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A Confecom
e a soberania informativo-cultural
Na primeira
Conferência Nacional de Comunicação, que se avizinha, o Brasil está
desafiado a descobrir, criativamente, caminhos eficazes para libertar seus
sistemas de informação e comunicação do controle imposto por interesses
rebaixados por um vale-tudo do mercado cartelizado e controlados por
ideologias, modelos e valores de países expansionistas
BETO
ALMEIDA*
“Uma notícia tá chegando lá
do interior,
nãodeu no rádio, no jornal,
nem na televisão”
(“Notícias do Brasil”, Milton
Nascimento e Fernando Brant)
Podemos considerar plenamente soberano um país que tenha o seu setor
audiovisual invadido em 95% por produção estrangeira pesadamente em sintonia
com interesses e valores destrutivos, imperiais e anti-nacionais?
Pode o Brasil pretender e
alcançar melhorar seu desempenho no jogo pesado do poder mundial - como está
tentando legitimamente - sem dispor de soberania plena sobre seu sistema de
satélites, hoje nas mãos de uma empresa desnacionalizada (Embratel) e
controlada por um país que está instalando bases militares na América do
Sul, além da Quarta Frota?
É admissível um país possuidor
de descomunais riquezas minerais e de um tesouro de biodiversidade -
despertando cobiças igualmente colossais e sinistras num mundo marcado pelo
intervencionismo de grandes potências - não dispor de um sistema de
comunicação nacional voltado para a defesa da brasilidade, dos interesses
nacionais, educativo, informativo e humanizador?
Será aceitável do ponto de
vista da soberania-informativa um país como o Brasil possuir salas de cinema
em apenas 8% dos seus municípios? É tolerável um país com inequívoco
potencial para posições de liderança no cenário internacional registrar
taxas tão indigentes de leitura de livros, jornais e revistas, inferior à
registrada na Bolívia, sendo tão pobre também no número de bibliotecas e
livrarias?
VULNERABILIDADE
INFORMATIVO-CULTURAL
Na idade da mídia, na idade do
conhecimento, é decisivo que temas tão estratégicos para a emancipação de um
povo e de uma nação recebam na Conferência Nacional de Comunicação que se
avizinha o tratamento adequado como questão de soberania
informativo-cultural. Assim, nesta primeira Confecom - convocada por um
presidente que sintetiza em sua própria história de vida a luta de um povo
por soberania informativo-cultural - a sociedade brasileira está
inapelavelmente desafiada a descobrir, criativamente, caminhos eficazes para
libertar seus sistemas de informação e comunicação do controle imposto por
interesses rebaixados por um vale-tudo do mercado cartelizado e controlados
por ideologias, modelos e valores de países intervencionistas e
expansionistas! Estamos confrontados com a obrigação de construir um modelo
de comunicação capaz de enfrentar a imensa vulnerabilidade
informativo-cultural que pesa como uma ameaça à Nação Brasileira.
Partindo do princípio que só se
pode considerar livre um povo efetivamente culto, constata-se estarmos
diante de uma gigantesca tarefa de iniciar nesta I Conferência Nacional de
Comunicação, uma caminhada para tentar fazer com que finalmente a
comunicação no Brasil cumpra pelo menos o que define a Constituição Federal.
O capítulo da Comunicação Social da Constituição, se cumprido plenamente, já
seria uma grande transformação comunicativa, pois prevê a proibição de
monopólio e oligopólio, a regionalização, a finalidade educativa e
informativa, e, especialmente, a complementaridade entre sistemas público,
privado e estatal de comunicação, o que felizmente vemos estar sendo
construído por nossos hermanos argentinos, com a aprovação de uma nova lei
democrática de comunicação, que democratiza até mesmo a exibição de futebol
na TV. Aqui, as tvs públicas estão proibidas de transmitir futebol. E as
partidas se realizam muito tarde para um povo trabalhador, depois das
telenovelas... o que é imposto por uma trama de interesses não públicos.
