A tecnologia como ideologia (3) 

Tão importante quanto elaborar a teoria do atraso do povo pobre é elaborar a da superioridade das nações metropolitanas. Mas esta não cabe aos economistas, sociólogos e historiadores do centro imperial enunciar, porque não passaria de uma petição de princípio, sendo por definição, um produto da situação que se trata justamente de explicar. Por isso, só os pensadores do mundo subdesenvolvido, quando munidos da compreensão científica, crítica do processo material da história, são os únicos capacitados a produzir a teoria do desenvolvimento econômico em geral, e a dos países adiantados e prepotentes em particular 

ÁLVARO VIEIRA PINTO 

Continuação da edição anterior 

Infelizmente, a ideologia da técnica é acolhida pelos “técnicos”, sociólogos, economistas e pensadores das regiões laterais como expressão sublime da verdade, pela simples razão de ter a seu favor a autoridade do centro magistral infalível. Qualquer objeção às concepções iluminadoras, e principalmente a denúncia do caráter ideológico, parece ridícula aos olhos dos técnicos, sociólogos e economistas indígenas, porquanto representa audaciosa pretensão de quem não possui condições de conhecimento reais para discutir o assunto. O próprio fato de estarmos num grau primitivo de desenvolvimento tecnológico – e somos os primeiros a reconhecer este estado – incapacita-nos para pretender dizer aos que possuem a mais adiantada tecnologia do mundo o que ela é.

Para a consciência ingênua, que não sabe por que o dia nasce, este argumento tem valor definitivo e encerra o debate. Condena-se assim ao mutismo e à irrevogável subalternidade. Mas o pensamento crítico dispõe de outros instrumentos de pensar. Para começar, tem da consciência uma concepção geral que explica a possibilidade da constituição de formação históricas nacionais retardadas, com todos os aspectos particulares nelas observados. Ora, um destes resume-se exatamente no estado de subdesenvolvimento das técnicas possuídas e na relação de inferioridade com as mais adiantadas. Principalmente, não ignora que, mesmo nas condições de relativa penúria, lhe é possível ter um ângulo de visão sobre a totalidade e exprimir uma compreensão do mundo a partir do seu estado. Não precisa que lhe venham os outros dizer, em tom professoral, em que consiste a realidade pobre.

A segunda parte da sua tarefa tem importância fundamental, para que o país recolha os benefícios do pensamento crítico. Diante do espetáculo do retardamento, de suas carências e da dificuldade de encontrar à vista os meios de superá-las, deve ser julgado normal que a mentalidade popular, ainda despreparada, esteja propensa a aceitar como situação de fato, ou seja, natural, lógica, permanente, não necessitando de explicação mas de acomodação, o regime de desigualdade no desenvolvimento dos países. A aceitação do fato consumado exclui qualquer exigência de explicação, tornada ociosa, inoportuna e ineficaz. O dever dos pensadores críticos está em arremeter contra essa inércia mental que, na verdade, protege uma clamorosa falsidade histórica.

Tão importante quanto elaborar a teoria do atraso do povo pobre é elaborar a da superioridade das nações metropolitanas. Mas esta não cabe aos economistas, sociólogos e historiadores do centro imperial enunciar, porque não passaria de uma petição de princípio, sendo por definição, um produto da situação que se trata justamente de explicar. Por isso, só os pensadores do mundo subdesenvolvido, quando munidos da compreensão científica, crítica do processo material da história, são os únicos capacitados a produzir a teoria do desenvolvimento econômico em geral, e a dos países adiantados e prepotentes em particular. Esses pensadores têm competência para apreciar um processo do qual recebem as consequências desfavoráveis, ignoradas por um especialista que as vê pelo aspecto oposto.

Mostrar que a situação desfrutada atualmente pelos supostos afortunados não decorre de um decreto do destino, não se deve a nenhuma fatalidade, mas se explica por motivos históricos materiais perfeitamente conhecidos, mostrar que essas nações foram em épocas passadas, às vezes até bem próximas de nós, países atrasados em relação às potências dominantes em tais momentos, tendo empreendido sua escalada nacional no cumprimento de um pensamento crítico libertador concebido pelas elites pensantes e realizado pelas vanguardas políticas, embora, de início, ou mais recentemente, envolvendo a espoliação impiedosa de áreas colonizadas, tudo isso é trabalho que o pensador do país agora atrasado tem de produzir para esclarecer seus concidadãos e subtraí-los à paralisante crença na imaginária superioridade de povos ou nações que se julguem mais bem dotadas, ou predestinadas à dominação.

Demonstrar a relatividade do conceito de dominação, a fragilidade dos numerosos ex-impérios sepultados na história, vem a ser estabelecer como ponto culminante da doutrina crítica a certeza de que, em vez da fatalidade da superioridade, o que se tem verificado é precisamente o oposto, a fatalidade do declínio. As páginas da história desempenham a este respeito o mesmo papel de demonstração experimental irrespondível que têm os tubos de ensaio e os aparelhos de medida nas mãos dos químicos e dos físicos nos laboratórios.

