|
A agenda da
comunicação sai da penumbra
A convocação da I Conferência Nacional de Comunicação coloca o tema na agenda
política do estado e da sociedade. Permite que conheçamos a gigantesca dívida
informativo-cultural que se avolumou contra o nosso povo. Um verdadeiro entulho.
E novas informações vão surgindo, desmontando mitos, iluminando áreas de
sombras, revelando que algo se move aqui e em boa parte da AL
BETO ALMEIDA*
“Há coisas que o mercado não tem interesse em fazer”
(Presidente Lula)
O tema sempre foi tabu. Tema proibido. Temos uma
fileira de vítimas da ditadura midiática - intelectuais, pensadores,
sindicalistas, jornalistas e artistas - por terem defendido que o progresso
tecnológico comunicacional deve ser tratado como patrimômio da humanidade e
servir como fator de elevação da civilização, embelezamento das relações
humanas, da própria vida.
Agora no Brasil, a
convocação da I Conferência Nacional de Comunicação coloca o tema na agenda
política do estado e da sociedade. Permite que conheçamos a gigantesca dívida
informativo-cultural que se avolumou contra o nosso povo. Um verdadeiro entulho.
E novas informações vão surgindo, desmontando mitos, iluminando áreas de
sombras, revelando que algo se move aqui e em boa parte da América Latina.
ARGENTINA
MOSTRA UM CAMINHO
Ventos democráticos
sopram da Argentina com sua nova lei de comunicação, quebrando o monopólio do
Grupo Clarin, fortalecendo os veículos estatais e abrindo 33 por cento da
comunicação para a sociedade, até para a CGT e as Universidades Públicas.
Telesur, como tv da integração latino-americana e dos povos do sul, vai se
consolidando, ampliando seu alcance para a África. Surge uma cadeia de rádios
indígenas na Bolívia e também um jornal público, o “Câmbio”, que em 6 meses de
vida já tem circulação igual ao maior jornal da burguesia racista boliviana, com
décadas de existência. Na Venezuela, a Revolução Bolivariana quebra o tabu que
considerava o tema comunicação intocável e faz a Constituição valer mais que os
privilégios dos magnatas midiáticos: quando uma concessão de rádio e tv termina,
termina mesmo, ela não tem porque ser renovada automaticamente como se fosse
privilégio vitalício das oligarquias. O Equador caminha para fortalecer o seu
jornal público, “El Telégrafo”, e também promove uma reorganização democrática
no sistema de concessões de tv e rádio, ampliando, consolidando e qualificando a
comunicação pública.
A diferença do
Brasil é que em todos estes países os governos populares possuem maioria
parlamentar. Além disso, em países como a Argentina a TV já nasceu pública,
tendo recebido forte impulso durante o governo de Perón, período em que tv,
rádio e até mesmo jornais como o La Nación, grande jornal da oligarquia, foram
estatizados. No Brasil a TV já nasce nas mãos de gente como Assis Chateaubriaand,
seguindo o padrão comercial vulgar norte-americano, chantageando e ameaçando
presidentes como Vargas e JK, impedindo que os dois levassem adiante o projeto
de criação de uma TV Nacional, só recentemente recuperado pelo presidente Lula.
A Argentina chegou a ter políticas públicas culturais e educacionais muito
expandidas pelo peronismo, de tal sorte que eliminou o analfabetismo e
conquistou padrões de leitura, artísticos, culturais, científicos e educacionais
elevadíssimos para um País da América Latina.
VARGAS, UMA
EXPERIÊNCIA GOLPEADA
Vargas seguia nesta
linha. A Rádio Nacional foi a mais importante experiência comunicacional no
sentido da brasilidade, da nacionalidade e de valores populares. Criou uma
paixão radiofônica brasileiríssima, que não tem porque não ser recuperada.
Também na Era Vargas foram criados a Rádio Mauá - a emissora do trabalhador -, o
Instituto Nacional de Música, dirigido por Villa-Lobos, o Instituto Nacional de
Cinema Educativo, conduzido por Roquette Pinto, o Instituto Nacional do Livro,
por empenho de Carlos Drummond de Andrade, e também o Instituto Nacional do
Teatro. Vargas já havia despertado para a importância da televisão quando uma
conspiração internacional, de matriz norte-americana, petroleira, e com o apoio
de uma conspiração nativo-oligárquica-televisiva, o levou ao suicídio. Com ele,
para o túmulo, também foi o sonho de uma tv pública... JK tentou ressuscitá-lo,
foi pressionado, chantageado, forçado a abandoná-lo.
