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Dominó de
bancarrotas em Wall
Street gora encenação de Berlim
Frau Merkel
reuniu Sarkozy, Berlusconi, Gordon Brown e Gorbachev para comemorar 20 anos
do fim do muro. No lugar do neoliberalismo eterno e vitorioso,
a maior crise desde 1929. Bancos alemães também estão na reta
Em época de bailout, bancos quebrados na Alemanha e em Wall Street, 27
milhões de desempregados só nos EUA, e a GM e a Opel na bancarrota, a
primeira-ministra alemã Ângela Merkel reuniu em Berlim Gordon Brown, Sílvio
Berlusconi, Nicolas Sarkozy, Mikhail Gorbachev, Lech Walesa e outros
convidados para comemorar aqueles bons tempos da queda do muro. Novembro de
1989. Quando, segundo Fukuya-ma, até a história ia acabar - além dos
direitos trabalhistas, das aposentadorias, das estatais e da soberania. Já
os derivativos iriam inflar para sempre, além do corte de impostos dos
magnatas e cartéis.
Ex-puxa-saco dos comunistas na RDA, depois puxa-saco do primeiro-ministro
Helmut Kohl, e agora dos norte-americanos, Frau Merkel teve de se contentar
em sua celebração com essas personalidades de quarto-escalão, que é o que a
história anda proporcionando, ultimamente, aos países centrais. O pacote
incluiu shows de rock, um tenor e fogos de artifício.
Sagaz, o presidente Obama não foi – logo ele que fez questão de ir a Berlim
antes de ser eleito -, e no lugar mandou Madame Clinton. Saídos do
sarcófago, Gorbachev e Walesa se dedicaram a aproveitar seus quinze minutos
de fama requentada, após tanto tempo de desprezo. Também veio o
ex-primeiro-ministro húngaro Miklos Nemeth, outro leiloeiro do patrimônio
público. Até o atual presidente russo, Dmitri Medvedev, apareceu. Coube a
Walesa o momento culminante da encenação: empurrar a primeira peça de dominó
gigante, em referência à derrubada dos regimes populares no leste. O
problema é que, atualmente, os dominós que já caíram, ou perigam cair, são
os grandes bancos de Wall Street. E não só eles: também estão de dominó o
segundo maior banco alemão, o Commerzbank, que tambem engoliu o Dresdner. O
Hypo já capotou, e segunda a mídia alemão são 15 os grandes bancos no
sufoco.
Para os alemães-orientais, a anexação significou o fim do pleno emprego que
existia na RDA, a instauração de um desemprego recorde – o dobro em relação
ao lado ocidental -, a destruição do parque produtivo, a discriminação das
mulheres no trabalho e o desmantela-mento dos direitos sociais garantidos
pelo regime socialista, do berço à velhice. Significou, ainda, privilégios e
sinecuras para uns poucos, em detrimento de milhões.
Uma privatização feroz, em que fábricas inteiras foram entregues pela
quantia de 1 marco aos cartéis privados do oeste se abateu sobre a RDA. Na
maior parte das vezes, apenas para fechá-las, demitir, e passar a importar
os produtos necessários. Transcorrido duas décadas, prossegue marcante a
desigualdade entre as duas partes alemães. Os salários e aposentadorias no
leste são 70% do que é pago no lado ocidental. A população do leste diminuiu
em 2 milhões.
De acordo com uma pesquisa da revista “Der Spiegel”, 57% dos alemães
orientais defendem a antiga RDA. É a chamada “Ostalgie”, a nostalgia do
Leste. “A RDA tinha mais lados bons que ruins. Havia alguns problemas, mas a
vida era boa”, apontaram 46% dos entrevistados. Outra opção, “A RDA tinha,
na maior parte, coisas boas. A vida lá era mais feliz e melhor que na
Alemanha reunificada de hoje”, foi escolhida por 8% dos ouvidos. Esses
resultados ocorrem apesar da campanha de demonização da RDA, bastante
intensificada este ano.
Note-se que o colapso da RDA ocorreu sem um tiro. Na época, o acovardado
Gorbachev, diante do cada mais agressivo imperialismo de Reagan e Mrs
Thatcher, decidiu fazer todas as concessões, até entregar a rapadura
inteira, sob os pomposos slogans de “perestroika” e “glas-nost”. Sua atuação
de mensageiro do desmonte se acelerou a partir da instalação, por Reagan, na
Europa, de mais de 200 mísseis intermediários Per-shing II, com ogivas
nucleares, que levariam 10 minutos para alcançar Moscou.
Vinte anos depois, agora tratado como “Gorbi, meu garoto”, lá estava ele de
novo em Berlim, para lembrar suas “habilidades de vidente” nas conversas com
Kohl. Diz a lenda que ele trocou a RDA por um empréstimo da Alemanha para a
economia soviética que ele desorganizara, mais promessas logo jogadas no
lixo de que a Otan não avançaria no leste. Já o pioneiro Walesa dispensa
apresentações. Como primeiro-ministro polonês, tornou-se conhecido como
ladrão, e nem o estaleiro de Gdansk, que serviu de escada para sua ascensão,
escapou da privatização – e da demissão em massa de trabalhadores que
acreditaram nele. E ele sempre orando no altar da CIA.
Nos outros países do leste europeu, a ascensão da contra-revolução trouxe
conseqüências ainda piores, com privatização, desnacionalização,
desindustrialização, desemprego, cortes nas aposentadorias, arrocho de
salários, mendicância, prostituição e tráfico de drogas. Bancos estrangeiros
assumiram em larga medida o controle desses países e empilharam dívidas
sobre dívidas. O que se tornou ainda mais crítico com a falência do cassino
Lehman Brothers e eclosão da mais grave crise desde o crash de 1929.
ANTONIO PIMENTA
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