Munida da concepção crítica correta que lhe vale de precioso instrumento de análise, todos os aspectos do ser nacional do país subdesenvolvido e os dos situados em planos mais altos tornam-se facilmente compreensíveis. Em particular, quebra-se o encanto do feitiço ideológico da tecnologia, deixa de ter efeito mistificador, logo que as intenções do enfeitiçador revelam-se transparentes. Para isso, exige-se entretanto a elaboração, mediante as indispensáveis categorias filosóficas, da teoria geral da técnica em bases existenciais e dialéticas não subjetivas, mas fundada na história natural da capacidade de produção humana.

Estando as potências dominadoras desenvolvendo técnicas cada vez mais portentosas, interessa-lhes infundir às áreas marginais e subsidiárias crescente temor e respeito, a fim de levar as elites científicas e dirigentes do mundo retardado a se sentirem compelidos a recolher-se sob suas asas, com o desolador argumento, pacificador dos bem-intencionados: “não há outro jeito”. Toda dominação material tem como reflexo subjetivo uma chantagem intimidadora. Em segundo lugar, compete aos poderosos produzir o revestimento ideológico de suas realizações técnicas, de modo a tornar aceitável para a comunidade atrasada a dependência e a limitação a que foi relegada, e sobretudo refutar por antecipação qualquer tentativa de explicação independente.

No momento atual vemos em pleno curso o seguinte plano tático:

(a) mostrar por todos os modos e com o apoio em exemplos concretos que a tecnologia mais avançada não pode ter origem senão nos países ricos, detentores de grandiosa tradição cultural, e dos recursos financeiros para sustentar os necessários centros de pesquisa científica;

(b) provar que a técnica requintada representa uma bênção para a humanidade em geral, e muito especialmente para os países atrasados que saibam acolhê-la na devida gratidão e condigna remuneração, pois não há preço para pagar o bem causado àqueles que, sozinhos, jamais poderiam aproveitar os efeitos dela;

(c) denunciar aquela tentativa de oposição ao livre movimento das potências ricas, tachando-o de produto de visão acanhada, obscurantista  e retrógrada de alguns estudiosos românticos de boa-fé ou de patológicos e irracionais reivindicadores, em ambos os casos, só explicável por motivos de proselitismo político de má índole. O envolvimento mental produz naturalmente efeito sobre quem estiver sensibilizado para ele. Notemos, entretanto, que se dirige principalmente à consciência das próprias áreas dominantes cujos grupos dirigentes necessitam de medicação tranquilizante para reequilibrarem-se em sua beatitude moral. Numa grande parte da intelectualidade dos países periféricos, no estado atual do desenvolvimento de sua consciência, tem sem dúvida efeito paralisante, mas em todo caso sempre parcial, porque não é possível desconhecer a verdade dos pronunciamentos que propugnam pelo direito de o país pobre dizer a verdade a seu respeito, a verdade que lhe interessa.

A concepção técnica fundamentadora da tática envolvente acima descrita repousa no paralogismo de julgar que a natureza da técnica não pode ser percebida senão por quem a inventa ou maneja os graus mais avançados em cada momento do desenvolvimento dela. Ora, a verdade consiste exatamente na afirmativa oposta. Cabe a todo homem trabalhador o direito de dizer em que consiste a técnica, pelo elementar motivo de a ter nas mãos. Uma vez de posse desse conceito, passará facilmente ao de tecnologia, no sentido de representar simultaneamente o conjunto das técnicas produtivas e o reflexo subjetivo, e portanto ideológico, das condições em que operam.

Quando denunciamos o caráter ideológico do conceito de tecnologia não julgamos que este traço constitua uma anomalia unicamente observável nas formulações das áreas industrialmente desenvolvidas e interessadas em negociações espoliativas. Sendo reflexo das condições objetivas, existe no mundo rico tanto quanto aqui. Também no meio colonial, agrário, atrasado a tecnologia existente dá origem a uma conceituação ideológica. Será evidentemente diversa conforme se trate dos proprietários dos bens de produção ou dos que empregam seu esforço nas máquinas e instalações, em geral naturalmente rudimentares ou obsoletas, nas quais são obrigados a trabalhar.

Nem por isso deixa de haver sempre uma teoria da técnica, implícita no pensamento dos grupos sociais da área pobre e, como seria de esperar, confusamente enunciada, em frases soltas mas plenas de significado lógico, especialmente entre os trabalhadores primários, que nelas exprimem, em locuções aparentemente toscas, mas carregadas de genuíno conteúdo, o reflexo de suas condições existenciais.

