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A tecnologia como
ideologia (1)
“O Conceito de
Tecnologia” é o opus magnum de Álvaro Vieira Pinto. Afastado da vida pública
pela ditadura, vivendo de traduções – que, via de regra, assinava com
pseudônimos – o filósofo que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, fundamentara
a ação do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), dedicou-se a um
profundo, heroico e, em uma palavra, comovente estudo como contribuição para a
ideologia que poderia levar o Brasil a ser livre e desenvolvido.
Naturalmente, a
elaboração de uma ideologia desse porte não poderia, como ele reafirma várias
vezes em sua obra, ser trabalho de um único indivíduo. Pelo contrário, Álvaro
Vieira Pinto contentou-se em fazer a sua parte. Porém, esta parte é algo
gigantesco, colossal, que será reconhecido, na medida em que se conheçam mais as
suas ideias, como um monumento do pensamento humano.
Antes de tudo, a
elaboração teria que partir de uma crítica à ideologia contrária – uma crítica à
ideologia da metrópole e, especialmente, àquela sua forma degenerada que era
expressa por seus servos dentro do país.
Evidentemente, a
tecnologia – seu domínio e desenvolvimento – é um aspecto decisivo para qualquer
país que pretenda, hoje, alcançar o grande destino que Álvaro Vieira Pinto
vislumbrava para o Brasil. Porém, o que é “tecnologia”? Em que ela difere da
“técnica”? Por que os ideólogos do imperialismo, em determinado momento,
substituíram a palavra “técnica” por “tecnologia”? Eram questões básicas que o
filósofo tinha em mente ao começar o seu grande estudo.
Nos trechos que
passamos a publicar, o autor, estabelecido que a tecnologia é o “logos” da
técnica – isto é, o pensamento subjacente e, ao mesmo tempo, oriundo da técnica
– estuda o conceito do ponto de vista da ideologia. Evidentemente, não é
possível que ele signifique o mesmo para duas ideologias opostas: a dos
dominadores e a dos oprimidos. Porém, do ponto de vista da ciência, somente pode
existir um conceito verdadeiro – e somente conhecendo e assumindo este, os
oprimidos podem se libertar da versão imposta pelos dominadores.
Quando começou a
redigir “O Conceito de Tecnologia”, e mesmo quando o terminou, não havia
perspectivas de que fosse publicado. Teve, realmente, que esperar 30 anos para
que isso acontecesse, após o falecimento do autor. Mas essa dificuldade não
parece ter abalado o filósofo. Seu amor (esta é a palavra exata) pelo povo
brasileiro, sua convicção de que o Brasil estava destinado a ser uma grande
nação, antes de tudo justa para com seus filhos, transcendia as dificuldades
momentâneas.
O texto que hoje
começamos a publicar não é fácil. Para uma maior comodidade dos leitores,
fizemos uma divisão maior dos parágrafos do que no texto original. Mas nada
dispensará o estudo sério, porque não é um texto superficial. O prazer do
conhecimento não é obtido, certamente, sem que se faça algum esforço. No
entanto, como os leitores constatarão, vale a pena esse esforço.
C.L.
ÁLVARO VIEIRA
PINTO
Compreende-se bem que o primeiro dos sofismas
soprados pela consciência dominadora aos ouvidos dos obedientes discípulos seja
a suposição de que a teoria tecnológica é uniforme. Inclusive, o centro reitor,
porque tem essa qualidade, arroga-se o direito de exclusividade na formulação da
teoria da tecnologia, na explicação de sua essência. Apodera-se confessadamente
do direito de constituir a tecnologia em ideologia, que lhe servirá para atender
a dois tipos de exigências, as internas, visando à santificação moral dos
processos adotados e à conquista da cumplicidade da massa nacional que explora;
e as externas, resumidas em fazer da tecnologia a forma atualmente mais eficaz
de instrumento de dominação.
Supondo não terem as
áreas atrasadas tecnologia própria, erro capital, típico do pensador sediado
numa sociedade que julga achar-se no pináculo de um poderio histórico sem risco
de declínio, os expoentes pensantes da metrópole acreditam que apenas ela, por
ser a mais rica e culta, possui as condições intelectuais para proferir a
doutrina da tecnologia. Tendo origem no plano supostamente superior da cultura,
deverá ser válida incondicionalmente, e em particular nela figurará tanto a
explicação da superioridade dos superiores quanto a do retardo da técnica nos
países dependentes.
Não é preciso grande
agudeza mental para se perceber que de uma tal compreensão teórica da essência e
do papel da tecnologia na constituição do ser humano e no desenvolvimento de uma
sociedade nacional terá de provir um produto ideológico carregado de nefastas
intenções, além de ser, evidentemente, por motivo dessa mesma origem, uma
concepção falsa, que os prejudicados, embora a custo, têm o dever de denunciar.
Toda tecnologia,
contendo necessariamente o sentido, já indicado, de logos da técnica, transporta
inevitavelmente um conteúdo ideológico. Consiste numa determinada concepção do
significado e do valor das ações humanas, do modo social de realizarem-se, das
relações do trabalhador com o produto ou o ato acabado, e sobretudo envolve a
ligação entre o técnico, em seu papel de fabricante de um bem ou autor de um
empreendimento, e o destino dado àquilo que cria.
A técnica representa
o aspecto qualitativo de um ato humano necessariamente inserido no contexto
social que a solicita, a possibilita e lhe dá aplicação. Deste modo, ao ser
praticada estabelece constantemente um circuito de ligação entre o operário e o
meio, circuito que se reveste das características dialéticas da ação de retorno,
susceptível de descrição e modelagem em linguagem cibernética. Nenhuma ação
humana deixa de repercutir sobre a realidade e, de volta, sobre seu mesmo motor,
que, igualmente, se modifica por havê-lo feito.