A CONFECOM E OS DOIS
PROJETOS
As importantes mudanças
comunicativas em curso na América Latina, apresentadas falsamente pelos
magnatas da mídia e pelo mais intervencionista dos países do mundo como se
fossem formas de censura estatal, realmente são o pano de fundo de tudo o
que se está discutindo pelo Brasil afora após a realização das Conferências
estaduais. Algumas delas exemplarmente televisionadas pelas tvs do campo
estatal, como a paranaense, transmitida ao vivo pela TVE do Paraná, e a de
Minas, transmitida também ao vivo pela TV Assembléia, ambas em sinal aberto.
Fica evidente o desafio para que também a TV Brasil e outras, seguindo o
feito exemplar das duas tvs estatais, também transmitam as conferências que
ainda faltam realizar e a própria Confecom Nacional.
Estes singelos, porém
importantes exemplos do Paraná e de Minas, estão sincronizados com a disputa
de dois projetos em curso na América Latina. De um lado movem-se os
poderosos interesses do grande capital pretendendo introduzir maiores
facilidades para as grandes empresas oligopolistas da mídia mundial,
demolindo ou flexibilizando os instrumentos de defesa de estado porventura
ainda vigentes nos países da periferia. Aquilo que pretendiam com a Alca,
projeto derrotado pelos povos que desenharam um novo mapa geopolítico
latino-americano. Mas, continuam tentando fazer de outro modo. Ainda nos
querem impor a Doutrina Monroe, agora para a era digital. Historicamente,
não pode o império deixar de ser império. Registre-se que Obama é Prêmio
Nobel da Paz, mas ameaça militarmente o Irã, exige que a China - maior
produtor mundial de computadores - renuncie à sua capacidade de
concorrência, instala sete bases militares na Colômbia, com evidente
capacidade operacional para todo o continente, como adverte, com lucidez, o
Ministro Samuel Pinheiro Guimarães. Neste quadro de sombras, o Brasil, nem
empresa nacional de satélites possui mais: FHC internacionalizou a Embratel.
Os movimentos intervencionistas visando expandir a ocupação de mercados cada
vez mais anexados à produção e à ideologia dos EUA, também são parte
essencial do quadro de vulnerabilidades ideológicas em que ocorre a
Confecom. Ainda que isto ainda não esteja explícito plenamente.
DESNACIONALIZAÇÃO
Empresas transnacionais querem
internacionalizar, desnacionalizar e obviamente cartelizar mais e mais a
comunicação no Brasil. O Projeto de Lei número 29, em tramitação na Câmara
Federal, é um exemplo claro dos movimentos intervencionistas imperiais para
retirar qualquer restrição ou defesa para livre operação dos oligopólios
internacionais na tv por assinatura e também para que as telefônicas
transnacionais - com suas sinistras ramificações de acionistas e anunciantes
que conduzem até à indústria bélica - possam atuar na televisão local, em
todas as modalidades. Para confundir os distraídos e ingênuos discutiram
“cotas de produção nacional”, quando deveria ser o contrário. É
indispensável que o Brasil tenha um instrumento de estado capaz de sustentar
a soberania informativo-cultural dos brasileiros, como também restrições a
esta deletéria invasão estrangeira de ideologias e valores imperiais,
sustentados por grandes empresas estadunidenses, muitas delas localizadas no
epicentro da crise financeira internacional e que, impunemente, continuam a
beneficiar-se da emissão de dólar sem lastro, papel pintado, com o qual
bancam projetos de renovada ingerência na América Latina.
Fazem parte deste projeto,
entre outras, ações como a do Usaid, financiando praticamente a fundo
perdido, Ongs , jornalistas e intelectuais latino-americanos para a defesa
dos valores estratégicos do Departamento de Estado dos EUA, sempre
entrelaçados com os grandes interesses das empresas norte-americanas, como
denunciam a advogada norte-americana Eva Golinger e o jornalista canadense
Jean-Guy Allard. Essas operações são ampliadas agora pela recente
determinação do programa radiofônico oficial do governo dos EUA, a “Voz da
América”, que decidiu fortalecer sua presença na América Latina, convocando
jornalistas para cursos e estabelecendo um formato de rede com outras 300
emissoras de rádio na região.
