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A tecnologia como
ideologia (2)
Para retardar o
mais possível a consciência para si da nação subdesenvolvida o dominador
delibera antecipar-se à compreensão emergente do país atrasado oferecendo-lhe,
com o prestígio da ciência emanada de sua fonte natural, a teoria geral do
desenvolvimento, na qual figuram, a título de componentes essenciais, os motivos
da vitória do processo econômico do país enriquecido e a tese, exposta como
expressão da racionalidade da história, segundo a qual alguns povos foram
predestinados a crescer mais do que outros, devendo estes aprender com aqueles
ÁLVARO VIEIRA
PINTO
Continuação da
edição anterior
Desejaríamos em seguida alinhar alguns traços
demonstrativos do caráter ideológico da tecnologia utilizada intencionalmente
como instrumento de dominação. A tecnologia serve principalmente de ideologia
para exportação. Destina-se a dar a teoria da técnica ao país retardado, antes
que este, pela elevação de sua consciência nacional ao nível de existência para
si, o faça por si mesmo. O colonizador, sem jamais o confessar e fingindo
desconhecê-lo, sabe que este fato mais cedo ou mais tarde terá de ocorrer, mas,
enquanto dispõe de meios para tanto, procura manter a diferencial histórica. Uma
das maneiras mais eficazes de conseguir este fim consiste em apressar-se a
exportar a ideologia da técnica.
Compreende-se por
quê. Todo objeto incorpora em si uma ideia, originada no pensamento de alguém
pertencente a uma sociedade determinada, na qual tem interesses. Estes acham-se
em todos os atos praticados pelo indivíduo, inclusive na criação e fabricação
dos objetos e produtos, materiais e culturais a serem exportados para áreas
subdesenvolvidas. Evidentemente, os aparelhos assim introduzidos no meio pobre
funcionam como suportes materiais da ideologia neles embutida e que veiculam,
pelo simples fato de serem comprados de fora, dando a demonstração palpável,
enunciando em linguagem muda a incapacidade do país importador de fabricá-los.
Tão irrecusável
mensagem, materializada no objeto recebido, tornado falante, insistentemente
propagandista em sua aparente mudez, tem duplo destinatário. Dirige-se à
população em geral, que tem necessariamente de dobrar-se ao consumir os
artefatos materiais ou culturais de origem alheia, e sobretudo aos “técnicos”
nativos, incumbidos de recebê-los, distribuí-los, propagá-los, louvá-los,
repará-los e, já em fase mais adiantada, fabricá-los no local sob patente, quer
dizer, por ordem e em proveito do centro imperialista. A invasão cultural
representada pela importação da tecnologia, com o consequente entupimento das
vias de vazão do gênio criador nacional, manifesta-se no projeto elaborado e
financiado pela potência imperial com o fim de usar a sua tecnologia para
“formar escola” no país atrasado, ou seja, fazê-la passar, imperceptivelmente,
pela tecnologia nativa. O sucesso dessa escamoteação depende apenas do tempo,
repetição dos passes hipnóticos culturais e repressão das vozes denunciadoras.
Mas a tecnologia
externa não poderia triunfar se não conduzisse efetivamente à realização de
consideráveis e necessários empreendimentos, obras públicas, instalações fabris,
institutos de ensino, especialmente técnico de grau superior, na área
subdesenvolvida. Com esse movimento os invasores justificam a penetração,
adquirindo defensores, sinceros em sua ingenuidade, e simultaneamente difundem
no ar um impalpável sentimento de vaidade nacional pelas obras que o país está
realizando, ao qual de certo modo dificilmente alguém pode escapar. O fato
precede o raciocínio e acaba por dominar ou dissipar o último. O cidadão comum
termina por se satisfazer com as “realizações” do país, totalmente incapaz de
compreender ou lembrar-se que não são suas e sim da potência invasora.
Orgulha-se com a “indústria nacional” dos outros instalada aqui. Nesse momento a
alienação da consciência do país pobre e submisso torna-se completa. Não há mais
“meu”, o meu é o alheio, ou seja, eu não sou mais eu, sou o outro. A doação de
si em consequência da entrega dos bens materiais nem sequer tem o disfarce do
colonialismo bruto e juridicamente proclamado, porque se o que é nosso passa a
ser estranho o alheio continua sendo cada vez mais alheio. Amontoa-se assim o
“saldo de gratidão”, ao que parece uma conta inesgotável, sobre a qual o
espoliador pode sacar ilimitadamente.
