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Obama recebe Nobel da
paz
exaltando guerras dos EUA
Sustentou que “a
América nunca travou uma guerra contra uma democracia”, quando foram dezenas
as democracias agredidas pelos EUA
No
discurso de Obama,em Oslo, ao receber o prêmio Nobel da paz, foi muito
peculiar a saudação aos “esforços de Ronald Reagan com relação ao
controle de armas”.
Reagan promoveu a maior corrida armamentista, até então, da história.
Multiplicou ogivas nucleares, enterrou bilhões de dólares num delírio
apelidado de “Guerra nas Estrelas” (com a ideia de desfechar uma guerra
nuclear contra a URSS sem sofrer retaliação) - e até mandou fabricar um
encouraçado, categoria de belonave desaparecida, porque, numa guerra naval
de hoje, seria apenas um belo alvo. Além disso, Reagan encheu de armas
qualquer mercenário ou terrorista - na Nicarágua (US$ 30 bilhões para
assassinar 50 mil civis), em Angola, na Colômbia, na Guatemala, em El
Salvador (75 mil civis assassinados) e no Camboja. Também invadiu o Líbano e
Granada.
Entretanto, segundo Obama, “a América nunca travou uma guerra contra uma
democracia”.
Os Estados Unidos agrediram dezenas, talvez centenas de democracias, e,
precisamente, para instalar ditaduras no lugar, desde a Guatemala, do
presidente Arbenz ao Irã, do primeiro-ministro Mossadegh; desde o Congo, do
primeiro-ministro Patrice Lumumba, ao Brasil, do presidente Goulart; desde o
Chile, do presidente Allende, à Indonésia, do presidente Sukarno, o Uruguai,
a Argentina (mais de uma vez), a Bolívia (mais de várias vezes) – e a lista
ainda está muito incompleta. Nem falamos da ditadura de Papa Doc Duvalier,
sustentada pelos EUA no Haiti durante 14 anos.
Excetuando guerras internas, a única guerra em que os EUA entraram para
defender a democracia foi a II Guerra Mundial, e graças ao grande presidente
Franklin Delano Roosevelt.
A propósito, vejamos uma testemunha ocular, o general norte-americano
Smedley Butler, o homem que organizou os marines, republicano, fuzileiro
naval mais condecorado e o mais jovem militar a chegar a general na história
dos EUA, duas vezes distinguido com a maior condecoração norte-americana, a
“Medalha de Honra do Congresso”, patrono do campo de treinamento da
corporação.
Em seu livro de 1935, “War Is a Racket”, o general Smedley Butler escreveu:
“A guerra é uma fraude. Nenhum país jamais declarou alguma vez uma guerra
contra nós, antes de que nós o obrigássemos a fazê-lo. A nossa história
inteira demonstra que nós nunca lutamos uma guerra defensiva. Em 1914, eu
ajudei a fazer com que o México, e especialmente Tampico, fosse seguro para
os interesses petrolíferos americanos. Eu ajudei a fazer com que o Haiti e
Cuba fosem um lugar decente para que os rapazes do National City Bank
colhessem seus lucros. Eu ajudei a estuprar meia dúzia de repúblicas da
América Central em benefício de Wall Street. O registro de fraudes é longo.
Eu ajudei a purificar a Nicarágua para a casa bancária internacional Brown
Brothers, em 1909-1912. Eu trouxe luz para os interesses açucareiros
americanos na República Dominicana em 1916. Eu ajudei a fazer de Honduras um
país “certo” para as companhias americanas de frutas em 1903. Na China, em
1927, eu ajudei a Standard Oil para que seu caminho não fosse molestado...
Eu poderia ter dado a Al Capone algumas dicas. O melhor que ele podia fazer
era operar sua fraude em três distritos da cidade. Nós, marines, operamos em
três continentes.... A nossa bravura contra os índios, os filipinos, os
mexicanos, e contra a Espanha, estão no mesmo nível das campanhas de Gengis
Khan, dos japoneses na Manchúria e do ataque de Mussolini na África”.
Mas, segundo Obama, isto é porque os EUA “vêm ajudando a subvencionar a
segurança global há mais de seis décadas com o sangue de nossos cidadãos e a
força de nossas armas. O serviço e o sacrifício de nossos homens e mulheres
uniformizados vêm promovendo a paz e a prosperidade (….) e permitiu que a
democracia deitasse raízes [em outros países]”.