IMPEDIR OS CÂMBIOS
O objetivo é impedir a
transformação comunicativa em curso, cujo significado mais preciso é o da
recuperação dos espaços públicos midiáticos. A Venezuela recupera o espaço
radioelétrico como um bem público, antes seqüestrado por oligarcas da
comunicação, vassalos da ditadura petroleira norte-americana, e começa a
fortalecer sua tv e rádio públicas, a comunicação comunitária é um fator
democrático e soberano tangível na pátria de Bolívar, instala-se uma
poderosa indústria de cinema, a “Villa del Cine”, clássicos da literatura
internacional, como “Dom Quixote”, recebem tiragem na casa dos milhões e são
distribuídos gratuitamente. Até “Contos”, de Machado de Assis, mereceu na
Venezuela uma tiragem de 350 mil exemplares, quando aqui no Brasil a tiragem
padrão de livros é de apenas 3 mil exemplares. E nossa indústria gráfica tem
uma capacidade ociosa de 50%.
As mudanças percorrem os Andes,
e a Bolívia forma uma Rede de Rádios dos Povos Originários, lança um jornal
público, o “Cambio”, que em apenas seis meses de vida já vende tanto quanto
o maior jornal privado que tem décadas de privilégios de mercado, nas quais
apoiou todos os numerosos golpes de estado no país. No Equador a novidade
avança pela TV e Rádio públicos, cria-se um Conselho de Comunicação, há uma
revisão dos critérios para novas concessões atacando os privilégios para as
oligarquias tradicionais, que se consideravam portadoras de algum “direito
divino” para comandar a radiodifusão. A Argentina quebra o monopólio do
Grupo Clarim, reestrutura, fortalece e qualifica a TV e Rádio públicos
fundados na era peronista, reservando espaços iguais na radiodifusão para o
setor privado, o setor público-estatal e também para a sociedade organizada,
que terá direito a um terço do fazer comunicativo. Nicarágua e Uruguai
também fortalecem legislações que expandem e qualificam o papel da
comunicação pública. Estas mudanças estão na mira do império...
É neste pano de fundo que
ocorre a Confecom no Brasil, com a oposição da Sociedade Interamericana de
Prensa, entidade fundada pela CIA, e com seus jornais afiliados repetindo,
esbaforidos, que “vem aí a censura estatal”, além de publicarem todo e
qualquer tipo de ofensas aos governantes eleitos pelo voto das grandes
massas pobres, chamando Evo Morales de narcotraficante, Hugo Chávez de
psicopata e a Lula de analfabeto e outras baixarias. Se dissessem “cuidado,
podemos perder nossos privilégios”, ou “a ditadura de mercado sobre a mídia
está em risco”, ou “vamos ter que aceitar o absurdo de dividir a comunicação
com o setor público e a sociedade”, talvez estivessem divulgando
possibilidades mais realistas sobre o que está verdadeiramente em curso,
mesmo que ainda muito embrionariamente. E com barreiras imensas a serem
transpostas. Se Cristina Kirchner teve maioria parlamentar suficiente para
aprovar uma lei democrática de comunicação, o mesmo não ocorre aqui no
Brasil, pois a heterogênea base aliada de Lula possui forte e inconfiável
presença de radiodifusores.
Ainda com todas estas evidentes
ações de intervenção dos EUA contra as mudanças em curso ou contra aquelas
que apenas começam a ser desenhadas, como no Brasil, há quem defenda,
inclusive no chamado campo progressista, exemplos de práticas de comunicação
norte-americanas, ao invés de buscarmos elaborar as linhas mestras para
construir nosso próprio modelo de informação e comunicação, presidido pelo
princípio da soberania informativo-cultural.
UMA VOZ PARA O BRASIL
Será que um país com a
experiência sócio-histórica acumulada que tem o Brasil, com pensadores do
porte de um Álvaro Vieira Pinto, Câmara Cascudo, Roquette Pinto, Darcy
Ribeiro, Paulo Freire, Anísio Teixeira, Josué de Castro e tantos e tantos
outros, não teria também a condição de estruturar um sistema comunicativo
livre destes padrões e ingerências nefastas do intervencionismo neocolonial?
