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Bottesi: “não há nenhum traço dos
investimentos da Telefónica”
Em carta à Comissão de Valores dos EUA, Engenheiros de Telecomunicações apontam
“fortes indícios de fraudes” no balanço de 2008
“Foi privatizada a Telesp,
que tinha nome
forte, trabalhava dentro
da Lei 8.666, de forma
correta, para cairmos na
Telefónica, que a gente
não sabe o que faz, com um
monte de
empresas
que não sabemos quem são”
Ruy Bottesi
Presidente da AET
A
Associação dos Engenheiros de
Telecomunicações (AET) encaminhou no dia 30 de outubro uma carta à SEC (U.S.
Securities & Exchange Commission), entidade responsável por fiscalizar o mercado
de ações nos Estados Unidos, apontando “fortes indícios de fraudes financeiras
por parte da Telefónica (TELESP)” sobre alegados investimentos de R$ 2,342
bilhões em sua rede no ano passado. “Não conseguimos localizar companhias que
tenham fornecido serviços ou equipamentos para a Telefónica em 2008. Não há
registro de para onde os investimentos declarados foram, nenhum traço”, diz a
carta assinada pelo presidente da AET, Ruy Bottesi.
Em seu
balanço de 2008 e através da mídia, a Telefónica de España tem dito que foram
realizados investimentos na ordem de R$ 2,342 bilhões em sua rede e que este ano
serão destinados mais R$ 2,4 bilhões.
Na carta à
SEC, bem como na correspondência encaminhada ao Ministério Publico Federal em
São Paulo, na quarta-feira (4), o presidente da AET informa que não foi possível
identificar junto aos tradicionais fornecedores de equipamentos e soluções de
telecomunicações – como Ericsson, Huawei, Motorola, Siemens, Lucent-Alcatel,
Nortel e Nokia – “a realização de contratações para ampliação e modernização da
rede planta da Telefônica (Telesp), em 2008 e em 2009, especificamente na
telefonia fixa”.
Ao HP, Bottesi enfatiza: “O Grupo Telefónica é de fazer coisas estranhas, de
virtudes duvidosas. No balanço diz que houve investimentos, mas o mercado não
confirma”.
“Reclamações atingiram níveis
inaceitáveis”
A AET alerta
para o fato de que em outubro de 2007 a Telefónica teve aprovado junto ao Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um financiamento de R$ 2
bilhões, que teria como objetivo modernizar e expandir a sua rede. Contudo, além
da inexistência de empresas que tenham realizado algum tipo de serviço para
modernizar a planta da concessionária espanhola, o que, de fato, tiveram
comprovação efetiva por milhões de usuários foram as sucessivas panes nos
serviços de voz e banda larga (Speedy) no decorrer dos anos 2008 e 2009. A
última, ocorrida em 8 de setembro último, deixou mudo até os serviços de
emergência em São Paulo, da Polícia e dos Bombeiros, em meio a um temporal. “O
volume de reclamações dos usuários da Telefónica atingiu níveis inaceitáveis
face às várias interrupções dos serviços de voz e dados, evidenciando a falta de
investimentos na rede de telecomunicações”, sublinha o engenheiro.
“Para CVM só foi anexado o
trivial do balanço”
Após
denúncia junto à Comissão e Valores Mobiliários (CVM), esta solicitou da
Telefónica os dados do balanço dando início à investigação (CVM nº RJ2009/8460).
Segundo Bottesi, “a Telefônica anexou só parte do balanço, o trivial, para a CVM”.
De acordo com a associação, ao se analisar os números do balanço de 2008 da
Telefônica (Telesp), “eles parecem forjados”, como por exemplo, “investimentos
de meio milhão de reais em serviços de informática”. Para a AET, não se pode
contabilizar como investimento esses serviços, mas como despesas operacionais:
“Apenas uma pequena parte relativa à compra de software pode ser considerada
investimento, mas, mesmo os softwares mais caros custam apenas algumas centenas
de milhares de dólares, não milhões”.
No
detalhamento do Relatório Anual 2008 da Telefônica (Telesp) consta a realização
de investimentos volumosos para empresas subsidiárias do Grupo Telefónica
(afiliadas e controladas), na forma de despesas de serviços prestados. A AET
solicitou ao Ministério Público Federal apuração sobre as atividades dessas
empresas subsidiárias, “que estão atuando no mercado de forma terceirizada (ou
quarteirizada) em nome da Telefónica (Telesp) detentora do contrato de
concessão”.
As
“subsidiárias” são: Aliança Atlântica, A Telecom, Companhia AIX, Companhia ACT,
Telefónica Data, TTP, TSP, GTR Participações e Empreendimentos S.A., Lemontree
Participações S.A., Comercial Cabo TV São Paulo S.A., TVA Sul Paraná S.A.,
Portugal Telecom e Portugal Multimedia.
“Foi
privatizada a Telesp, que tinha nome forte, trabalhava dentro da Lei 8.666, de
forma correta, para cairmos na Telefónica, que a gente não sabe o que faz, com
um monte de empresas que não sabemos quem são”, ressalta o presidente da AET à
reportagem do HP.
A AET - que
já havia questionado os números “investimentos” da telefônica à Anatel, Comissão
de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados, CVM, BNDES – afirma que também
recorreu à SEC (EUA) por dois motivos. O primeiro é que as ações da Telefónica
são negociadas na Bolsa de Nova Iorque. Segundo: “O nosso receio é que algum
órgão no Brasil sente em cima do problema, o tempo passe e caia no
esquecimento”, observa Bottesi.
Ele tem bom
motivos para a desconfiança. Em carta, o BNDES alegou que o sigilo bancário não
o autoriza a fornecer informações detalhadas sobre o empréstimo de R$ 2 bilhões
e sobre o monitoramento e a liberação de tais recursos. “O BNDES alegou sigilo.
Só que o BNDES trabalha com o dinheiro do FAT, do trabalhador, os principais
prejudicados pelos péssimos serviços oferecidos pela Telefónica”, observa o
presidente da AET. Já Anatel, dispensa maiores comentários.
VALDO ALBUQUERQUE
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