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O
presidente Lula e o palavrão que incomoda
GILSON
CARONI FILHO*
Se tratar da língua é tratar de um tema
político, a fala sem rodeios do presidente Lula, durante cerimônia de
assinatura dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão,
vai encher a seção de cartas de jornais e revistas, além de dar o tom do
moralismo seletivo dos grandes articulistas. Fingirão não saber que palavras
tidas como chulas são formas lingüísticas ímpares para expressar emoções que
permeiam o corpo e os amplos campos das relações sociais. Não está em
questão se o emprego se deu em contexto adequado, mas o que move o coro dos
“indignados”.
Ao afirmar que “eu não quero saber se o João
Castelo é do PSDB. Se o outro é do PFL. Eu não quero saber se é do PT. Eu
quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em
que ele se encontra; esse é o dado concreto”, Lula tem consciência de que os
opositores dirão que desrespeitou a postura pública que deveria manter em
face de majestade do cargo que ocupa. Tanto que se antecipa à crítica
anunciada: “Amanhã os comentaristas dos grandes jornais vão dizer que o Lula
falou um palavrão, mas eu tenho consciência que eles falam mais palavrão do
que eu todo dia e tenho consciência de como vive o povo pobre desse país”.
Como tem sido colonizada para ter vergonha de
ser o que é, uma boa parcela da classe média urbana se apresenta como
defensora intransigente da propriedade, da família e do Estado Patrimonial.
Confunde governo e salvação, ignora a representação, desconhece direitos
sociais e políticos, menosprezando a exploração econômica, embora seja
“mobilizável” por campanhas de caridades que reforcem a sua imagem de
privilegiadas. Em busca de ilusões perdidas, está disponível para aventuras
que realçam a ferocidade dos seus recalques. E qualquer enunciado que
apresente um padrão variante é o suficiente para açular o seu ódio de
classe.
Pouco lhe importa se campeia a violência, a
truculência e a miséria. Em seu ilusório casulo, o que merece relevo é o
destempero verbal de um presidente que não segue os padrões dos antigos
donos do poder. É de pouca importância se o governo anterior reduziu a zero
os empréstimos da Caixa Econômica Federal às autarquias e estatais da área
de saneamento básico. Também não lhe tira o sono se a decisão política do
tucanato provocou, além da dengue, surtos de cólera, leishmaniose visceral,
tifo e disenterias. Ora, doenças resultantes da falta de saneamento não lhe
incomodam, pois fezes liquefeitas são desprezíveis. A merda que lhe aflige é
aquela que aparece no improviso presidencial como dado concreto.
Para Lula, o descalabro no saneamento é uma
tragédia, e, de fato, o é. Por sua história, o presidente faz parte de uma
legião de sobreviventes. De um exército que resistiu a séculos de
dificuldades imensas, naturais e humanas. Tem orgulho saudável de sua força.
Da força desse povo que come mandacaru e capulho verde de algodão e ainda
tem a esperança desesperada de querer viver. Isso é coragem, é grandeza.
Essa é a merda que a causa engulhos na grande imprensa e nos seus leitores
indignados. Mas indignados com o quê, afinal?
Indignados pela existência de erros que se
repetem há tempos? Indignados pela impotência de um saber divorciado da
dimensão histórica e da responsabilidade social que deveria caber aos
centros de ensino que freqüentaram? Indignados pela ameaça, concreta e
imediata, da morte, pela fome endêmica e, até bem pouco tempo epidêmica, dos
mais miseráveis? Não. O que os ruborizados pelo emprego da palavra “merda”
não suportam é a ausência do promotor da “paz social”, do garantidor de uma
ordem política que lhes oferecia, através do conservadorismo autoritário,
uma institucionalidade que muito apreciavam ética e esteticamente. Um
simulacro de república feito sob medida.
O problema é que a vestimenta institucional
brasileira parece calça curta, fazendo o país caminhar desajeitado, com medo
do ridículo. A reforma mais urgente requer produção crescente de cidadania,
a criação incessante de sujeitos portadores de direitos e deveres. Em uma
sociedade fracionada, essa é a “merda” que ameaça e choca os estamentos mais
reacionários: a realidade que não deveria ter emergido com modelagem tão
nítida.
*Gilson
Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio
Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do
Jornal do Brasil |