Não há clareza quanto aos objetivos avassaladores das políticas
comunicativas emanadas pela Casa Branca para o mundo e em particular para a
América Latina? Não se pratica lá uma das mais sofisticadas ditaduras
midiáticas do mundo, capaz até de seduzir e enganar toda uma sociedade para
que apoiasse a invasão do Iraque com base na mentirosa tese das armas de
destruição em massa, divulgada criminosa e incessantemente pelo sistema de
comunicação dos EUA, inclusive o público, com o que se cometeu um
sanguinário massacre? E ainda há quem apresente o sistema de rádio público
de lá como modelar, quando estão construindo um consenso interno para atacar
nuclearmente o Irã. Basta dizer que todo o sanguinário intervencionismo dos
EUA no mundo foi sustentado por sua mídia, inclusive sua comunicação
pública, o que nos leva a afirmar que o sistema comunicativo estadunidense
está entre os mais anti-democráticos do planeta, sobretudo se considerarmos
a capacidade que possui para submeter a voz e os direitos históricos dos
povos no mundo.
CARNAVAL, REDE, CÂMARA
CASCUDO, VILLA-LOBOS
O povo brasileiro foi capaz de
desenvolver inúmeras experiências sócio-culturais altamente comunicativas.
Mencionemos a inteligência da invenção da rede lembrada por Câmara Cascudo,
ou dos Coros Orfeônicos de massa criados pelo gênio de Villa-Lobos durante a
Era Vargas. Ou do Cine-Educativo de Roquette Pinto e Humberto Mauro, nesta
mesma fase de nossa história, quando a Rádio Nacional chegou a ser a quarta
mais potente emissora do mundo, emitindo em 4 idiomas, alcançando todos os
continentes e tendo entre seus escritores e cronistas nomes como Manuel
Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Nestor de Hollanda, Cecília Meirelles
etc. Tão significativa foi aquela experiência comunicativa da emissora
estatal que Carmem Miranda chegou a ser das principais cantoras nos EUA, e a
música “Aquarela do Brasil” a canção mais tocada no mundo em certo momento.
Produziu-se importante publicação de integração cultural panamericana como
“Pensamento da América”, retratada no interessante livro “América
aracnídea”. E nem é preciso discorrer muito sobre esta exuberante expressão
de comunicação de alcance planetário que é o Carnaval Brasileiro. Se
lembrarmos que tivemos uma Rádio Mauá - a Emissora do Trabalhador - com
razoável participação de segmentos sindicais, e que fomos capazes de criar
um programa como o “Voz do Brasil” quando o país era rural, quando as taxas
de leitura eram ainda mais indigentes que as de hoje, um programa que
chegava e ainda chega a todos os grotões levando informação relevante dos
poderes públicos e que hoje está ameaçado pelos magnatas da comunicação que
preferem o Voz da América, constatamos que podemos aproveitar parte
importante da nossa história. A Confecom é a oportunidade para tomar
consciência de nossas vulnerabilidades informativo-culturais, dimensionar
com realismo nossa imensa dívida e para iniciar a construção de um novo rumo
a seguir, um modelo democrático, brasileiro e soberano de informação.
OUSAR INVENTAR, ROMPER
PADRÕES
Como ensina Álvaro Vieira
Pinto: na nossa história, todas as vezes em que os brasileiros tentaram
ousar e inovar, quebrando padrões e modelos impostos das metrópoles, como os
quebrados pelo gênio de Villa-Lobos, sempre surgiam os “conselheiros”, os
“especialistas” dizendo que tudo já estava feito, que não há nada de novo a
fazer, que bastava seguir o caminho traçado... por eles. Foi assim que
implantamos e desenvolvemos sob as asas sombrias da ditadura e,
posteriormente, da tirania do mercado cartelizado, um sistema comercial de
comunicação verdadeiramente embrutecedor, basicamente seguindo o modelo dos
EUA.
