Projetos do pré-sal estão prontos para ir a plenário
Todos os 4
já foram aprovados nas comissões
O
plenário da Câmara dos Deputados aprovou na quarta-feira o regime de
urgência para votação dos projetos de lei que vão regular a exploração do
petróleo na camada do pré-sal. O deputado Michel Temer (PMDB-SP), presidente
da Câmara, havia feito um acordo com o governo federal para que as matérias
sobre o pré-sal fossem votadas na primeira metade de novembro.
Nas comissões especiais todos os quatro projetos
já foram votados e aprovados. Um dos projetos (PL 5.938/09) estabelece os
contratos de partilha de produção para a exploração de petróleo, ao
contrário da lei 9478/97, do governo FHC, que entrega em regime de concessão
as bacias de petróleo brasileiras para a exploração por monopólios
estrangeiros. Outro projeto (PL 5.941/2009) capitaliza a Petrobrás e entrega
os estudos das potencialidades do pré-sal para a estatal.
Neles a Petrobrás passa a ser a operadora única
de todos os blocos do pré-sal. Com a aprovação da nova lei, a estatal poderá
também ser contratada diretamente pela União, sem licitação, para a
exploração em toda a camada do pré-sal e nas áreas consideradas pelo governo
como estratégicas para o Brasil. Também foram aprovados nas suas respectivas
comissões especiais os projetos que criam o Fundo Social (PL 5.940/09) e uma
nova estatal (5.939/2009), a Petro-Sal.
Sobre o Fundo Social, o projeto aprovado na
quarta-feira determina também que a receita advinda da comercialização do
petróleo será destinada a um fundo criado com a finalidade de constituir
poupança pública de longo prazo e fonte regular de recursos para a
realização de projetos e programas nas áreas de combate à pobreza e
desenvolvimento da educação, da saúde, da cultura, da ciência e tecnologia e
da defesa do meio ambiente.
PARTILHA
Além de poder contratar a Petrobrás diretamente,
a nova lei determina que, nos casos em que forem realizados leilões pela
União - para o contrato com consórcios privados - a Petrobrás deverá
obrigatoriamente participar destes com no mínimo 30% das ações. O projeto do
Executivo, mais abrangente, foi apensado (anexado) a um mais antigo, ao
projeto (Nº 2.502/2007) do deputado Eduardo Valverde (PT-RO), que também
trata do tema, e determina ainda que a estatal seja a operadora única de
toda a área do pré-sal. Este PL foi relatado pelo deputado Henrique Alves
(PMDB-RN) e, além de definir o regime de partilha, redistribuiu os royalties
entre os estados e municípios brasileiros levando em consideração uma
remuneração maior para os estados e municípios produtores de petróleo.
O projeto prevê que a União passará a ser a
proprietária de todo o petróleo extraído, como determina a Constituição
Federal, e não mais a empresa privada contratada em regime de concessão,
como define a legislação de FHC. Pelo novo projeto, o país contará com um
sistema misto de contratação das atividades de exploração de petróleo e de
gás natural, a saber: regime de partilha de produção, para ás áreas do
pré-sal e para as áreas estratégicas; e regime de concessão, para os demais
blocos considerados de alto risco. Entidades que defendem a volta do
monopólio estatal para a exploração do petróleo e o fortalecimento da
Petrobrás, como a Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobrás) e outras,
consideraram um avanço as mudanças aprovadas na Câmara, mas questionam a
manutenção dos leilões na camada do pré-sal.
Segundo o presidente da entidade, Fernando
Siqueira, “a Petrobrás tem todas as condições técnicas e financeiras de
explorar sozinha o pré-sal”. Não há, segundo ele “necessidade nenhuma da
manutenção dos leilões no pré-sal”. Para o engenheiro, esses leilões apenas
propiciarão a entrada das multinacionais na região sem que o país obtenha
nenhum benefício com a sua presença. Ao contrário, as múltis não empregam,
não compram equipamentos no país e ainda terão, se entrarem, uma atividade
predatória típica dos monopólios privados na região.
