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Laranjas dos EUA propõem que ricos emitam CO2
2 vezes mais
que pobres
O texto
“dinamarquês from Washington” foi condenado pelo Brasil, China, Índia e África
do Sul; pelo G-77 (que reúne 130 países) e, inclusive, pela União Européia.
“Querem reservar 60% da atmosfera para os 20% mais ricos”, denunciou o chefe da
delegação do G-77, Lumumba Dia Ping
Depois do “Climagate”,
outra bomba estourou na Conferência do Clima da ONU em Copenhague: o chamado
“texto dinamarquês”, através do qual os EUA desembarcaram no front, com a
Inglaterra a tiracolo, e os anfitriões de laranjas – e que foi recebido pelo
resto do planeta a bordoadas. Um texto articulado em segredo e à margem do
processo de discussão sobre o acordo que irá substituir o Protocolo de Kioto,
que irá vencer em 2012.
No documento
vazado, que o jornal inglês “Guardian” publicou, Washington propõe que os países
ricos tenham o privilégio de emitir, em 2050, o dobro de CO2 per capita em
relação aos países em desenvolvimento – 2,67 toneladas a 1,44 toneladas; o
abandono do critério de Kioto, de cortes obrigatórios de emissões de carbono aos
países ricos, e voluntários nos em desenvolvimento; o esvaziamento da ONU na
questão climática e transferência, ao Banco Mundial, dos fundos de financiamento
da redução de emissões.
“VULNERÁVEIS”
O “texto”
também não oculta a intenção de dividir os países em desenvolvimento, para poder
manipular os pequenos estados em favor dos EUA e, para isso, pretende criar a
figura dos países “mais vulneráveis”. Aos quais destinaria uma migalha, a ponto
de o chefe dos negociadores chineses, Su Wei, ironizá-la: “Com US$ 2, eu não
compro nem um café na Dinamarca”. Esses US$ 2 é a parte que caberia a cada
habitante da Terra, se a fabulosa soma oferecida fosse dividida entre todos.
Os países
emergentes – Brasil, China, Índia e África do Sul -, o G-77 (que reúne
atualmente 130 países), e inclusive a União Européia, apesar das contradições
dos europeus com os países em desenvolvimento, condenaram o documento dos EUA
por vários ângulos. Proposta dos países emergentes, redigida em resposta ao
texto “dinamarquês from Washington”, reafirmou que os países ricos devem reduzir
suas emissões de 25% a 40% até 2020, em relação a 1990, e que as metas dos
países em desenvolvimento sejam voluntárias, como reiterado na reunião de Bali,
em 2007.Fazer diferente significaria simplesmente condenar ao atraso os países
mais pobres, e que precisam que suas economias cresçam e gerem empregos,
enquanto os países ricos, já industrializados, e responsáveis centrais há
décadas pela poluição, são favorecidos.
A proposta dos
países emergentes também inclui a transferência de tecnologia dos países ricos
para os países em desenvolvimento, para que seja possível reduções nas emissões
e alterações na estrutura produtiva e na matriz energética. Segundo a proposta,
só faz sentido falar em meta de longo prazo, como 2050, se os países ricos
aceitarem cumprir as metas a médio prazo, como as para 2020. O que remete de
novo aos EUA e sua promessa de cortar suas emissões de carbono em 17% em relação
a 2005 - apontada pelo chinês Su Wei, como completamente insuficiente.
Quanto à
proposta [de Washington] de tornar obrigatório o cumprimento de metas para os
países em desenvolvimento, o que viola a concepção de Kioto, o chefe da
delegação brasileira em Copenhague, Luiz Alberto Figueiredo Machado, repeliu a
idéia na quarta-feira dia 9, assinalando que o tema “sequer está sobre a mesa de
discussão”. O embaixador sudanês e chefe da delegação do G-77, Lumumba Stanilas
Dia Ping, afirmou que os países em desenvolvimento “não irão assinar um acordo
injusto”. “Não podemos aceitar um acordo que condena 80% da população mundial ao
sofrimento”. Ele denunciou que o texto vazado “quer reservar 60% da atmosfera
para os 20% mais ricos” e que ignora a “responsabilidade histórica” dos países
industrializados, que têm emissões de carbono mais altas “há muito mais tempo”.
EUA: “NÃO A KIOTO”
Também a União
Européia se chocou com os EUA. Enquanto os europeus colocavam a “arquitetura de
Kioto”, o “sistema de Kioto” como a base do novo acordo do clima que terá de ser
negociado para vigorar a partir de 2013, o representante norte-americano, Todd
Stern, recusou a proposta, admitindo no máximo a manutenção do “mercado de
carbono”. “Se estão falando em pôr outro nome no Protocolo de Kioto, não vamos
aceitar”. “Não vamos fazer parte de Kioto”, insistiu.
ANTONIO PIMENTA
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