Se Vargas tivesse dado ouvidos
aos “especialistas” dos EUA que juravam que no Brasil não havia petróleo,
hoje a Petrobrás não seria o colosso que é e nem teria a mais avançada das
tecnologias de prospecção marítima de petróleo! Nem estaríamos a discutir a
soberania sobre o petróleo pré-sal. Inovamos, ousamos, criamos, inventamos
lá atrás! Se fomos capazes de gestar um espírito inovador e criativo como o
de Santos Dumont, desdobrado posteriormente na construção de uma indústria
aeronáutica própria como a Embraer - embora internacionalizada na Era da
Privataria - fica claro que temos sim, como país e como povo, a capacidade
de construir um modelo também inovador de comunicação.
Aproveitar o que se fez de útil
no passado, readaptar para os desafios da contemporaneidade, mas, sobretudo,
retomando o caminho de dotar o estado de instrumentos capazes de realizar
políticas públicas soberanas e estratégicas, como as praticadas por muitos
países que não se avassalam e que por isso avançam na elevação
informativo-cultural de seus povos. Venezuela, Equador e Bolívia já
derrotaram o analfabetismo. A mídia atuou favoravelmente a esta conquista.
Aqui, o sistema midiático, com o mais profundo desprezo, expande a dívida
informativo-cultural que esmaga o nosso povo.
RÁDIO MAUÁ: A EMISSORA DO
TRABALHADOR
Sim, há tudo de novo por ser
feito. Desde a recuperação dos espaços públicos midiáticos para sua
verdadeira dimensão e missão públicas, a começar pela própria redistribuição
do espectro radioelétrico, conforme prevê a Constituição, na forma
tripartite que nunca foi regulamentada, como também para preservar o que é
essencial, como o programa Voz do Brasil. Ou ainda a recuperação daquilo que
foi importante e que foi demolido, como a experiência da Rádio Mauá. Que tal
se a Rádio Mec em Brasília, hoje apenas encarregada de repetir o quase
imperceptível sinal da Rádio Mec Rio - portanto, subutilizada - fosse
destinada à recuperação da histórica Rádio Mauá, remodelada, potencializada,
para que alcançasse todo o território nacional e tendo parte de sua
programação elaborada por uma Fundação de Comunicação do Trabalhador, gerida
democraticamente e de modo colegiado pelas centrais sindicais? A emissora já
existe, hoje está sub-aproveitada, bastaria uma decisão de governo. Seria
uma nova emissora do trabalhador, voltada para o mundo do trabalho, para
educar profissionalmente, ecologicamente, para o consumo responsável, a para
a agroecologia, para conceitos cidadãos de saúde, para educação estética,
para o trânsito civilizado, podendo sim fazer um grande diferencial.
Recursos para dotá-la de capacidade técnica e de quadros não faltam, já que
são fartos, por exemplo, os recursos públicos dirigidos para o Telecurso
Segundo Grau, programa escondido de seu público em transmissões pela
madrugada, desrespeitando os contribuintes que pagam por sua produção.
As propostas aprovadas pelas
conferências estaduais de comunicação indicam, primeiramente, pelo seu
volume e caráter repetitivo, o rompimento, o transbordar de algo que está
engasgado, está represado. Mas, indicam também que ainda falta uma política
mais realista para que se possa aproveitar a oportunidade da primeira
Confecom para avançar naquilo que é indispensável e que, em boa medida,
depende da organização das forças políticas progressistas em torno de uma
tática eficiente. Que consiste inicialmente em avaliar atentamente que Lula
não conta com a maioria parlamentar que Cristina Kirchner, Rafael Correa,
Hugo Chávez e Evo Morales possuem para fazer as mudanças que estão operando
na comunicação em seus países.
O SIGNIFICADO DAS 59
PROPOSTAS DA SECOM
As 59 propostas à Confecom
apresentadas pelo governo Lula, por meio da Secom, indicam um importante
grau de sintonia entre governo, amplas parcelas do movimento sindical-social
e segmentos anti-monopolistas do empresariado. Muitas das propostas da Secom
podem perfeitamente ser subscritas pelos delegados da Sociedade Civil, são
coincidentes. Do gesto de convocação da Confecom por Lula à apresentação
destas 59 propostas está a comprovação de que há condições reais para que a
Conferência vá além da produção de um documento a ser enviado e
posteriormente engavetado pelo Congresso Nacional, que é pressionado pela
maioria dos magnatas da mídia. As 59 propostas da Secom também revelam a
impropriedade de não se considerar o governo Lula como parte central na
aliança do campo popular para a democratização da comunicação, incompreensão
que ainda permanece em alguns segmentos.
