Metri:
país não ganha nada com os leilões no pré-sal
Petrobrás é
mais capaz, diz dirigente da Federação Brasileira das Associações de
Engenheiros (Febrae)
O
conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros (Febrae),
Paulo Metri, saudou, em artigo publicado no “Jornal dos Economistas”, sob o
título “Gênese e Exegese do Marco Regulatório”, as propostas de mudanças na
legislação do petróleo, enviadas ao Congresso pelo governo, mas cobrou o fim
dos leilões nos contratos de exploração para o pré-sal, mantidos no projeto,
e que, segundo ele, não têm justificativa para continuarem existindo.
Metri considera negativo e prejudicial ao país
“o fato de continuar existindo leilões”. “Se argumentarem que é bom que haja
competição no setor, é preciso lembrar que o petróleo produzido por empresa
estrangeira será necessariamente exportado e não haverá competição no
fornecimento de derivados ao país”, alertou.
Para o engenheiro, “um monopólio estatal
socialmente controlado é melhor que um sistema com empresas estrangeiras”
explorando o petróleo do pré-sal. O argumento de Metri, de que com a
presença das múltis no pré-sal não haverá nenhuma “competição” é
corroborado pela prática de rapina do cartel formado pela BP/Amoco, Shell,
Exxon/Mobil e Chevron/Texaco e por outros dois grupos resultantes de fusões,
que formam as hoje denominadas “Big Oil”: Total/Fina/Elf e Phillips/Conoco.
Esses grupos estrangeiros costumam garantir seus superlucros, não por
intermédio da “competição”, mas através do seu monopólio, de ações
criminosas, propinas, crises políticas forjadas e invasões dos países
produtores de petróleo.
Metri rebateu a argumentação, frequentemente
levantada por alguns setores, de que a Petrobrás não poderia ter o monopólio
da exploração do pré-sal porque não seria 100% estatal. “A Petrobrás não
entrega a acionistas uma parcela do óleo produzido, nem da receita
correspondente à produção e, sim, uma parcela de um lucro mínimo e depurado
que a lei das Sociedades Anônimas faculta”, disse. Além disso, a Petrobrás
nunca foi 100% estatal, nem quando foi criada, e nem por isso deixou de
cumprir por mais de 40 anos, com êxito inegável, o papel de executora do
monopólio estatal do petróleo.
“A parcela entregue a investidores privados da
Petrobrás corresponde a cerca de 6% da receita total do petróleo”,
acrescentou Metri. Além disso, ele ainda argumentou que o governo pode
suplantar alguns problemas criados com a venda de ação da empresa na Bolsa
de Nova Iorque, pela desastrada administração Fernando Henrique Cardoso,
“com a recompra paulatina destas ações com recursos do nosso Fundo
Soberano”. “Trata-se de um investimento melhor que os papéis do governo
americano”, avaliou.
Na mesma linha de raciocínio contra os leilões e
em defesa da Petrobrás como exploradora única do pré-sal, destacada por
Metri em seu artigo, argumentou também o presidente da Aepet (Associação dos
Engenheiros da Petrobrás), Fernando Siqueira, no seminário “Pré-sal: o
Brasil no caminho certo”, promovido pelo Governo do Paraná, no final do mês
passado. “A atual lei foi estabelecida para atrair capital estrangeiro,
correndo risco. Como no pré-sal não há risco, a Lei 9.478 não se aplica,
muito menos o leilão”, disse Siqueira.
As votações dos projetos já estão em andamento
nas comissões especiais da Câmara dos Deputados e esta semana já foram
aprovados dois dos quatro projetos apresentados. O que define a criação da
nova estatal e o que cria o Fundo Social que vai gerenciar os recursos
obtidos com a exploração do pré-sal. Na semana que vem será votado o projeto
que muda os contratos, criando o sistema de partilha. É neste projeto que
será discutida a manutenção ou não dos leilões no pré-sal.
Sobre o Fundo Social já aprovado, Metri disse
que “só não é uma unanimidade porque, com relação aos usos, há disputas, mas
com relação à sua criação, só divergem aqueles que não querem mudança alguma
na lei atual, que são as petrolíferas estrangeiras”. “Não entramos nas
discussões sobre a tributação (royalty, participação especial etc), por ser
um capítulo a parte, não determinante do modelo a ser escolhido”, afirmou.
Um outro ponto criticado pelo especialista no
modelo apresentado é a criação dos comitês operacionais. Segundo ele “uma
enxurrada de órgãos da administração pública e entes privados participando
das decisões e ações da Petrobrás. A saber: o CNPE, o MME, a Petrobrás, a
Petro-sal, a ANP, empresas privadas e consórcios dos blocos”. Para o
engenheiro, os “comitês operacionais” dos consórcios, com metade de seus
integrantes da Petro-sal, para conferir os trabalhos do operador do
consórcio, a Petrobrás, demonstra “uma clara dificuldade em se confiar na
Petrobrás, que já possui uma dezena de organismos a fiscalizá-la”.
Na opinião do especialista, “as forças ligadas
ao capital estrangeiro buscam tolher os avanços nacionalistas do governo”.
Neste sentido, ele conclama “as forças progressistas”, neste momento, a “não
deixar o Presidente sozinho”. Metri afirma que o movimento popular deve
intensificar as mobilizações para garantir as mudanças positivas do projeto
e seguir avançando para derrotar os setores atrasados e melhorar ainda mais
o modelo. “O contraponto aos lobistas, que infestam o Congresso Nacional,
seria o povo na rua”, afirmou.