Outro ponto importante, presente no projeto
5.941/09, relatado pelo deputado João Maia (PT-RN), e também aprovado na
quarta-feira, é que a União ficará autorizada a ceder à Petrobrás o
exercício das atividades de pesquisa e lavra de petróleo, de gás natural e
de outros hidrocarbonetos na área do pré-sal. Ou seja, a Petrobrás passará a
ter a incumbência, que era exercida antes pela ANP (Agência Nacional do
Petróleo ), de elaborar todos os estudos e levantamentos das potencialidades
econômicas e produtivas do pré-sal. O projeto exclui o dispositivo da Lei
9.478/97 que determina que as atividades de pesquisa e lavra de petróleo
seriam desenvolvidas pela Petrobrás “em caráter de livre competição com
outras empresas”.
No novo regime de contrato de partilha, a União,
além de manter a propriedade dos hidrocarbonetos produzidos, tem assegurado
o recebimento de parcela do “excedente em óleo”, definido como a diferença
entre o volume total de produção e as parcelas relativas aos custos e aos
royalties. A outra parte do “excedente” ficará com o consórcio contratado em
proporção a ser definida. A proposta aprovada determina que caberá ao CNPE
(Conselho Nacional de Política Energética) propor ao Presidente da República
o percentual mínimo do “Excedente em Óleo” da União referente a cada bloco.
Pela nova legislação a administração do
consórcio será executada por um comitê operacional composto por
representantes da empresa pública a ser criada (Petro-sal) que será
responsável pela gestão dos contratos de partilha de produção, e dos demais
consorciados. O controle do comitê operacional será exercido pela empresa
pública que indicará a metade dos membros do comitê operacional, inclusive o
presidente, que terá poder de veto e voto de qualidade. Tanto a proposta de
criação da nova empresa pública como a do comitê operacional são vistas por
especialistas como desnecessárias já que a Petrobrás já demonstrou que tem
todas as condições de exercer essas atividades em muito melhores condições.
Paulo Metri, conselheiro da Federação Brasileira de Associações de
Engenheiros (Febrae), chegou a afirmar que essa medida demonstra uma
“desconfiança inexplicável” na capacidade da Petrobrás defender
adequadamente os interesses nacionais.
O deputado João Maia votou também
favoravelmente à capitalização da Petrobrás proposta pelo governo e manteve
em seu relatório a obrigatoriedade de um índice de nacionalização de 60% dos
equipamentos e serviços para a exploração de petróleo e gás na camada do
pré-sal. O deputado Carlos Zarattini (PT-SP) destacou “a importância do
índice de nacionalização nas atividades do setor para a criação de emprego e
renda no Brasil”. A deputada Iriny Lopes (PT-ES) afirmou que os projetos do
governo “são estratégicos e garantem um novo papel do Estado em defesa dos
interesses nacionais”. Ela criticou as privatizações do período FHC onde o
país ficou “sem muitos instrumentos de intervenção estratégica, como na área
de telecomunicações”.
DEBATES
Na comissão que analisou o projeto da partilha,
o que rendeu debates e exigiu muita negociação foi o problema dos royalties
dos estados produtores. O relator Henrique Alves elevou a alíquota de 10%
para 15% da produção de petróleo ou gás natural. E destinou 44% da
arrecadação dos royalties para todos Estados e Municípios do Brasil não
produtores, que antes eram contemplados com apenas 7,5%. No entanto, os
governadores de estados produtores, como Sérgio Cabral (Rio de Janeiro) e
Paulo Hartung (Espírito Santo), foram ao presidente Lula reclamar que
estavam perdendo e fecharam um acordo. Assim, a parte da União foi reduzida
de 30% para 22%. E os estados produtores de petróleo passarão de 18% para
25%. O relator refez seu relatório para contemplar esse acordo.
SÉRGIO CRUZ