Talvez não seja
muito justa a simples condenação a Lula porque não teria, segundo alguns
comunicadores, a mesma decisão e coragem dos presidentes da Argentina, Bolívia,
Equador e Venezuela em matéria de comunicação. O peso do capitalismo aqui é
infinitamente maior, mais desenvolvido, o que constitui-se numa dificuldade
adicional, mais complexa, juntamente com a inexperiência de uma comunicação
pública como a vivida pelo povo argentino no passado. E, sobretudo, por não ter
maioria parlamentar, além de contar com significativas contradições na sua base
aliada, composta também por empresários da radiodifusão. Lula não pode ignorar o
resultado das urnas de 2006...
RELAÇÕES DE
FORÇAS LÁ E CÁ
Na Argentina há a
retomada de uma experiência histórica bem sucedida, mas de modo gradual, nada
súbito. Não se trata de uma virada de mesa ou de um ajuste de contas, muito
menos um juízo final contra a oligarquia midiática, mas um retorno ao curso de
um projeto nacional soberano dos argentinos também na área informativo-cultural.
Mesmo com Chávez, nota-se uma gradual aplicação da Constituição, não uma
eliminação da comunicação privada, mas uma atitude governamental legítima para
que a lei seja cumprida por todos, demolindo o sistema de seqüestro
midiático-empresarial que os radiodifusores de lá impunham sobre o povo
venezuelano. Mas isto ainda está em curso, é ainda uma batalha, a grande
audiência ainda está com a tv e a rádio privadas, muito embora a queda
vertiginosa das vendas dos jornais conservadores seja emblemática. Quando Chávez
foi eleito, em 1988, o jornal “El Nacional” vendia 400 mil exemplares. Hoje,
rasteja-se em apenas 40 mil exemplares, portanto, número proporcionalmente
inverso ao seu ódio editorial diante da popularidade do chavismo.
Não tendo a mesma
maioria parlamentar folgada, Lula convoca a Conferência de Comunicação. Sua
tática é evidente: libertar a agenda aprisionada pela mídia e envolver a
sociedade neste debate. Claro que há dúvidas se a capacidade de mobilização de
todos os movimentos pela democratização da comunicação, até hoje precária e
rarefeita, tornar-se-á de fato robusta e amplificada rapidamente. O que torna
ainda mais surpreendente e incompreensível a posição retoricamente radical de
alguns destes movimentos desconsiderando esta relação de forças, o peso político
e de poder da oligarquia da mídia no Brasil, a ausência de uma maioria
parlamentar, traçando uma tática irreal, baseada no impressionismo da
auto-suficiência de suas próprias forças. Este cálculo leva a que não considerem
o governo como o aliado fundamental neste campo de forças populares, que deve
incluir, obrigatoriamente, o governo Lula, movimento sindical, movimento social,
partidos políticos e até mesmo segmentos do empresariado ameaçados pela
esmagadora intervenção estrangeira no setor audiovisual, e com riscos de
ampliação se aprovado o PL-29, aliás, apoiado por alguns integrantes do
movimento de democratização da comunicação. Democratização para quem?
FOLHA VERSUS
DATA-FOLHA
A presença e o
discurso de Lula contra o monopólio da mídia na inauguração de novas
instalações da Record devem ser considerados como destravamento e visibilidade
desta agenda da comunicação, antes tabu. Também é significativa a pesquisa feita
pelo Data-Folha, apontando que já 10 por cento dos entrevistados assistem a
jovem TV Brasil e que 80 por cento destes gostam do que assistem. Como também é
significativo o fato de que a Folha - jornal que pediu o fechamento da TV Brasil
- não tenha publicado a notícia com o resultado da pesquisa. Ou seja, a Folha
sonega informação do Data-Folha.
Também é expressiva
a veiculação de matéria de 13 minutos pela TV Record revelando não apenas a
queda da venda de jornais no Brasil, incluindo a Folha de São Paulo, mas também
como este periódico apoiou a ditadura militar (até então desconhecido do grande
público) e como ainda não deu explicações sobre a publicação de documentos
adulterados da Ministra Dilma Roussef. Já sabemos: na Venezuela o jornal “El
Nacional” perdeu 90 por cento de seus leitores. Na Bolívia, o jornal “Cambio”,
favorável às transformações conduzidas por Evo, já vende tanto quanto o maior
jornal da oposição racista e conservadora. Como será o curso no Brasil da perda
de credibilidade e de leitores dos jornais?