Será difícil à
inteligência autêntica e livre do país pobre contrabalançar o fascínio
materializado no produto importado. A transformação não ocorrerá senão com a
efetivação do legítimo desenvolvimento nacional, em meio a todos os obstáculos
que lhe são opostos. Outra finalidade ideológica da invasão da tecnologia
estrangeira consiste em oferecer à consciência indígena a explicação do seu
estado de atraso. Encontramos aqui o nó vital do problema. Nada infunde maior
pavor ao dominador do que a descoberta da dominação. Em sua consciência culpada,
acredita jamais ser denunciado, porque também julga ser a sua única consciência
pensante. O colonizado, por definição, não pensa, justamente porque tudo quanto
poderia pensar lhe foi antecipadamente transfundido de fora. A crença na
incompetência do dominado determina a razão, com freqüência e implicitamente
acolhida pelo explorador estrangeiro, de que se vale para afugentar ou negar
qualquer eventual surto de má consciência instalando o homem de negócios, o
político, o economista ou o sociólogo do país espoliador no tranqüilizante
conforto moral dos sábios e dos justos.
Para retardar o mais
possível a consciência para si da nação subdesenvolvida delibera antecipar-se à
compreensão emergente do país atrasado oferecendo-lhe, com o prestígio da
ciência emanada de sua fonte natural, a teoria geral do desenvolvimento, na qual
figuram, a título de componentes essenciais, os motivos da vitória do processo
econômico do país enriquecido e a tese, exposta como expressão da racionalidade
da história, segundo a qual alguns povos foram predestinados a crescer mais do
que outros, devendo estes aprender com aqueles.
Sobretudo importa
fazer crer que tal situação tem efeito benéfico para os mais fracos, porquanto a
recusa de aceitar a condição de receptores culturais do saber e de exportadores
de matérias-primas criaria para eles uma realidade ainda pior, a da simples
permanência no estado selvagem. Importa fazer crer que toda tentativa de
libertação traz consigo o risco de uma desgraça maior, expõe o país a um
retrocesso, ameaça levar o povo, já atrasado, a desligar as relações com os
centros criadores da cultura e da técnica, únicas fontes de que tem de valer-se
para se desenvolver.
Consta da ardilosa
teoria, destilada pelos ideólogos metropolitanos, o desencaminhamento da
consciência nativa em via de procurar compreender-se, forçando-a a dirigir-se no
sentido de reclamações errôneas, por exemplo, deblaterar contra a “falta de
instrução” do país, afastando-a de cogitar sobre as estruturas sociais arcaicas,
nas quais iria reconhecer as verdadeiras causas da conservação do atraso. Com
isso o pensador de exportação, artificial e falsamente, fornece ao país pobre
uma consciência pronta, que procura fazer passar por “universal” e portanto
irrecusável, quando na verdade nada mais significa do que o invólucro dentro do
qual contrabandeia os interesses das classes industriais, e suas facções
políticas, da nação soberana.
Revestindo a técnica
de caráter ideológico ostensivo, no sentido conveniente para o dominador, faz
dela uma atitude sociológica e política destinada a dar orientação ao
comportamento dos “técnicos” em sua inevitável e necessária atuação na vida do
país. Fica deste modo assegurado o objetivo supremo das forças externas
espoliadoras, a saber que tal orientação obedecerá aos propósitos do poder
alienígena regente, garantindo a exclusividade da difusão no meio atrasado e do
conjunto de idéias que não o ameacem.
Ao introduzir a
técnica como ideologia os dirigentes, externos e internos, da operação
alienadora introduzem obrigatoriamente os “técnicos” estrangeiros, para servirem
de suporte e reprodutores do pensamento progressista importado. Outro objetivo
da ideologização da tecnologia consiste em tentar manter o vínculo de
subordinação cultural e econômica, pois quanto mais obras técnicas o país
atrasado executa com o auxílio e a presença dos especialistas estranhos, mais
sensível se torna a premência de fazer outras realizações ainda maiores, para o
que precisa importar mais técnica e técnicos, num rolar sem fim. O importante
está em nunca dar realmente ao país atrasado a oportunidade de criar para si a
invenção técnica, que, naturalmente, viria acompanhada de uma percepção
ideológica nova de sua realidade e assentaria os autênticos alicerces da
formação da consciência para si.
Ora, essa fatalidade
constitui o perigo que o colonizador, com sutis ou violentos recursos, tenta
conjurar ou adiar. Uma das formas de proceder ao impedimento consiste em
antecipar-se à realização da exigência irreprimível, fazer acordo com os
técnicos e tecnocratas indígenas e apressar-se em instalar no meio pobre os
institutos educacionais onde irão trabalhar, na tarefa pedagógica de instrução
de gerações de especialistas, tanto os técnicos vindos de fora, com a função de
professores, quanto os nativos, educados no exterior, e assim devidamente
preparados para a execução da partitura que lhes for distribuída.
Tais instituições,
embora evidentemente ninguém discuta o valor do trabalho e do papel social que
têm a desempenhar, são contudo pervertidos, afastadas dos fins a que
honestamente deviam servir, para várias injunções, em atender à regra geral de
cunho antinacional. Destinam-se, com efeito, a criar e espalhar uma atitude de
gratidão moral em relação aos emissários do centro metropolitano, impedindo
alguém de ver e denunciar o caráter predominante de transação econômica e
política que explica e conserva a presença dos transmissores estrangeiros da
tecnologia.