As grandes mudanças na
comunicação do Brasil que dependem de mudanças constitucionais ou de sua
regulamentação desembocam necessariamente na discussão do cenário que
emergirá das urnas de 2010. Teremos uma maioria parlamentar não-capturada
pela bancada do coronelismo eletrônico com capacidade para impor mudanças
hoje? Essa base de sustentação deverá ser construída a partir da Confecom
para assegurar um processo de mudanças, difíceis de ocorrer sem um campo
popular organizado, no qual incluem-se governo Lula, movimentos
sindical-social, partidos políticos e até segmentos não-monopolistas do
empresariado.
A
CIÊNCIA DA TÁTICA
Mas, há mudanças que podem ser
operadas hoje, que estão ao alcance das políticas de estado, de ações de
governo. Exemplo disso é a proposta de recuperação da RTVI (Rede de TVs
Institucionais). Em 2004, Lula emitiu decreto presidencial criando tal rede,
que levaria a todos os municípios brasileiros, por meio de um sistema de
repetição, o sinal das emissoras institucionais, com a possibilidade de que
houvesse a geração de programação própria por um determinado período a cargo
de municípios. Como era esperado, tal proposta encontrou raivosa oposição da
Abert. Mas, obteve também a oposição, esta inesperada, da Fenaj, contrariada
pela forma do decreto-lei escolhida pelo presidente da república. Como se o
presidente eleito com mais 63 milhões de votos não tivesse
representatividade para tal decisão. Perdemos tempo. Mas, com a Confecom a
proposta pode ser recuperada, já que foi aprovada no Paraná e no Rio de
Janeiro. E pode ser atualizada para a tecnologia de TV digital, podendo
inclusive incorporar em seu novo formato as TVs Comunitárias, evidentemente,
operando em sinal aberto digital. O resultado bem poderia ser a
municipalização da TV no Brasil, com forte impulso na indústria de
equipamentos, gerando empregos, fortíssimo impulso no audiovisual
brasileiro, também ampliando empregos e inovação de linguagem, identidade
cultural e elevação estética, além de representar, simultaneamente, a
regionalização da produção jornalístico-cultural e a integração
informativo-cultural num país rico e continental, cujo vizinho, a Colômbia,
está a instalar bases militares dos EUA, provavelmente, não para uma
política de boa-vizinhança.
Portanto, é preciso definir
prioridades nesta Confecom, e entre elas está a operação de políticas de
comunicação e a construção de instrumentos de comunicação pública que nos
permitam, como povo cada vez mais organizado, assegurar de fato a soberania
informativo-cultural indispensável para que o Brasil possa atuar com
legítimo e mais eficiente protagonismo no perigoso e explosivo jogo do poder
político internacional. Mesmo que enormes mudanças sejam necessárias no
sistema de comunicação do Brasil, devemos nos perguntar, nas condições
atuais, na relação de forças atuais, e dentro do arco de alianças
indispensável para enfrentar potentes oligopólios estrangeiros e internos,
até onde vão as nossas forças e quais são as propostas que mais nos unem
agora?
Não será nesta Confecom o
ajuste final de contas com a ditadura midiática. Não será ainda o dia do
juízo final midiático. Provavelmente, as forças progressistas não tenham a
possibilidade de fazer a “virada de mesa” que desejam, inclusive porque
muitas delas estavam céticas até mesmo quanto a participar da Confecom. É
apenas uma etapa mais elevada desta longa caminhada, que deve ser
aproveitada para alinhavar a sustentação e implementação de várias
propostas, algumas delas emblematicamente defendidas pelo próprio Governo
Lula, sustentação que requer uma tática e um campo popular da comunicação
pública cada vez mais unido e fortalecido.
* Presidente da TV Cidade Livre de Brasília e membro da Junta
Diretiva da Telesur. |