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Confecom: uma
primeira vitória e uma nova etapa na longa luta
Para a
oligarquia midiática qualquer ação feita com o sentido de criação de políticas
públicas para a comunicação é inevitavelmente censura estatal, porque tratam a
comunicação como se fosse um latifúndio, uma fábrica qualquer de medicamentos
falsificados, embora bem embalados
BETO ALMEIDA*
Era um, era dois,
era cem/ Era um dia, era claro/ Quase meio/ Encerrar meu cantar/ Já convém/
Prometendo um novo ponteio/ Certo dia que sei/ Por inteiro/ Eu espero não vá
demorar/ Esse dia estou certo que vem/ Digo logo o que vim/ Prá buscar/ Correndo
no meio do mundo/ Não deixo a viola de lado/ Vou ver o tempo mudado/ E um novo
lugar prá cantar…/ Quem me dera agora/ Eu tivesse a viola/ Prá cantar/ Ponteio!…
(“Ponteio” - Edu
Lobo e Capinam)
Basta tomar as manchetes rancorosas da grande mídia
capitalista contra a primeira Conferência Nacional de Comunicação para comprovar
que o evento representa indiscutivelmente uma importante vitória das forças
progressistas no Brasil. Especialmente a TV Globo e o jornal “O Globo” dedicaram
espaços para destruir a imagem desta primeira Confecom na história do Brasil,
como se não fosse possível fazer um evento democrático na área da comunicação
sem a anuência destes setores. Este era um tema proibido, hoje é agenda do
Estado e da sociedade.
Nestas manchetes,
revela-se que os grandes magnatas da mídia sentiram o golpe, pois para eles é
inadmissível que este tema Democracia na Comunicação seja tratado pública e
democraticamente. Muito menos aceitável, para eles, é que o governo patrocine
tal evento. Para a oligarquia midiática qualquer ação feita com o sentido de
criação de políticas públicas para a comunicação é inevitavelmente censura
estatal, porque tratam a comunicação como se fosse um latifúndio, uma indústria
de alimentos contaminados, uma fábrica qualquer de medicamentos falsificados,
embora bem embalados.
A grande diferença é
que o governo atual não está interessado em censura mas em promover a
democratização da comunicação. E para isto cuidou de construir uma aliança com
os movimentos sociais e com setores não monopolistas do empresariado para
viabilizar a Confecom, neutralizando, de certa maneira, a sabotagem organizada
pela Abert, Anj e Aner. Primeiro é preciso reconhecer em geral o acerto desta
tática de construir alianças entre governo e sociedade organizada, mas também
com setores do empresariado dispostos a aceitar que a comunicação seja discutida
por toda a sociedade e não apenas pelos pequenos círculos oligopolistas de
sempre.
Pode-se prever que o
tom de críticas a Lula será ainda mais azedo e odioso, do mesmo modo como também
condenam e insultam Chávez, Rafael Correa, Evo Morales e Cristina Kirchner por
promoverem medidas de democratização na comunicação e por terem tido a coragem
de questionar e enfrentar os indecentes privilégios que aqueles magnatas da
comunicação sempre tiveram. Eles não perdoarão jamais a Lula por ter convocado
uma Conferência oficial para tornar a comunicação tema de todos os brasileiros.
ORGANIZAR
O CAMPO POPULAR DA COMUNICAÇÃO
A Confecom aprovou
temas importantes, seja medidas de aplicação imediata, consideradas exequíveis
porque dependem exclusivamente de ato de governo legitimado por um presidente
que teve 63 milhões de votos e agora tem o respaldo de uma conferência nacional.
Exemplo disto é que quando em 2004 o presidente Lula assinou decreto-lei criando
a Rede de TVs Institucionais, que levaria o sinal destas emissoras a todos os
municípios (que também poderiam ter espaço de produção local de uma pequena
parte da programação), encontrou ampla oposição da Abert taxando o decreto de
estatizante. Mas, também a Fenaj se opôs à criação da RTVI, especialmente por
discordar da via do decreto. Sem respaldo, e com outras dificuldades, Lula
recuou. Agora tem consigo as resoluções aprovadas da Confecom, legitimadas pela
ampla participação da sociedade, inclusive de um setor do empresariado. O que
não elimina a necessidade do fortalecimento do campo democrático e popular de
comunicação para a implementação das resoluções, consistindo na manutenção da
aliança entre governo, partidos políticos, movimentos sindicais, movimentos da
sociedade e segmentos empresariais não monopolistas.
Agora a Confecom lhe
dá o respaldo para que, por meio de atos de governo, seja portaria, seja decreto
ou regulamentação, muitas resoluções aprovadas sejam transformadas em realidade.
