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Intransigência dos países ricos impede acordo em Copenhague
Tudo a que
os países ricos chegaram – com os Estados Unidos encabeçando a
intransigência, coadjuvado pela Inglaterra – foi a irrisória quantia de US$
10 bilhões por ano, ao longo de três anos. Algo como menos de 2 dólares per
capita
Terminou sem
acordo a conferência da ONU sobre a mudança climática, a COP-15, após os
países ricos – isto é, os maiores poluidores – se recusarem a pôr sobre a
mesa os recursos prometidos e insistirem em penalizar por vários mecanismos
os países em desenvolvimento. Sequer foi aprovado um texto final e nem mesmo
tirada uma foto oficial, e agora as decisões ficaram para a próxima
conferência, a COP-16, que ocorrerá no final de 2010 no México.
O presidente
brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (veja matéria na página 3), já havia
situado a questão em seu discurso: não é “favor” nem “esmola”. “Porque o
dinheiro que vai ser colocado na mesa é o pagamento das emissões de gases de
efeito estufa de dois séculos de quem teve o privilégio de se industrializar
primeiro”. Brasil, África do Sul, a Índia e a China encabeçaram o movimento
para arrancar dos países ricos definições sobre o problema.
Tudo a que os
países ricos chegaram – com os EUA encabeçando a intransigência, coadjuvado
pela Inglaterra – foi a irrisória quantia de US$ 10 bilhões por ano, ao
longo de três anos e a definição de que o aumento de temperatura global “não
poderia exceder 2º C”. Algo como menos de 2 dólares per capita para a
“sobrevivência da humanidade”. O que não tinha como ser aceito pelos
representantes de mais de uma centena de países em desenvolvimento,
confrontados com as ameaças de devastação enunciadas pelo Painel
Intergovernamental do Aquecimento Global, inclusive o desaparecimento.
Até 2020, essa
ninharia evoluiria para nebulosos “US$ 100 bilhões anuais, públicos e
privados”, sem, porém, dizerem de onde virão; segundo os EUA, viria “do
mercado”, isto é, da especulação. Segundo o Wall Street Journal, o JP Morgan
e outros grandes bancos já pensam em transformar o tráfico de permissões de
emissão de carbono na “maior commodity do mundo”, inclusive com “derivativos
de carbono”.
METAS DO BRASIL
Quanto ao
período entre 2012 e 2020, nada. Como observou a ministra-chefe da Casa
Civil do Brasil, Dilma Roussef, não existe qualquer cronograma por parte dos
países ricos de desembolsos. “Nós sabemos que em 2020 eles pretendem aportar
US$ 100 bilhões, mas e até lá? Ficará a descoberto?” O Brasil, reiterou,
“vai manter o que se propôs, redução entre 36% e 39% [sobre 1990] das suas
emissões até 2020”.
As frouxas
promessas dos países ricos quanto a reduções de emissões de carbono no curto
prazo (2020) – cuja contenção dizem inadiável – logo evoluiu para total
falta de definição dos cortes no longo prazo: os 50% de redução em 2050, em
relação aos níveis de 1990 sumiram do comunicado. A propósito, o texto
também não esclarece em relação a qual temperatura se mede os “2º C máximo
de acréscimo”.
Não que os
países ricos, os EUA à frente, tenham saído particularmente satisfeitos com
o rumo dos acontecimentos. O que os EUA queriam ficou expresso no documento
“referencial” vazado logo no início da COP-15, e que pretendia dar fim ao
chamado “Princípio de Kyoto”: caráter obrigatório dos cortes de emissões dos
países ricos, isto é, poluidores, e voluntários para os países em
desenvolvimento. Também a passagem do controle dos fundos para a mudança
climática, da ONU para o Banco Mundial (que os EUA controlam). Dinheiro, só
para a nova categoria de países “mais vulneráveis”- manobra utilizada para
buscar dividir os países em desenvolvimento. Os EUA também prometiam um
corte de emissões ridículo, de 4% sobre os níveis de 1990 (malandramente
apresentado como 17% sobre os níveis de 2005).
Posteriormente,
os EUA acrescentaram ao seu rol de exigências inspeção dos países em
desenvolvimento para verificação de cortes de emissões, enquanto, como
sempre, o maior poluidor do planeta não aceita regra nenhuma. A China se
opôs, apoiada pela Índia e pelo Brasil. Além da falta de dinheiro, também
não havia qualquer compromisso com a transferência de tecnologia para a
concretização das transformações da matriz energética, o que era cobrado
pelo Grupo dos 77 – organização que congrega mais de uma centena de países
em desenvolvimento. Para o presidente do G-77, o sudanês Lumumba Stanislaus
Di Aping, o arremedo de acordo “vai colocar os países em desenvolvimento num
ciclo de pobreza para sempre”.
Quanto ao que
está em jogo, o “Diário do Povo” registrou que a China tratará as
negociações sobre um novo tratado climático em 2010 como uma luta “pelo
direito a se desenvolver”.
ANTONIO PIMENTA
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