A revolta dos trabalhadores contra as máquinas, no início da era industrial, foi a manifestação ideológica da consciência obscura em face da tecnologia superior nascente. O carro de bois dá origem a uma compreensão tecnológica da realidade, do mesmo modo que os foguetes espaciais dirigidos por computadores eletrônicos. Repetimos ser um engano pensar que a sociedade arcaica não tenha a noção da técnica. O mesmo se dá com a sociedade em começo de crescimento tecnológico. Evidentemente tais ideias não podem resistir à mudança das condições sociais determinada pela invenção e introdução da tecnologia superior, oriunda do meio rico. Importa-nos porém denunciar aqui a conjura dos interessados, ao proclamarem não haver outra concepção justa da técnica senão a que procede da consciência possuidora dos mais adiantados recursos do tempo. Com esta atitude defendemos nosso direito de também proferir a explicação da técnica e da tecnologia a partir de outras finalidades, fundadas contudo nos mesmos alicerces objetivos, o estado de atraso e penúria das massas do país subdesenvolvido, de que cavilosamente se querem apropriar os pregoeiros da consciência alienada.

A diferença está precisamente nas finalidades. Enquanto a sociedade atrasada, pela palavra dos expoentes da classe dominante, defende o atraso, não abertamente, está claro, mas sob a espécie concessiva do progresso controlado, o pensamento das populações retardadas deve ter por conteúdo o conjunto de ideias e procedimentos práticos que as retire o mais rápida e radicalmente dessa condição desumana. Efetivamente, na época moderna foi o avolumar das técnicas de produção e o surgimento da exigência do trabalho racionalizado que deram origem à expressão “tecnologia”. Esta resume o conjunto das técnicas utilizadas em certo momento por uma sociedade. É aplicada por autonomásia ao período histórico moderno, quando, conjuntamente com o aparecimento da produção mecanizada, que começou empregando a energia do vapor ou da eletricidade, surgiu uma nova forma de consciência da técnica.


Primeira Página

 

Página 2

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“ERAT não entrou em ação”, constata presidente da estatal

Copel evita escuridão no Paraná
 

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Expediente

Página 3

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Vox Populi: Dilma cresce 4 pontos e Serra cai 4

Oposição foge da CPI contra a Petrobrás

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Amigos fazem arrecadação de fundos para deputada Erundina

Página 4

Associação Comercial de SP pede veto a despejo sumário

Sinhazinha Kátia Abreu quer que o governo federal intervenha no Pará

Frente popular derruba projeto de privatização na Câmara de Belém 

Fernando Ferro: “concessões de mídia têm que ser controladas”

Agradecimentos a Geisy - Eduardo Guimarães

Cartas

Página 5

Centrais fazem Marcha unificada em defesa da redução da jornada

Trabalhadores fazem paralisação contra 137 demissões na Sabesp

Funcionários da Cemig param sexta contra reajuste salarial de 0,60%

Bosch: metalúrgicos entram em greve por aumento real

Funcionários repudiam redução salarial na Claro e arrancam negociação

Vice-reitor da UNIBAN acha que expulsar aluna agredida foi justo

Página 6

México se levanta em defesa da estatal de energia elétrica 

OEA não reconhecerá eleições sem Zelaya 

Para Chávez, é cinismo tachar de agressor quem quer se defender diante de bases americanas na Colômbia 

Criador do AK-47: “Não querem mostrar quem nos dirigiu durante a guerra” 

Página 7

Embaixador americano é contra a escalada das tropas no Afeganistão

Netaniahu é vaiado em encontro da Federação Judaica Americana

Palestinos ocupam Ramallah em memória de Yasser Arafat

Manifestantes palestinos e israelenses se juntam para por abaixo trecho do Muro da Segregação

Anúncio do livro Economia Internacional Contemporânea - Nilson Araújo de Sousa

O muro de Berlim e o cinismo

Representantes da RPDC e Coreia do Sul debatem questões da Península

Página 8

A tecnologia como ideologia (3) 

Leia

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Para nababos da Vale, povo duro é a melhor receita contra a crise

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Meirelles diz que não aceita baixar juro para priorizar crescimento

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Meirelles quer que Brasil traia o compromisso com G-20 sobre redução do juro

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EUA responde à crise votando em massa na mudança

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Eleições em S. Paulo opõem integridade de Marta à dissimulação indecorosa de Kassab

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Marta sobe porque é Lula. Kassab cai porque é oposição

Retratação de Gabeira reafirma preconceito contra “suburbanos”

Inauguração da P-51 é resposta do Brasil à crise

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Lula pede a S. Paulo que vote em Marta: “temos as mesmas idéias e projetos”

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Para Serra, Kassab é leal. Alckmin, não

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Comando do Exército desmente Jobim: “a maleta da Abin não serve para escutas”

Maleta não faz grampo, apenas a varredura, diz técnico da Abin

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