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Criador do AK-47
celebra 90 anos em Moscou
“Não querem mostrar quem nos dirigiu durante a
guerra”
Mikhail T.
Kalashnikov, criador do lendário fuzil automático que leva seu nome, e uma
das maiores personalidades vivas da União Soviética, fez no dia 10 de
novembro passado 90 anos e, em sua homenagem, a editora russa Jovem Guarda
publicou um livro, grande parte do qual está dedicado a suas lembranças e
opiniões. Reproduzimos abaixo algumas delas, divulgadas pelo jornal
Sovietskaia Rossia. A seleção está assinada por A. Uzhanov.
“Sou combatente
da Grande Guerra Pátria. Estive no Desfile de Honra do 60º Aniversário da
Vitória. Saltava aos olhos que não quiseram mostrar quem nos dirigiu nos
anos de guerra. Não havia retratos de Stalin, nem de Zhukov, nem de
Bagramian, nem de Rokossovsky A guerra é um trabalho duro. Têm alguns que
agora se dedicam a reescrever a história, a caluniar a Grande Guerra Pátria.
Puseram-se de acordo em que nossos chefes militares eram uns inúteis. Não há
que tergiversar a história. É errado pensar que lutávamos individualmente.
Stalin nos comandava, junto com Zhukov, Rokossovsky e outros. Íamos ao
combate gritando “Pela Pátria, por Stalin!”. Tudo está na memória. A última
vez que estive em Stalingrado, nos reunimos muitos combatentes da frente, e
começamos a cantar em coro, sem pestanejar e sem vergonha: “Artilheiros,
Stalin deu a ordem...”
Kalashnikov
nasceu em 10 de novembro de 1919, na região russa de Altai, numa numerosa
família camponesa. Nos primeiros meses da II Guerra Mundial combateu como
tanquista em Briansk, ao sul de Moscou, de onde saiu gravemente ferido.
Convalescente, no hospital, empreendeu a tarefa de criar um novo fuzil, que
levasse em conta as necessidades dos soldados e que fosse melhor que o que
usavam os alemães. Sem formação específica, mostrou um enorme talento e
criatividade, e o general Blagonravov o enviou a um dos institutos de
investigação, onde trabalhou desde 1943.
“Percorri o
caminho da auto-afirmação através do trabalho, sob uma permanente
concentração e fé na vitória. O fuzil AK-47 é a personificação da energia
criadora do Povo”.
“Conheci
armeiros norte-americanos, em especial o construtor do fuzil M16 e da
metralhadora M60. Também conheci o criador do modelo israelense. Eles
ficaram ricos, de cada modelo recebem uma percentagem. Nós, armeiros
soviéticos, porém, trabalhávamos para a Pátria. Assim nos educaram. Ninguém
pensava em patentes. Mas é totalmente falsa a imagem que passam de mim os
meios de comunicação estrangeiros, dizendo que vivo humilhado, na miséria.
Digam um mestre armeiro no mundo a quem tenham construído um busto de bronze
em vida. Na minha terra natal, onde minha mãe me pôs no mundo numa grande
família de camponeses, construíram um para mim, no ano 80, como duas vezes
herói da União Soviética. Porque temos que estar pendurados nos bilhetes
verdes? Eu recebo uma pensão honorária da Fábrica de Armas de Izhevsk, e um
bom salário como conselheiro do diretor geral da ‘Rosoboronexport’, moro num
apartamento com quatro quartos. Não me comparo com os ‘novos russos’ que
roubaram bilhões do que era propriedade de todos”.
“Compreendi que na hora de construir uma arma
há que ter em conta a comodidade em seu manejo, a facilidade no uso como
diriam agora. Conseguir a máxima simplicidade no mecanismo, sem esquecer a
confiabilidade. Evitar a utilização de componentes demasiado pequenos, que
podem se perder ao desmontar a arma”. |