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Governo de SP
deixou de construir 91 piscinões e de limpar Rio Tietê
Engenheiro,
ex-presidente da Fundação Agência do Alto Tietê, denuncia que tucanos não
fizeram o que foi planejado para impedir inundações. Só tira um terço dos
sedimentos que se acumulam no Tietê e, em dez anos, deixaram de construir 91 dos
134 piscinões necessários para conter a água
O
engenheiro Júlio Cerqueira César Neto, em entrevista neste domingo (20) ao site
de notícias “Vi o Mundo”, desmontou os argumentos usados pelo governador do
Estado de São Paulo, José Serra (PSDB), e pelo prefeito da capital, Gilberto
Kassab (DEM), para justificar as grandes enchentes que devastaram a cidade nos
últimos meses.
Serra disse que a culpa pelas enchentes foi do “lixo jogado na rua pela
população”, já Kassab culpou a “quantidade anormal de chuvas no período”.
Mas de acordo com o especialista Júlio Cerqueira, que foi professor de
Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo por
30 anos e é considerado um dos grandes especialistas dessa área no Brasil, “São
Pedro e a educação sanitária não são os causadores das enchentes de 8 de
setembro e 8 dezembro”. Segundo ele, “a inundação aconteceu porque o Tietê
estava com mais da metade da sua capacidade obstruída por resíduos depositados
no fundo do seu canal e que não foram limpos adequadamente pelo governo do
estado”.
Cerqueira, que também foi, entre 2002 e 2006, presidente da Fundação Agência da
Bacia Hidrográfica do Alto Tietê - Região Metropolitana de São Paulo (BAT-RMSP),
afirmou que “as duas chuvas [de 8 de setembro e 8 dezembro] foram moderadas.
Aliás, sempre que acontece uma enchente dessas, o prefeito, o governador, os
secretários aparecem dizendo que São Pedro foi o responsável. Nada deixa a
população mais irritada do que essa desculpa esfarrapada.”
O professor explica que “entre a barragem da Penha [Zona Leste] e o Cebolão
[Zona Oeste]”, são depositados “aproximadamente 1,2 milhão de metros cúbicos de
terra” por ano, e “se você deixar isso no fundo do rio, a capacidade dele
diminui”. De acordo com o Cerqueira, “o DAEE [Departamento de Águas e Energia
Elétrica do Estado de São Paulo] faz a limpeza, mas tira apenas 400 mil metros
cúbicos por ano”.
Para o especialista o assoreamento do Rio Tietê é uma das principais causas das
enchentes, o que “consequentemente, diminui também a capacidade de transporte de
água na hora da chuva”. “Em vez de ter espaço para passar, por exemplo, 1.000
metros cúbicos por segundo, só ‘cabem’ 500. Os outros 500 transbordam”. Por
exemplo, “no dia 8 de setembro, às 16h30m, no Viaduto da Casa Verde, um
engenheiro mediu a quantidade de água que passava no rio. Deu 735 metros cúbicos
por segundo. Ali, naquele trecho, se o canal do Tietê estivesse limpo, poderia
passar mais de 1.000 metros cúbicos por segundo. Se o Tietê já transbordou com
735 metros cúbicos é porque estava assoreado”, disse.
E lembra que na chuva de 8 de dezembro “nenhum engenheiro foi lá medir. Mas
pelas consequências a coisa foi muito semelhante à de 8 de setembro. Se a vazão
não foi 735 metros cúbicos por segundo, foi de 835, 800, ou algo parecido”.
O especialista alerta “se não houvesse assoreamento, a cidade não teria
inundado. Houve inundação, porque o Tietê estava ainda mais assoreado do que em
setembro. As causas que levam às enchentes são principalmente o assoreamento e a
má limpeza do rio”.
Outro fator que agrava a situação do assoreamento, segundo o especialista, é o
problema da calha do Tietê. “A calha do Tietê foi projetada há 20 anos. Na
época, previa-se que a vazão de 1.000 metros cúbicos por segundo seria adequada
para os nossos dias. Dez anos depois de iniciada a obra [que levou 20 para ficar
pronta], verificou-se que os 1.000 metros cúbicos já não seriam suficientes.
Eram necessários 1.400. A urbanização foi muito mais intensa e mais rápida do
que o imaginado. Ampliar o tamanho da calha não dá mais”.
Mas ressalta que “mesmo que a calha do Tietê estivesse limpa, ela seria
insuficiente para uma capacidade de 1.300 metros cúbicos por segundo, por
exemplo, que são vazões que ocorrerão daqui para frente, no período chuvoso, que
vai principalmente de janeiro a março”.
Cerqueira ainda denunciou que “na quarta-feira, a Câmara Municipal [de São
Paulo] aprovou o orçamento da Prefeitura”. E que “para 2010, a verba de córregos
e galerias para o sistema de drenagem pluvial da cidade foi cortada pela metade.
E olha que provavelmente nem o orçamento inicial seria suficiente”.
O especialista afirma que mesmo que construir mais 91 piscinões, além dos 43 que
existem, seja a única solução hoje em dia, “na prática, os piscinões são
verdadeiros esgotos”. “Ainda mais quando a água fica parada. Daí, sim, ela
decanta, formando um lodo no fundo. É uma situação sanitária extremamente
desfavorável. Esse é um dos aspectos pelos quais eu não gosto dos piscinões. Na
sequência, eles se tornam um tremendo problema; são foco de proliferação de
doenças na cidade”. |