Ele poderia ter acrescentado que os EUA também preservaram raízes
democráticas já existentes: por exemplo, sustentaram Franco na Espanha e
Salazar em Portugal, depois que Hitler e Mussolini levaram a breca.
E, também, segundo ele, “a América sempre será uma voz das aspirações que
são universais”.
O general Smedley Butler já esclareceu este ponto e o universo dispensa tal
porta-voz. Mas “América” é o nome do continente. Os EUA não anexaram os
outros países - melhor que cuidem de sua própria falência. Mas aí está a
questão.
Obama tem se submetido à politica dos monopólios – sobretudo os bancos –
para sair da crise. Essa política é a de descarregar nos outros países um
Everest de dólares sem lastro, resultantes de uma colossal emissão de
trilhões de dólares – 14 trilhões até março, 18 até maio e, segundo cálculos
da própria autoridade encarregada de fiscalizar o subsídio aos bancos, o
inspetor-geral especial Neil Barofsky, teria atingido US$ 23,7 trilhões em
junho.
Assim, com essa descarga, bancos e outros especuladores norte-americanos
sobrevalorizam as outras moedas, travam as exportações dos outros países,
forçam importações, e fazem aquisições a torto e a direito. Em suma, pilham
o mundo. Depois de assinar embaixo dessa guerra, não é surpreendente que
Obama vá defender a guerra, isto é, a agressão dos EUA a eles, enquanto
recebe o prêmio Nobel da paz.
Os EUA saíram de crises anteriores através da guerra e de transformar a
indústria bélica no principal setor de sua economia. O orçamento militar
enviado ao Congresso por Obama, para o ano que vem, é o maior orçamento
militar de toda a História – US$ 680 bilhões. Enquanto isso, milhões de
trabalhadores norte-americanos e suas famílias se desesperam no desemprego,
despejo e fome. Obama, que se diz seguidor de Martin Luther King (e de
Gandhi!), afirmou que “como chefe de um Estado que fez um juramento de
proteger e defender meu país, não posso me deixar guiar unicamente pelos
exemplos deles”, e se reserva o direito de declarar guerra “unilateralmente”
para, supostamente, defender os EUA.
Martin Luther King realmente protegeu e defendeu o seu país, e não precisou
ser chefe de Estado para isso. Foi ele que advertiu: “uma nação que gasta
mais dinheiro em armamento militar do que em programas sociais está
caminhando para a morte espiritual”. Na situação atual, está caminhando
para a morte, pura e simples.
Porém, como também disse Martin Luther King, “pessoas oprimidas não podem
permanecer oprimidas para sempre”.
Em Oslo, Obama disse que “a opressão sempre conviverá conosco”,
e, ainda, que “podemos admitir a incorrigibilidade da pobreza”.
As más companhias podem desencaminhar até boas pessoas. Porém, o problema é
aquele, também lembrado por Martin Luther King: “Ninguém montará em cima
de nós se não nos curvarmos”.
Apesar das milhares de ogivas nucleares dos EUA, Obama acha que problema
para a paz é o Irã, que nunca teve bomba atômica alguma, ou a Coreia
Popular, que desenvolve um programa estritamente defensivo – e não são
países agressivos, mas países ameaçados pelos EUA.
Portanto, só é possível rir quando ele, nitidamente respondendo ao
presidente Lula, que muito justamente observou que para ter moral de cobrar
que outros não tenham armas nucleares, antes de tudo é preciso não ter armas
nucleares, fala que o mundo não pode ficar cego diante do “perigo de uma
corrida armamentista no Oriente Médio ou no leste da Ásia”. Só se a
“América” mudou de lugar.
Mais divertido ainda foi a condenação de Obama às guerras santas e ao
fanatismo religioso. Como se a doutrina imperialista dos EUA não fosse, há
dois séculos, pelo menos, a do “destino manifesto” que Deus lhe teria
reservado.
Voltando a Martin Luther King: “nada no mundo é mais perigoso que a
ignorância sincera e a estupidez conscienciosa”. Pois é.
CARLOS LOPES |