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Um réquiem para FHC
GILSON CARONI FILHO
As palavras são as armas. E foi acreditando em
sua capacidade de manejá-las com destreza que Fernando Henrique Cardoso
tentou atacar o presidente Lula em seu artigo publicado no jornal O Globo,
do último domingo. Em sua vaidade desmedida, imaginava-se escrevendo um
texto inaugural, um manifesto histórico capaz de desvendar a cena política,
retirando a oposição do estado letárgico em que se encontra. O efeito foi
exatamente o contrário.
O texto mal escrito, sem sentido em muitos
parágrafos, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando
seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para
presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre a
política econômica do governo e a da gestão petista: a única polarização que
a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado
para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves. Triste para o
prestigiado sociólogo, deplorável para o experiente político.
Comparações são ociosas, mesmo porque cada
polemista tem o seu tempo na história. Mas não é de hoje que o sonho do
“"príncipe dos sociólogos" é ser um Carlos Lacerda redivivo. Vê a si próprio
como um panfletário versátil e demolidor, capaz de usar as palavras como
metralhadoras giratórias nas mãos de um guerrilheiro. O problema é que seu
estilo é tosco e seus escritos ininteligíveis. Não é capaz de açular os
medos da classe média, mesmo usando os velhos ingredientes que vão da ameaça
de uma república sindicalista a um quadro incontrolável de corrupção. Não
aprendeu que, sem o apoio das bases sociais que o acompanham, seu suposto
prestígio pessoal conta pouco.
Para criar condições de instabilidade
superestrutural não bastam editoriais, artigos e noticiários de jornalistas
de direita. É preciso que as classes dominantes se encontrem
excepcionalmente reunidas em torno de um só objetivo. Para isso, do outro
lado, tem que haver um governo fragilizado, com escassa base de apoio,
incapaz de promover crescimento econômico com redistribuição de renda.
Reeditar uma “"Marcha da Família com Deus, pela liberdade" não é o troféu
fácil que o voluntarismo pedante imagina.
Quando escreve que “é possível escolher ao acaso
os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir,
sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal
explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como
uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse
"entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o
sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias
político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os
facilitadores de negócios na máquina pública", seu objetivo é tão claro como
raso.
É uma volta ao passado como farsa. Aos tempos em
que os nacionalistas lutavam por uma solução independente para extração e
refino do petróleo, de importância estratégica para o desenvolvimento do
país, enquanto os entreguistas definiam-se abertamente pela exploração do
produto pelo capital estrangeiro. Claro que estamos tratando de realidades
distintas no tempo e no espaço, mas a motivação da direita é idêntica. E é a
ela que a inspiração de FHC se dirige, inebriado como se cavalgasse uma
fulgurante carreira política. O desespero e o patético andam sempre de mãos
juntas. Ainda mais se lembramos "quem cevou os facilitadores de negócios na
máquina pública" no período que vai de 1994 a 2002.
Criticando o que chama de "autoritarismo
popular", o candidato a polemista prossegue: "Devastados os partidos, se
Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os
dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e,
como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são
"estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos
vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma
ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o
Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes
empresas que a eles se associam."
A recorrência aos riscos de uma república
sindicalista mostra a linhagem golpista do artigo de FHC, mas a falta de
prudência, indispensável para quem pensa estar escrevendo um novo Manifesto
dos Coronéis, leva a indagações. O autoritarismo de mercado, marca do seu
mandato, é exemplo de democracia? A era da ligeireza econômica, da
irresponsabilidade estatal ante a economia fortalecia as instituições do
Estado Democrático de Direito? Ou não seria exatamente o oposto? Um bloco de
poder composto pelo agronegócio, grandes corporações midiáticas e uma
burguesia desde sempre associada, que privilegiava a ampliação crescente das
margens de lucro, ignorando os custos sociais que isso implicava. Qual a
autoridade política do ex-presidente para interpelar o atual?
O que foi seu governo senão uma tentativa
desastrosa de adaptar o aparelho de Estado às exigências criadas pelo
neoliberalismo, contendo, a todo custo, as reivindicações dos trabalhadores
do campo e da cidade? No final, com uma impopularidade recorde, a
superestrutura política entrou em crise e os aliados contemplaram a rota de
afastamento. É a isso que FHC nos convida a voltar?
Outra observação interessante pode ser extraída
desse trecho: "Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa
companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto
regido pelo estatuto das empresas privadas?". Aqui, o lacerdista frustrado
ultrapassou qualquer limite da sensatez. Abriu o flanco, ao permitir a
inversão da pergunta que faz.
Como destacaram, em 1997, Cid Benjamim e Ricardo
Bueno, no "Dossiê da Vale do Rio Doce", "o Brasil levou 54 anos para
construir e amadurecer esse gigantesco complexo produtivo. O governo FHC
pretende vendê-lo, recebendo no leilão uma quantia que corresponderá, mais
ou menos a um mês de juros da dívida interna". Em maio daquele ano, a Vale
foi vendida pelo governo federal por R$ 3,3 bilhões. Em 2007, seu valor de
mercado estava em torno de R$ 103 bilhões. Em nenhum outro período a máquina
estatal foi usada para transferir recursos públicos para o capital privado
como nos dois governos do tucanato. Foi a esse continuísmo que a população
deu um basta em outubro de 2002.
O que se pode depreender das linhas escritas
pelo tucano que queria ser corvo? FHC se especializou na arte do embarque em
canoas onde o lugar do náufrago está antecipadamente destinado ao canoeiro
de ocasião. Julgava estar redigindo um artigo que funcionaria como divisor
de águas. Mas afundou junto com ele. Escreveu o seu próprio réquiem, levando
junto velhos próceres do PSDB. Um trabalho e tanto. Extremamente apropriado
para leitura no dia 2 de novembro.
* Gilson Caroni Filho é professor de
Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de
Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador da Hora do Povo e do
Observatório da Imprensa
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