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Lula:
sobre paz e imperialismo
GILSON CARONI FILHO
Segundo o Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a
Paz, o armamento das cinco potências é suficiente para destruir o mundo
várias vezes. Uma ordem mundial estável pode ser construída sobre padrões
destinados a perpetuar o poderio de poucos e a impotência de muitos? As
idéias de Lula sobre política externa, ao contrário do que tentam propagar
notórios embaixadores e articulistas da grande imprensa, não apontam para a
“partidarização petista" da cúpula do Itamaraty. Pelo contrário, partindo da
complexidade do cenário internacional, o governo formula uma agenda que
reafirma a soberania da diplomacia brasileira, sem contemporizar com
hegemonismos de qualquer ordem.
É nesse contexto que devem ser entendidas as palavras do
presidente em sua recente viagem à Alemanha. Salientando que é preciso "
muita paciência com o Irã", Lula lembrou que, para pedir a um país que não
desenvolva arma atômica, Estados Unidos e Rússia deveriam desativar as suas.
Quem interpretar tal observação como petição bizantina, destinada apenas a
agradar aos setores de esquerda de sua base de governo, estará gastando
munição barata para analisar o que não consegue entender.
Se a questão fundamental da atualidade é a da guerra e da
paz, devemos fazer algumas indagações sobre o discurso hegemônico que paira
sobre ela. Pode haver garantia efetiva contra o uso ou ameaça de emprego de
armas nucleares se as cinco potências que comandam o Conselho de Segurança
da ONU (EUA, Rússia, China, França e Inglaterra) continuam presas à noção de
que tais armas devem ser sua exclusiva e perpétua propriedade, em detrimento
da segurança de outros países?
Como destacou o ex-embaixador Celso de Souza e Silva, em
artigo escrito para o Jornal do Brasil, em outubro de 1983, "nenhuma
declaração unilateral, especialmente quando colocada em termos gerais e
imprecisos, pode contrabalançar a real ameaça à segurança dos países não
possuidores de armas nucleares, representada pela existência desses
artefatos nas mãos de um seleto clube mortífero."
Com efeito, é importante lembrar que o direito de
autodeterminação, certamente, não é monopólio das potências nucleares
existentes. Se elas não reconhecem limites ao direito de garantir a própria
segurança, ao custo da posse de 26 mil ogivas nucleares, não podem esperar
que outros países se abstenham durante muito tempo do exercício dessa mesma
opção. Segundo o Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a Paz de
Estocolmo (SIPRI), o armamento concentrado pelas cinco potências seria o
suficiente para destruir o mundo várias vezes. Diante disso, indaga-se se
uma estável ordem mundial pode ser construída sobre duplos padrões
destinados a perpetuar o poderio de poucos e a impotência de muitos?
Em abril, o presidente Barack Obama, perante milhares de pessoas,
em Praga, disse acreditar em "um mundo sem armas". Como as raízes do
militarismo estão na natureza econômica e de classe do imperialismo, que
jamais desistirá da força militar como instrumento de sua política, resta
saber até onde vai a disposição do líder estadunidense. Como afrontará os
invernos planejados pelo Pentágono? A intensiva preparação para novas
guerras é parte constitutiva do processo de acumulação capitalista. Se
pairar alguma dúvida sobre esse ponto, basta observar o quanto o orçamento
norte-americano destina ao complexo industrial-militar. Sem contar, é obvio,
a generosa concessão de fundos e verbas ao Ministério da Defesa.
O que propõe Obama em médio prazo? Uma reconversão da
economia norte-americana? Talvez, em Berlim, Lula o tenha alertado para o
perigo de platitudes que arrebatam platéias, mas não movem a história.
P.S: sobre César Benjamim, não há muito que acrescentar.
Endosso os textos de Washington Araújo, Gilberto Maringoni e José Arbex Jr.
O ex-militante de esquerda, munido de ressentimento e dor narcísica, se
mudou de mala e cuia para o que há de mais reacionário na direita. Quem leu
seu último artigo (“Por que agora?” - Folha de S. Paulo, 2/12), pôde
constatar que as críticas contra o governo praticamente reproduzem as do
editorial do jornal paulista ("Lula, o filme"), publicado em 28 de setembro.
Para melhor exercer o papel de lugar-tenente da família Frias, César matou
Cesinha.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior
e colaborador da Hora do Povo e do Observatório da Imprensa
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