POPULARIZAR A
LEITURA DE JORNAIS
Esta vertiginosa
queda na vendagem de jornais - lembremo-no de que eles informam a “tiragem”, mas
não a “voltagem” - amplamente divulgada pela Record vem acompanhada do
crescimento da internet como fonte de informação. Com o plano do governo de
democratizar o acesso à banda larga, sobretudo por meio de uma empresa estatal
que se encarregue desta tarefa republicana, poderemos nos defrontar a curto
prazo com uma situação inusitada: uma tecnologia do século 16, a imprensa de
Gutttemberg, ainda hoje com números indigentes de circulação no Brasil e em
linha declinante, poderá sofrer a concorrência de tecnologia de última geração
para o acesso amplo à informação.
Se vier de fato a
ocorrer como se anuncia, terá sido o resultado da visão retrógada da oligarquia
midiática brasileira que foi sempre incapaz de expandir a popularização da
leitura de jornais e revistas, revelando seu próprio medo de ter que confrontar
um povo informado e letrado, com mais habilidades para o exercício da cidadania
e para fazer suas legítimas exigências históricas. Que avancemos em duas linhas,
expandindo o acesso à banda larga pública, mas também a leitura de jornal, que é
ainda uma dívida informativo-cultural a ser paga.
O que não se entende
é porque foram desprezadas ou não consideradas tantas propostas e experiências
que tentaram ao longo de décadas - a começar por Monteiro Lobato que queria
fazer da imprensa uma alavanca para a alfabetização plena e foi rejeitado -
popularizar a leitura de jornais, mesmo com a enorme taxa de ociosidade de 50
por cento da indústria gráfica brasileira. Como disse Lula recentemente, “há
coisas que o mercado não sabe fazer ou não tem interesse”. E se o mercado não é
capaz de popularizar a leitura de jornal e revista, e se temos metade das
gráficas paradas todo o tempo, e se temos um povo proibido praticamente de ler
e se as tiragens estão caindo, e se os jornais estão fechando, se temos
jornalistas diplomados para o desemprego crônico, por que será que sindicatos,
jornalistas, professores, não assumem a defesa, perante a Confecom, de um
Programa Público de Popularização da Leitura de Jornal e Revista? Programa que
se basearia no apoio público ao florescimento de jornais e revistas, fazendo as
gráficas funcionarem, publicando em grandes quantidades para distribuição
gratuita ao grande público sempre proibido de ler? A proposta consta das Teses
da Associação Brasileira de Canais Comunitários - ABCCOM - à Confecom.
COISAS QUE O
MERCADO NÃO TEM INTERESSE
Temos nesta área uma
Grande Depressão, como ocorreu nos EUA com a crise de 29. E lá, o estado
organizou programas públicos de difusão cultural, inclusive de leitura, ocupando
os criadores, os escritores, os jornalistas, os artistas, fazendo com que a
informação, a arte e a cultura chegassem - pela primeira vez - aos bairros
pobres e negros de Nova Iorque. Como disse Lula, há coisas que o mercado não tem
interesse em fazer. No Brasil, na área da leitura, sempre estivemos numa eterna
grande depressão...
Certamente a
Confecom não será o ajuste final de contas, não será o “tudo ou nada”. Mas será
o palco para a organização de propostas e das forças que façam avançar as várias
formas de comunicação pública, estatal, comunitária, universitária. Sobretudo
aquelas que envolvem uma aliança entre movimentos sindical e social, partidos
políticos, segmentos empresariais não-oligopolistas e o governo Lula,
encorajando-o a ir mais adiante em medidas que estão ao seu alcance já,
formatando um campo popular com força suficiente para dar sustentação à
expansão, consolidação e qualificação da comunicação não seqüestrada pela
ditadura do mercado cartelizado. É uma das maneiras de pavimentar as condições
para termos forças suficientes para uma mudança de fôlego argentino à médio
prazo.
* Beto Almeida é
membro do Conselho Diretivo da Telesur e presidente da TV Cidade Livre de
Brasília. |