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O
pré-sal é do povo brasileiro
FERNANDO
SIQUEIRA E DIOMEDES CESÁRIO (*)
Talvez você ainda não saiba, mas o Brasil está
tendo uma oportunidade histórica para resolver seus problemas de educação,
saúde, desenvolvimento e desemprego. A Petrobrás descobriu a maior reserva de
petróleo de sua história, estimada em cerca de 100 bilhões de barris de
petróleo, que, somada às existentes, a colocaria entre as quatro maiores do
mundo. Nossas reservas atuais são de 14 bilhões de barris equivalentes de óleo,
e as dos EUA, de 29 bilhões. Se considerarmos o preço do barril do petróleo a
US$ 70, estaríamos falando de uma riqueza total de US$ 8 trilhões.
As reservas do pré-sal se estendem do litoral do
estado do Espírito Santos ao de Santa Catarina, distantes 300 km da costa, em
média. Estão a uma profundidade média de 2000 m da superfície até o fundo do mar
e mais 3.000 a 5.000 m de rocha e sal a serem perfurados. A tecnologia para este
desafio é detida por poucas empresas no mundo, sendo a Petrobrás a líder no
setor.
O DEBATE DA
NOVA LEI
Alertado pela Petrobrás da magnitude da
descoberta, o Governo brasileiro retirou toda a área ainda não licitada do
pré-sal dos leilões promovidos pela Agência Nacional de Petróleo (ANP), pois já
não havia mais risco e pelas reservas serem gigantescas. Embora, pela
Constituição, as reservas sejam monopólio da União Federal, pela Lei 9478/97, o
petróleo passa a pertencer a quem o extrair. E sabemos que quem tem a
propriedade do petróleo tem um poder de barganha cada vez maior. Quando a Lei
9478 foi feita, o argumento era que ela atrairia recursos externos para investir
em áreas com alto risco e baixo retorno. A propriedade do petróleo era um dos
incentivos para correr riscos. O Pré-sal não tem risco e tem alto retorno.
Portanto, a Lei não se aplica ao pré-sal.
O Governo resolveu alterar a lei, para não
transferir a riqueza descoberta para as companhias petrolíferas, contentando-se
em receber no máximo 50% do valor do petróleo extraído. Nos países produtores de
petróleo, o Estado retém mais de 84% de participação. Outra diferença é a
propriedade do petróleo. Enquanto aqui ela é das empresas que o produzem, lá
fora é do Estado. Hoje, cerca de 78% das reservas são estatais dada a
importância estratégica do petróleo.
OS
INVESTIMENTOS PARA O PRÉ-SAL
Para as grandes companhias seriam necessários
muitos recursos para extrair o petróleo o mais rapidamente possível. Mas,
interessa ao País a produção açodada? O bom senso diz que não e o exemplo do
México está aí como alerta: tinham grandes reservas em 1998, extraíram
predatoriamente, para pagar dívida, e o México pode vir a se tornar importador
de petróleo.
A Petrobrás tem levantado os recursos
necessários para a produção do petróleo que o País necessita, com um plano de
investimentos de US$ 100 milhões por dia até 2013. O próprio petróleo produzido
gerará os recursos necessários para o financiamento dos investimentos. Foi o que
ocorreu com o desenvolvimento da Bacia de Campos.
AS MUDANÇAS DA
LEI
O projeto de lei enviado pelo Governo ao
Congresso apresenta alguns avanços, como a mudança do regime de concessão para
partilha – no qual a propriedade do petróleo produzido volta a ser da União – a
escolha da Petrobrás como única operadora do pré-sal e a criação de um fundo
social com os recursos do petróleo. A Petrobrás pode ser a executora do
monopólio, em nome da União, sendo o produto extraído propriedade da nação. Esta
foi a regra de 1953 até 1997, com a Lei 2004/53. O ponto fraco do projeto do
Governo é a continuidade dos leilões, permitindo outras participações na
produção.
Se os leilões continuarem, ocorrerão três
efeitos altamente negativos:
1) Considerando que os países asiáticos, os
europeus, os EUA e o cartel internacional do petróleo estão numa situação
perigosa por não terem reservas, suas empresas viriam para cá ávidas por
produzirem o pré-sal, diminuindo a dependência dos seus países, e o esgotariam
em menos de 13 anos;
2) Essa produção e exportação açodadas
resultariam numa entrada brusca de dólares, que iria sobrevalorizar o Real e
inviabilizaria todas as indústrias fora do setor petróleo. Seria a chamada
doença holandesa. Ou, o que seria pior: a doença nigeriana: o cartel
internacional tomou a Nigéria de assalto, destruiu as terras agricultáveis,
esgotou o seu petróleo e deixou o país numa miséria pior que antes: sem petróleo
e esperança;
3) A entrada brusca de dólares obrigaria o
Governo brasileiro a investir em títulos do tesouro dos EUA, recebendo juros
negativos e numa moeda em decadência;
As mudanças ideais: o petróleo voltar a ser do
Estado e aumento na parcela da União dos atuais 0 a 40% para a média mundial de
84%. Com os recursos recebidos poderão ser feitos os investimentos que a
sociedade requer e a União recomprar as ações da Petrobrás. Antes da venda das
ações pelo governo FHC, a União Federal detinha 84% das ações com direito a voto
e 51% do capital total da Petrobrás; hoje, tem apenas 56% das ações com direito
a voto e 40% do capital.
Convocamos todos os brasileiros a participar das
discussões do pré-sal. Discuta com seus amigos, fale com seu parlamentar. O
futuro de seus filhos depende de sua atuação.
Lembramos que, nas décadas de 40 e 50, quando o
petróleo era apenas sonho, foi feito o maior movimento cívico da história do
nosso país. Hoje que o petróleo é uma realidade muito acima de todas as nossas
expectativas, temos muito mais razão para lutar por ele.
(*) Presidente
e diretor de Comunicação da Aepet – Associação dos Engenheiros da Petrobrás.
Publicado originalmente no “Jornal do Engenheiro”, edição nº 137, uma publicação
do Sindicato dos Engenheiros do Estado do Rio de Janeiro – Senge-RJ.
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