Arruda reprime manifestação contra rio de propinas no DF
Três
mil estudantes não se amedrontaram com bombas e cassetetes e mandaram seu
recado
O
governador de Brasília, José Roberto Arruda (DEM), mandou a polícia reprimir
com uma violência inaudita a manifestação de estudantes organizada na
quarta-feira, em frente ao Palácio do Buriti, contra os escândalos de
corrupção nos quais ele é o cabeça. Cerca de 3.000 estudantes foram
agredidos por 400 policiais e pela cavalaria da Polícia Militar. A
selvageria ordenada por Arruda feriu oito pessoas, entre elas uma menina de
12 anos, moradora de Valparaíso, que acompanhava a irmã no protesto. Estava
na calçada, em frente ao tribunal, e foi atingida nas pernas por cassetetes.
De acordo com os manifestantes, o movimento
transcorria pacificamente em frente ao Palácio e recebia o apoio dos
motoristas que trafegavam pelo local, quando a polícia iniciou as agressões.
“Apesar de todos os carros que estavam parados estarem nos apoiando, a
polícia quis repreender os manifestantes. Começou uma grande confusão e daí
se expandiu”, relata Levy Brandão, integrante da comissão “Fora Arruda e sua
máfia”.
Diversas faixas pedindo a saída do governador
foram estendidas pelos manifestantes. Uma delas tinha os dizeres “Arruda,
seu lugar é na Papuda”. Em referência à penitenciária da capital. O
governador foi flagrado em gravações feitas por um de seus secretários,
recebendo um pacote de R$ 50 mil diretamente das mãos do seu funcionário. A
Operação “Caixa de Pandora” da Polícia Federal obteve e divulgou fartas
imagens do governador e de seus aliados recebendo pacotes e mais pacotes de
dinheiro, indignando a sociedade. Em nota, alegou que o dinheiro “era para
comprar panetone para o povo carente”.
O secretário de Relações Institucionais, Durval
Barbosa, foi o funcionário que fez o acordo de delação premiada com a PF e
gravou os filmes. Calcula-se que o esquema tenha movimentado ao todo mais de
R$ 500 milhões. Um dos aliados de Arruda, o presidente da Câmara Distrital,
Leonardo Prudente (DEM), chegou a ser filmado guardando dinheiro em todos os
bolsos e até em suas meias.
Foram onze os pedidos de impeachment do
governador e de seu vice, Paulo Otávio (DEM), também citado nos depoimentos
como beneficiário do esquema montado dentro do governo do Distrito Federal.
A divisão era 40% para o governador, 30% para o vice e o restante para os
demais. Contudo, dos onze pedidos a Câmara Legislativa do DF aceitou três
que agora passam a tramitar na Casa. Os pedidos de impeachment de Paulo
Octavio foram rejeitados, porque a Procuradoria da Câmara entendeu que o
vice só poderia ser alvo de afastamento se estivesse no exercício do cargo,
segundo lei federal.
O local escolhido para o protesto contra Arruda
foi simbólico porque a administração de Brasília vem funcionando
temporariamente na cidade satélite de Taguatinga. O ato teve início com
pronunciamentos de políticos e representantes das entidades que compõem o
“Movimento Contra a Corrupção”. “Só conseguiremos tirar o governo local se
houver mobilização popular. É preciso conscientização para mudar todo esse
esquema sujo”, afirmou a presidente da Central Única dos Trabalhadores no
Distrito Federal (CUT-DF), Rejane Pitanga. Fizeram parte ainda do protesto,
a UNE, a UBEs, centrais sindicais e outras entidades populares.
Montados em cavalos e atirando com bombas de gás
lacrimogenio e balas de borracha, os policiais deram o início à agressão
para dispersar os manifestantes. Com cassetetes, eles foram ao encontro dos
estudantes. Mas a repressão não foi o bastante para coibir a manifestação.
Os estudantes se reuniram em outros lugares e se espalharam por todo o
gramado até a Rodoviária de Brasília.
Cenas chocantes mostraram um estudante deitado
no meio da pista sendo pisoteado pelos cavalos. Outro manifestante,
arrastado para o gramado, sofreu várias agressões. Os policiais usaram gás
de pimenta para afastar os jornalistas que filmavam a ação.
Com frases como “Arruda na papuda e PO (Paulo
Otávio) no xilindró” e outras, os ativistas caminharam entre os carros.
Muitos motoristas manifestaram apoio, buzinando e mostrando panfletos, ou
adesivos, com os dizeres “Fora Arruda”. A polícia bloqueou a passagem dos
carros para poder agredir os manifestantes. Foi o momento que eles atiraram
com as armas de borracha e lançaram bombas de gás.
A violência de Arruda foi repudiada por vários
setores da sociedade. O presidente em exercício da Câmara Legislativa do DF,
Cabo Patrício (PT), disse que a pressão pelo afastamento dos envolvidos vai
continuar. O Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília
(UnB) protestou e convocou novos protestos. Durante o ato foram colhidas
assinaturas pedindo a abertura de impeachment contra o governador. A Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB), que também já havia entrado com processo
contra a dupla Arruda/Otávio também protestou.
Entre as denúncias, Durval Barbosa revelou à
Polícia Federal que recebeu um pacote de dinheiro enviado por Sedex pela
empresa de informática CTIS “para chegar ao governador José Roberto Arruda (DEM)
e demais pessoas”. Durval fez chegar o pacote à Polícia Federal que iniciou
as investigações. A CTIS Tecnologia S/A é uma empresa que tem em sua direção
o tucano Fernando Gusmão Wellisch, que foi diretor de tecnologia do Banco do
Brasil na administração Fernando Henrique Cardoso e dirigiu a Secretaria de
Coordenação e Controle de Empresas Estatais, órgão vinculado ao Ministério
do Planejamento, no período em que Serra foi ministro da pasta. A empresa
tem um contrato para alugar 100 mil microcomputadores ao governo de José
Serra (PSDB), em São Paulo, no valor de R$ 400 milhões.
Arruda, o preferido de José Serra para compor a
vice em sua chapa para as eleições de 2010, depois do flagrante, responde
agora a processo de expulsão do partido. O caminho da violência não vai
impedir as punições ao governador demista.
SÉRGIO CRUZ