Aqui incluídas uma boa parte das 59 propostas que a Secom aprovou na
conferência, tendo como linha o fortalecimento da comunicação pública, como a
criação do Operador Nacional Único de Rede nas mãos da EBC, a mudança de
critérios para a publicidade institucional que também alcançará a comunicação
comunitária, a inclusão dos canais comunitários na TV digital em sinal aberto, a
distribuição equitativa de concessões na era digital para os segmentos público,
estatal e privado, uma nova relação com as rádios comunitárias a partir de
estruturas específicas para desburocratizar seus pleitos, o fim da
criminalização ao setor, inclusive porque passarão a fazer parte também,
oficialmente, da pauta de publicidade institucional, o que é uma relação
concreta entre estado e movimentos sociais que sustentam a radiodifusão
comunitária.
Deste modo, o
pessimismo ou o ceticismo de muitos delegados, que só durante o transcorrer da
Confecom foram se convencendo que estão de fato fazendo avançar e concretizando
um leque de reivindicações que, durante décadas, eram apenas alardeadas como
algo muito remoto, devem ser transformados não em otimismo inconsequente, mas
num realismo ativo, construtivo, indicando que foi feita uma Confecom possível,
com resultados práticos e com conteúdo político e programático justo para a
continuidade de uma luta que exige medidas de fundo, muito mais radicais, que só
num outro governo e com outras relações de força poderão ser adotadas.
BANDEIRAS
HISTÓRICAS E PROPOSTAS EXEQUÍVEIS
Todas as demandas
históricas do movimento pela democratização da comunicação também foram
debatidas - a profundidade dos debates foi enormemente prejudicada pela péssima
organização dos trabalhos a cargo da FGV, com erros tão primários que o governo
está na obrigação de investigar - e em boa medida aprovadas. Há consciência de
que estas bandeiras históricas, relacionadas à regulamentação do capítulo da
Comunicação Social na Constituição, dependem de um acúmulo de forças muito maior
na sociedade brasileira. Se aceitarmos uma estimativa de que a Confecom envolveu
a participação de 30 mil pessoas que estiveram nas conferências municipais,
conferências estaduais, conferências livres, seminários sindicais, encontros de
segmentos, talvez estejamos diante da necessidade de aceitar que ainda falta
muito para transformar radicalmente uma tirania midiática instalada há décadas,
com poderes de fato para interferir nos rumos do processo político, econômico e
social. Só agora, a partir da Confecom, o debate da comunicação poderá deixar
de ser coisa de especialistas, de comunicólogos, ou de jornalistas, para ganhar
de fato a atenção de amplos setores da sociedade.
Desse modo, é
importante vitória que as concessões de TV e rádio sejam debatidas e
questionadas não apenas por círculos pequenos acadêmicos ou sindicais, que haja
propostas para a democratização de suas outorgas e que a renovação destas
concessões sejam obrigatoriamente submetidas ao crivo da participação da
sociedade, por meio de audiências públicas. É também enorme vitória a aprovação
pela Confecom de resoluções visando regulamentar a Constituição que já prevê a
proibição do oligopólio e monopólio, que exige o uso educativo e informativo
destes serviços, que estabelece a complementaridade entre os segmentos público,
estatal e privado, apontando na direção do fortalecimento dos segmentos público
e estatal, largamente preteridos na atualidade pelos indecorosos privilégios que
o setor privado recebeu ao longo de décadas.
CONSELHO DE
COMUNICAÇÃO SOCIAL
A Confecom foi além
ao aprovar resoluções contra a discriminação racial ou de gênero, contra a
publicidade anti-saúde promotora de consumo irresponsável e destrutivo, contra
as agressões publicitárias à criança. Especialmente por ter aprovado a criação
do Conselho de Comunicação Social, proposta também de iniciativa do governo
Lula. Sem desprezar a recuperação do Conselho de Comunicação do Congresso, hoje
paralisado. Certamente, tais lutas demandarão enorme esforço de continuidade da
ampliação das forças hoje em ação para que possam efetivamente virar realidade.
Mas, para isto, já conta com o fortalecimento do campo público da comunicação,
incluindo a expansão das emissoras ligadas à EBC, as TVs e rádios educativas,
legislativas, comunitárias e universitárias, o que não depende de aprovação do
Congresso Nacional, o que seria improvável a curto prazo. É fundamental que o
Campo Popular da Democratização também aponte a sua luta para formar uma Bancada
da Comunicação Democrática nas eleições de 2010, além de fazer com que os
presidenciáveis se posicionem e se comprometam claramente com as resoluções da
Confecom, como aliás, Lula mencionou na abertura do evento.
