concessionária estatal”.
Certamente, com a Telefónica cuidando da propriedade pública, qual a necessidade
de uma empresa pública para cuidar do que é público? É só ver como ela cuidou
bem da Telesp. Mais cuidado, só o dos hunos com a grama onde pisavam.
Mas, diz Valente que as empresas de telecomunicações que foram privatizadas no
governo Fernando Henrique foram um sucesso tão grande, que trouxeram incontáveis
benesses à população “sem nenhum centavo de investimento público” (sic).
Nos últimos 11 anos, o BNDES desembolsou para as teles a impressionante quantia
de R$ 29,4 bilhões (cf. Fernando Paiva, “BNDES aprova empréstimo de R$ 4,4
bilhões para Oi”, Teletime, 18/11/2009).
Somente numa operação, em dezembro de 2007, a Telefónica levou R$ 2 bilhões. E
nem falemos do que a Telebrás foi obrigada, pelo governo Fernando Henrique, a
gastar em infraestrutura na Telesp para que a empresa fosse entregue à
Telefónica - R$ 23,5 bilhões de janeiro de 1995 a agosto de 1998.
O respeitado economista Michael Kalecki, numa de suas sínteses, escreveu que “os
trabalhadores gastam o que ganham e os capitalistas ganham o que gastam”.
Kalecki, muito conhecido e citado no mundo todo, inclusive nos EUA, faleceu na
Polônia em 1970. Portanto, não chegou a conhecer a Telefónica & congêneres. Se
conhecesse, teria de mudar as suas concepções, pois existe agora um novo e mais
moderno tipo de empresa capitalista: aquela que ganha sem gastar. Aquela que se
apropria do patrimônio público, usando dinheiro público; que esfola os usuários
com tarifas cavalares, pela monopolização de um serviço público; que continua
tomando dinheiro público, para “investimentos” que ninguém vê ou sabe onde foram
feitos; que remete para a matriz bilhões de recursos públicos; e que, quando é
obrigada, pela revolta pública, a gastar alguma coisa, gasta dinheiro público.
Para completar, depois disso tudo, seu presidente propala que, desde
privatizada, a empresa sempre funcionou “sem nenhum centavo de investimento
público”.
Kalecki não teria entendido, pois, para ele, isso não seria uma empresa (nem
mesmo um monopólio privado), mas uma quadrilha ou um valhacouto de bandidos.
Portanto, não seria uma questão econômica, mas um caso policial. E, leitor, sabe
que ele tinha razão?
CARLOS LOPES
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