O estado de perene
aprendizagem a que são votados os alunos de tais instituições tem por finalidade
soprar a chama da admiração pelo superior, com todas as implicações psicológicas
negativas acarretadas por essa atitude. Além do mais, o beato e acrítico
acolhimento da tecnologia forânea, na pessoa dos pontífices em excursão no país
humilhado visa na realidade, em grande número de casos, a encobrir a proposta de
excelentes negócios, sob a capa de levar a cabo o desenvolvimento econômico e
tecnológico do país. Participando ativamente da formação das novas gerações de
técnicos de que a região atrasada tanto necessita, os emissários do alto
bloqueiam, segundo dissemos, o afloramento de uma consciência para si na massa
dos aprendizes, pelo exercício da análise crítica dos conhecimentos tecnológicos
recebidos pelos jovens alunos de mestres domesticadores. Mas o segundo resultado
é ainda mais importante. Intrometem-se nas decisões políticas do país receptor,
nelas influindo pelo simples manuseio dos dados estatísticos, confeccionados com
a liberdade de que dispõe sempre o mais sabedor, e pelas propostas de caráter
técnico, feitas a empresas e órgão públicos, imediatamente acatadas, porque não
podem ser discutidas por autoridades, mesmo imbuídas do melhor espírito, mas
hipnotizadas para se julgarem incompetentes em assuntos vitais tornados
herméticos pela política de dominação.
Esta última palavra
dá-nos a chave para compreender quase tudo a respeito do caráter ideológico da
tecnologia. Do mesmo modo que outrora a ciência dos seres divinos era posta ao
alcance dos simples mortais, que só deviam recebê-la, reverenciá-la e jamais
discuti-la, a tecnologia disfarça atualmente suas intenções ideológicas – que
não admite e rejeita indignada porque se considera puramente a projeção aplicada
da ciência, como se esta não fosse igualmente ideológica nas condições de sua
possibilidade de criação e de exercício social – cercando-as de uma aura de
hermetismo, que desqualifica automaticamente a opinião de todos os
não-iniciados.
Os filósofos são os
primeiros a serem excluídos do simpósio, por evidente e insanável incompetência.
Uma técnica, dizem, trata por definição do particular, do modo de fazer alguma
coisa, e unicamente essa coisa. Ora, o filósofo que, também dizem, não sabe
fazer coisa alguma, só poderá quando muito dedicar-se ao passatempo de especular
sobre a técnica, mas, não exercendo nenhuma, merece, no melhor dos casos, a
superficial curiosidade dos verdadeiros técnicos.
Não desejamos entrar
no debate deste aspecto, que costuma ser mais evidenciado na atitude prática do
que numa argumentação manifesta, em que há sempre o risco das palavras
comprometedoras.
O presente ensaio
corporifica a defesa do direito do filósofo de pronunciar-se sobre a essência da
tecnologia, defini-la enquanto conceito, indicar os condicionamentos gerais do
seu exercício, os limites que a circundam e sobretudo explicar por que os
técnicos, especialmente os obedientes a uma ideologia de dominação, devem
naturalmente pensar o contrário de tudo quanto afirmamos.
Não percebem esses
bisonhos e retardatários canonistas que, assim pensando, estão cada vez se
enquadrando melhor na teoria geral da tecnologia que a respeito deles e de suas
concepções aqui deixamos consignada. Longe de nós repelir o concurso inevitável
da tecnologia estrangeira, reprovar o fato puro e simples do estágio de
estudantes nacionais no exterior e a presença, ideologicamente criticada, dos
portadores da técnica no meio atrasado dela necessitado. Tudo quanto desejamos
denunciar limita-se à ingenuidade da aceitação acrítica de noções supostamente
representativas da palavra da ciência e a permissão para que se estabeleça uma
situação que não pode ser objeto de permanente observação da consciência para
si, nascente no país em elevação.
A vigilância
constante desse sistema de relações tem por finalidade conduzir a elite
intelectual, inclusive os técnicos, da nação atrasada ao ponto dialético em que
se produz o salto para uma nova etapa da consciência, instalando-se no plano da
percepção crítica de si e dos outros. A partir desse momento o país adquire
condições de um desenvolvimento cultural e tecnológico independente, o que não
quer dizer isolado do processo em execução por toda parte. Irá rapidamente à
frente, igualando-se aos demais, podendo defrontar-se com os agentes do centro
imperial em condições que excluem a periculosidade de infiltrações ideológicas
alheias sob o disfarce de aprendizagem técnica.
Em suma, ninguém
imaginará que propomos a sandice e a infantilidade da rejeição da tecnologia
estrangeira. Este mesmo objetivo só tem cabimento enquanto estivermos em posição
inferior, sendo na verdade índice e confissão desta situação, porque depois de
vencida a etapa histórica da dependência, perderá sentido chamar de estrangeiro
qualquer dado de cultura. Por ora, tem-se de distinguir entre o conteúdo técnico
e o envoltório ideológico, conservar o primeiro e substituir o segundo por
outro, que exprima as conveniências do povo em luta pelo direito de se afirmar.
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