PROPOSTAS
ESTRATÉGICAS
Há ainda um leque de
medidas de cunho estratégico aprovadas na Confecom, especialmente aquelas
reiteradas reivindicações para que o governo promova, como política de estado,
um Plano Nacional de Banda Larga, democrático, inclusivo, chegando aos grotões
deste país. Para isto é necessário um instrumento estatal, já que a participação
dos empresários de telefonia na Confecom estava dirigida a arrancar privilégios
tributários e orçamentários para que sejam eles os protagonistas desta ação, o
que seria temerário. Sem a presença de um instrumento estatal o cinema
brasileiro retrocedeu largamente, por isto, é importante a resolução aprovada no
sentido de criação de uma empresa pública para estimular a produção,
distribuição e exibição do cinema brasileiro. Da mesma forma, sem descartar a
participação de segmentos empresariais no Programa de Banda Larga, sobretudo do
pequeno e médio empresariado nacional, é indispensável a existência de uma
empresa estatal capaz de operar e ditar as regras do jogo para que as amplas
camadas de brasileiros pobres também tenham acesso à internet pública em banda
larga.
UM GRANDE
EQUÍVOCO
Houve notas
negativas nesta Confecom, e não apenas pela precária administração e
sistematização dos trabalhos a cargo da FGV. A aprovação da flexibilização do
programa Voz do Brasil, atendendo a uma campanha antiga da Abert e da ANJ que
nem presentes estavam, pode causar enorme prejuízo ao povo brasileiro. Trata-se
de programa radiofônico que se constitui na única possibilidade de milhões de
brasileiros que vivem nos lugares mais remotos, sejam ribeirinhos, caiçaras,
indígenas e quilombolas, de terem algum tipo de informação de natureza pública.
A mídia privada não lhes dá tal oportunidade.
A Voz do Brasil é a
única informação que chega a todos os grotões deste país, numa população que
majoritariamente não tem qualquer acesso à leitura de jornal. Flexibilizada,
será exibida pela madrugada, tal como se faz com o Telecurso Segundo Grau, que
embora produzido com verbas públicas, é escondido de seu público alvo. Tornar a
Voz do Brasil inaudível é o primeiro passo neoliberal para eliminá-la.
Desconsiderou-se
nesta medida a última pesquisa de opinião pública realizada, quando mais de 73%
dos brasileiros declararam-se favoráveis e ouvintes da Voz do Brasil e
contrários à sua extinção. A estranha aliança entre setor público, um setor dos
movimentos sociais e o empresariado contrário a qualquer forma de regulamentação
de programação pode “proporcionar” mais uma hora de baixaria, de propaganda, de
música de pouca qualificação.
OS GRINGOS
AVANÇAM COM IV FROTA E VOZ DA AMÉRICA
O correto seria
defender - como na proposta original - a manutenção da Voz do Brasil, sua
qualificação e aperfeiçoamento. A começar pela destinação de um pequeno
percentual de seu tempo como uma espécie de Direito de Antena para segmentos
sociais atualmente sem voz. Com a flexibilização, prepara-se o terreno para que
ela seja inaudível, facilitando sua extinção. É importante que tal equívoco seja
corrigido. Que seja realizada uma consulta popular para que o povo brasileiro
possa dar a última palavra. Especialmente num momento em que o programa Voz da
América, do governo dos EUA, organiza e amplia uma rede de 400 emissoras de
rádio na América Latina para, segundo declaração dos responsáveis pelo programa,
impedir o processo de transformação comunicativa em curso na América Latina.
O Brasil também é
parte de processo de mudanças, com seu ritmo próprio e diferenciado, seja pelas
peculiaridades do desenvolvimento capitalista no Brasil e também porque ainda
não se registra uma maioria parlamentar que viabilize, como em outros países,
mudanças democráticas na comunicação social. Mesmo assim, foi realizada a
Confecom possível, com medidas concretas de curto prazo e consolidação das
bandeiras históricas da luta pela democratização da comunicação que vão nortear
esta caminhada longa daqui em diante. Mas, já com o governo fazendo suas essas
bandeiras. Não houve uma “virada de mesa”, era previsível que não houvesse. Mas,
já há um leque de forças, um Campo Popular da Comunicação que precisa manter-se
atuante, organizado, com plenárias regulares, reuniões periódicas, vencendo o
desafio de ampliar a participação da sociedade nesta luta, que ainda é
insuficiente para as metas gigantescas pretendidas diante de inimigos tão
poderosos. Mas, já estamos numa etapa mais avançada desta caminhada.
* Presidente da
TV Cidade Livre de Brasília. |