A modificação mais
significativa é a que se processa no campo da consciência do agente, o qual
deixa de ser o mesmo que era na fase precedente ou quando simplesmente concebia
a ação, sem levá-la a efeito. Por este modo, a prática da técnica conduz à
modificação das ideias, podendo alterar as existentes, anulá-las ou introduzir
outras, novas. Representa portanto inequívoco fator de constituição de conteúdo
da consciência individual, modelada pela realidade social, em consequência do
modo segundo o qual é recebida pelo conjunto a atividade de cada elemento
pessoal.
Além do mais, a
consciência individual, no ato de tentar levar a efeito uma finalidade, entra em
contato com as demais consciências circunvizinhas e destas recebe sugestões,
críticas, objeções ou orientações, que lhe tiram a liberdade absoluta talvez por
ela imaginada, fazendo de toda ação técnica individual a resultante de um
encontro geral, mais ou menos amplo, de consciências privadas coexistentes, em
relação de reciprocidade pacífica ou conflitante.
Por todos esses
aspectos verifica-se que a tecnologia, no sentido da teoria da técnica, funda-se
na prática da ação, original ou rotineira, trazendo a marca das correlações a
que está exposto o agente humano, obrigado a mover-se no meio social. A
consciência de si e de seus atos estará condicionada por todos esses fatores,
sendo ideológica por definição, porquanto reflete os correlacionamentos pelos
determinantes da existência, a que não pode fugir. Concebe uma teoria implícita
da técnica, mas na verdade vive essa teoria, antes de chegar a formulá-la
claramente, de analisá-la logicamente e de avaliar-lhe os efeitos.
O exercício social
da técnica estabelece o fundamento do inevitável caráter ideológico da
tecnologia. Sendo assim, o técnico advertido pelas presentes reflexões, está
obrigado a proceder ao exame de suas condições existenciais para submeter a
rigorosa análise lógica os condicionamentos que sobre ele incidem, a fim de
separar quantos, por serem nocivos aos interesses do povo, estejam sendo
cumpridos por ele inadvertidamente, ou aceitá-los, com a correspondente
responsabilidade moral, se não quiser repeli-los.
Como segunda tarefa,
impõe-se-lhe a denúncia das sugestões teóricas mal-intencionadas, das pressões
econômicas escravizadoras e das repressões a que está sujeito por parte de
agentes da tecnologia de dominação, e igualmente a obrigação de empreender a
luta, nos campos teórico e prático da tecnologia, para que o país
subdesenvolvido rejeite a influência opressora e adquira condições objetivas de
produzir sua visão de si, e correlatamente a concepção e o emprego da tecnologia
que lhe convém. Será obra comum, da qual participarão, junto aos especialistas
de todos os ramos da atividade inventiva e construtiva, os sociólogos,
economistas e pensadores libertados das subalternidades culturais e materiais
alienadoras.
Não será trabalho
fácil, mas terá de ser encetado, com a divisão das hostes, entre os que se põem
a serviço exclusivo da desalienação do país em luta pelo desenvolvimento
autônomo e os partidários do crescimento à sombra. Os técnicos de ofício terão
sem dúvida dificuldades em se orientar e chegar a conclusões corretas, pela
explicável carência de recursos lógicos de expressão para confeccionarem a
correta doutrina em linguagem estruturada em bases dialéticas. Mas se, neste
caso, a colaboração dos pensadores descomprometidos será de extrema valia, não
devem estes últimos esquecer que o produto ideológico para cuja realização
cooperam não sai exclusivamente da sua cabeça, porque jamais poderiam pensar
adequadamente sem o fundamento na prática do trabalho inventivo, de pesquisa ou
construção, possuído pelos técnicos de oficio.
A tecnologia é uma
ideologia, mas nada tem de contemplativa, não corresponde ao produto imaginário
de um pensamento desligado da realidade e sim enraíza a sua verdade na prática
da existência de quem a concebe. Daí o caráter existencial que lhe é inerente e
ao qual tem-se frequentemente aludido. A melhor prova disso, encontramo-la
justamente nas concepções alienadas da tecnologia, unicamente merecedoras deste
qualificativo com relação ao pensamento do país subjugado, porquanto para o
outro, aquele que originariamente as enuncia, nada mais são do que a expressão
correta da prática existencial do dominador. Evidentemente, para este último é
certa, tanto assim que a vê confirmada pelos êxitos que assegura à sua ação
nociva para os espoliados.
Compete ao povo
pobre e até agora receptivo dos bens ideológicos e produtos materiais acabados
metropolitanos inverter a conexão, que por ora lhe tem sido desfavorável,
procedendo à elaboração ideológica da sua concepção da tecnologia, aquela que
reflete suas condições de nação explorada, serviçal e marginalizada, para efeito
de transformar tal estado da realidade.
De fato, torna-se
impossível ao país subdesenvolvido a livre produção do avanço da ciência e da
técnica, exatamente porque, em primeiro lugar, foi persuadido de não ter
capacidade intelectual para tanto, e, em seguida, mostram-lhe os mestres que
reverencia a inutilidade de tentar a empresa, com pura perda de tempo, de
fadigas e recursos, pois não conseguiria nada melhor do que aquilo que lhe é
oferecido de fora, sendo portanto preferível não se preparar infantilmente para
participar de uma competição na qual jamais conseguirá chegar à linha de frente.
Continua na
próxima edição. |