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Ziuganov, do PC da Federação Russa:
“Crise atingiu a Rússia por descaso com o mercado
interno e desindustrialização”
Em 31 de outubro, em Moscou, realizou-se a
IV Plenária do Comitê Central do Partido Comunista da Federação Russa, PCFR.
Em seu pronunciamento, o presidente do Comitê Central do partido, Gennadi
Ziuganov, sublinhou que, independente da recessão global, surgem de forma
cada vez mais marcante os sinais da crise especificamente russa, engendrada
pelos problemas de fundo do modelo imposto ao país em 1991.
Seguem trechos deste pronunciamento:
“Transcorreu um ano desde o início da crise
global. Atingindo todos os continentes, o devastador tsunami financeiro
confirmou a avaliação da natureza do capitalismo feita pelos fundadores do
marxismo-leninismo. Ao mesmo tempo, nossa experiência nos permite tirar
algumas conclusões sobre a atual fase de desenvolvimento da humanidade.
Primeiro. O capitalismo especulativo,
de caráter neoliberal, que os EUA tentaram por todos os meios impor ao
mundo, foi à falência.
Segundo. O Estado atual não pode ser o
guardião da propriedade privada. Ele deve ser inteligente, justo e um forte
regulador da economia, tomando as principais decisões da vida pública.
Terceiro. “O paraíso do consumo”, do
desperdício, ao estilo ocidental, é impossível para a Rússia. A própria
natureza se vinga hoje da exploração selvagem dos recursos.
Quarto. A estratificação crescente da
sociedade toronu-se explosiva. O mundo exige uma nova política social,
publicamente orientada e com base nos princípios do coletivismo e da
equidade. A salvação da humanidade está na socialização de todas as esferas
da vida.
Quinto. A crise golpeou mais
severamente a Rússia. Tal como na medicina, a epidemia afeta principalmente
os organismos fracos. Nosso país é realmente um elemento doente do
capitalismo global.
Eis aqui provas concretas da catástrofe em
que os extremistas do mercado mergulharam a Rússia. A queda do PIB, em
comparação com o ano passado, atingiu 11%. O aumento do desemprego
ultrapassou os 10%. O declínio na produção industrial - 16%. O volume dos
investimentos caiu em 18%, enquanto as exportações e importações - mais de
40%. Especialmente eloqüentes são os indicadores físicos. Assim, a produção
de tijolos e de concreto (cimento) caiu também 40%, de vagões [a Rússia
possui uma grande rede ferroviária] - 57%, e de caminhões em 72%. Estão
parados quase todos os altos-fornos e linhas de montagem. Quinhentas cidades
que dependem de uma única indústria ou setor de atividade estão condenadas
ao desemprego e pobreza.
A Índia, o Vietnã e a China, porém, mostraram
nesse período, um aumento do PIB de 5, 6 e 8 por cento, respectivamente. E,
mesmo em crise, em muitos países do mundo, a queda no PIB se limitou a de 2%
a 3%.
O fracasso da economia da Rússia não é por
acaso. Nela há um acúmulo de uma enorme massa de problemas que estão
começando a “estourar”. É simbólico que, em agosto, em um só dia tenha
ocorrido uma cadeia de catástrofes. Entre elas a destruição de 9 das 10
turbinas da hidrelétrica Sayano-Shushen-skaya - orgulho da nossa matriz
energética. Morreram 75 pessoas - quase todo o turno da estação de trabalho.
ESPELHO
Estes trágicos acontecimentos representam um
espelho, onde se refletem as causas da crise: a incompetência das
autoridades em todos os níveis, a sede de lucro selvagem dos novos
proprietários, a deterioração colossal da infraestrutura.
Até mesmo o presidente Dmitri Medvedev, não há muito tempo reconheceu que a
Rússia tinha chegado a um impasse. O modelo em que só funciona o setor
primário da economia, de só viver dos recursos naturais, impede o
desenvolvimento do país. A burguesia compradora não quer produzir produtos
de alta tecnologia. Ela direciona a economia para a exportação de
matérias-primas, mas no mercado interno comercia no fundamental com produtos
estrangeiros.
Quero lembrar que nos anos 30 a União
Soviética foi um brilhante exemplo de locomotiva anti-crise, com 10 a 15% de
crescimento da produção a cada ano. Durante o primeiro plano qüinqüenal
stalinista nosso país construiu 1.500 fábricas e 100 novas cidades.
A liderança chinesa protegeu seu mercado
interno e garantiu o crescimento com o consumo de bens de produção própria.
Enquanto que na Rússia, os recursos apoiaram
o socorro do governo aos bancos, que receberam 7 trilhões de rublos, e isso
se transformou numa lavanderia das fraudes e do contrabando.
Diante da queda do PIB de mais de 10%, o
governo lamenta que devido à crise tenham caído os preços das matérias
primas no mercado mundial. Mas na Arábia Saudita - o principal exportador de
petróleo -, por exemplo, a queda do PIB foi muito menor. Na verdade, o
governo da Rússia nunca conseguiu dar prioridade à indústria. Por isso, ela
caiu em 21%. A indústria leve caiu 26%.
Na de máquinas e equipamentos por enquanto
trabalham mais de 3 milhões de pessoas. Sem esse setor não é possível
nenhuma modernização. Mas no primeiro semestre em 7,5 mil empresas se
produziram apenas mil máquinas. Assim, o tom otimista dos relatórios
anti-crise do governo não tem nenhuma base.
Na verdade, os líderes do capitalismo mundial
fizeram um conserto cosmético no seu “prédio”. Mas eles se apressam à toa.
As causas internas para a segunda onda da
crise não desapareceram. Assim, esta nova quebradeira é inevitável e seu
caráter será ainda mais devastador. Líderes ocidentais não têm interesse em
promover uma reforma real, pois são servis à oligarquia financeira mundial.
E a bolha especulativa começa a encher de novo, apesar dos chamados
queixosos desses líderes para que a oligarquia reduza sua avidez de lucro. |