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Eduardo de
Oliveira: 50 anos de literatura, 83 de combate
Jubileu do poeta
e combatente da libertação do negro e do povo brasileiro será no dia 18
Eduardo
de Oliveira é um dos mais notáveis homens nascidos neste país.
Não é um elogio. É
um fato.
Todos aqueles que o
conhecem admiram sua generosidade, sua luta de décadas contra o racismo e seu
talento poético. Ninguém (exceto alguém que seja ninguém) pode deixar de
perceber a sua grandeza. Mas, talvez, a sua simplicidade, a sua humildade de
homem pobre, sensível ao sofrimento de todos os seres humanos, em suma, suas
mais profundas qualidades humanas, tornem difícil a percepção de toda
esta grandeza. Este não é um problema dos grandes homens, antes é daqueles que
convivem com a sua grandeza.
No entanto, Eduardo
de Oliveira é o poeta que Tristão de Ataíde (Alceu de Amoroso Lima), um dos
maiores críticos literários da história de nosso país, já na década de 60
destacou como um dos três fundadores mundiais da negritude em literatura: “E
a poesia, com um Aimé Cesaire, com um Senghor ou com um Eduardo de Oliveira (….)
tem um papel decisivo a representar. Não apenas como instrumento de redenção,
mas como voz da própria beleza eterna, inseparável da verdade e do bem, nos
desígnios de Deus” (Tristão de Ataíde, 1966, cit. in Zilá Bernd, “Poesia
Negra Brasileira”, AGE, Porto Alegre, 1992, pág. 58).
Uma vez, ao fim de
uma conversa algo acidental com um autor que, sem dúvida, não está entre nossos
preferidos, o historiador americano Thomas Skidmore, ouvimos dele: “Somente
entendi o problema racial brasileiro quando conheci o professor Eduardo de
Oliveira”. Não sabemos se Skidmore - que em 1974 publicou “Black Into White:
Race and Nationality in Brazilian Thought” (“Preto No Branco: Raça e
Nacionalidade no Pensamento Brasileiro”) - entendeu ou não o problema racial
brasileiro, e até que ponto. Mas essa declaração nos pareceu muito mais digna de
respeito do que algumas de suas tentativas “brazilianistas” de escrever a
História do Brasil do ponto de vista dos EUA.
É este homem, poeta,
combatente, presidente do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), que será
homenageado no próximo dia 18, quarta-feira. Será o seu Jubileu literário –
pelos 50 anos (na verdade, 51) da publicação de seu primeiro livro, “Além do Pó”
- e a comemoração dos seus 83 anos de juventude.
“Além do Pó”
apareceu numa data especial – 13 de maio de 1958. Com ele surgia o mais genuíno
dos continuadores de Luiz Gama, na literatura, no combate, na inteligência e na
grandeza de espírito.
Como já notaram não
poucos comentaristas, Eduardo de Oliveira, ao resgatar o negro e sua ancestral
herança africana, desbrava a vereda ainda mais ampla do reencontro de todos os
seres humanos com suas raízes comuns. Para que o ser humano seja livre, é
preciso que o negro seja resgatado da opressão, que sua história, sua arte e sua
cultura sejam tiradas da invisibilidade. Porque, enquanto o homem negro não for
livre, nenhum homem será livre.
Assim, em “Gestas
Líricas da Negritude” (1967), o soneto que provê o título do livro tem por
tercetos finais: “Eu seguirei feliz, de braços dados/ com meus irmãos dos
cinco continentes.../ que a todos amam, porque são amados.// E quando se ama a
Humanidade inteira,/ os ideais – por mais nobres, mais ardentes -/ irmanam-se
numa única bandeira”.
No mesmo livro, há
um dos poemas definitivos da literatura brasileira, “Voz Emudecida”, que começa
com os versos: “Eu me levanto aqui/ na voz dos que não podem falar”.
Hoje, escolhemos
“Banzo”, do livro de mesmo nome (1965), para homenageá-lo. Mas poderia ser outro
poema de seus vários livros, entre eles, Ancoradouro (1960), Evangelho da
Solidão (1969), Túnica de ébano (1980), A Cólera dos Generosos (1988). O poeta
é, também, o autor da enciclopédia “Quem é Quem na Negritude Brasileira”.
A homenagem a
Eduardo de Oliveira será em São Paulo, no restaurante Casa da Fazenda, avenida
Morumbi, 5.594. Os leitores que quiserem adquirir convites, poderão fazê-lo
através do Congresso Nacional Afro-Brasileiro, telefones 3628-3584 e 3628-3585.
CARLOS LOPES |