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Lula cobra investigação sobre o blecaute e
“resultados concretos”
“Já que o sistema é robusto e eficiente, e tínhamos geração de energia à
vontade, por que tivemos esse desastre?”, questiona o presidente
Não sabemos se é verdade que o presidente Lula, ao ouvir do ministro Lobão, na
madrugada do dia 11, que a causa do blecaute foram “fatores climáticos”, teria
respondido: “Que clima, que nada. Eu quero saber mais!”. Pode ser que não
tenha acontecido, mas seria típico do bom senso de Lula. Da mesma forma, suas
declarações públicas posteriores: “Temos instrumentos para descobrir
realmente o que houve. Como eu compreendo o termômetro da sociedade,
quero dizer que quando terminar a fase do achismo, vamos entrar na fase mais
objetiva, que são os resultados concretos de toda a investigação”.
E, mais:
“Eu disse à Aneel e ao ONS que é preciso um processo de investigação para que
descubramos realmente o que houve. Já que o sistema é robusto e eficiente, como
acreditamos que seja, e tínhamos geração de energia à vontade, por que tivemos
esse desastre?”
Verdadeiramente, é preciso saber ler o termômetro da sociedade antes de dar por
encerrado o que não foi explicado. Sobretudo quando certos indivíduos
perniciosos e patogênicos já pegaram o mote - digamos, o Serra (“Basta uma
ventania e um raio para paralisar todas as turbinas de Itaipu e o abastecimento
de energia em 18 Estados?”).
Serra, do ponto de vista administrativo, é aquele da cratera do metrô, e, agora,
do desabamento do Rodoanel. A pior coisa possível, politicamente, seria dar a
esse elemento um prato para refestelar-se. Talvez o ministro Lobão possa
esquecer o termômetro da sociedade – e a existência da oposição – mas não está,
com isso, fazendo bem ao governo, nem às perspectivas eleitorais para o ano que
vem.
Não sabemos o que aconteceu, nem somos especialistas no assunto. Tanto assim
que, na última edição, cometemos um erro, ao reproduzir as declarações do
presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz, que disse: “O que é preciso
levantar é porque não entrou em operação o sistema chamado ERAC que
existe exatamente para levar ao ilhamento”.
ERAC são as iniciais de Esquema de Rejeição e Alívio de Carga. No entanto, na
nota divulgada, constava a sigla ERAT (“Estação Remota de Aterramento”) - e nós
não advertimos o erro.
No entanto, que algo ainda precisa ser investigado, é tão óbvio que até o Serra
percebeu.
A oposição – mais especificamente, a mídia que a chefia – testou algumas
hipóteses contra o sistema interligado, mas apenas porque, como de costume, quer
vendê-lo em postas na bacia das almas, assim como foi feito com um parte dele no
governo Fernando Henrique, com desastrosas consequências.
O sistema elétrico interligado é uma das grandes vitórias do país. Sua
desintegração levou ao desastroso racionamento dos tucanos, um corte de 30% da
energia elétrica do país – o que, evidentemente, nada tem a ver com o problema
atual, mas isso não nos exime de achar as causas do último.
A razão de existir do sistema interligado é compensar os eventuais problemas de
energia, ou de transmissão dela, numa região com recursos de outra e não
permitir que as falhas por razões climáticas (são dezenas por dia, num país
continental como o Brasil) se propaguem para onde essas razões climáticas não
existem. Da forma como alguns – por exemplo, o diretor de operações do ONS – o
defenderam, até parece que seu objetivo é deixar as pessoas no escuro para que
não haja problemas mais graves, o que somente colabora, ainda que
involuntariamente, com a intentona privatizante ao sistema interligado.
O senador Delcídio Amaral (PT-MS), que é engenheiro elétrico – começou sua vida
profissional na instalação de linhas de transmissão em Tucuruí - e foi ministro
das Minas e Energia (governo Itamar Franco), fez algumas considerações
importantes em seu pronunciamento do dia 11:
“... As linhas de 750 kV foram desligadas com uma diferença de 150
milissegundos. Logo em seguida, o nível de tensão do sistema baixou, e, então, a
linha de corrente contínua de 600 kV saiu do sistema também. Essa linha não
poderia sair [do sistema]. Grandes usinas e grandes sistemas têm
equipamentos de controle e proteção para quando acontecem ocorrências como
essas, de um desligamento por descarga atmosférica, que é um desligamento comum;
o incomum é Itaipu sair inteira [do sistema].
“Nós temos um sistema de proteção chamado ERAC. O próprio nome diz: esse ERAC
é um Esquema de Rejeição e Alívio de Carga. Quando sai um bloco de potência
muito grande numa usina, essa proteção dos sistemas tira parte das cargas para
manter as usinas funcionando, para não dar sub-tensão, como aconteceu ontem,
quando saiu o sistema de corrente contínua, para que não dê sub-frequência.
Então, esses sistemas isolam o defeito e mantêm a usina em operação. Porque aí o
retorno é muito rápido, porque as máquinas ficam operando. Ontem, Itaipu
desligou completamente. Por isso é que demorou.
“... qual é a razão desse sistema de proteção não ter operado? O Esquema de
Rejeição e Alívio de Carga, o famoso ERAC, por que não funcionou? Se ele
funcionasse, nós iríamos ter desligamento, mas rapidamente a energia voltaria, e
Itaipu não desligaria as 20 máquinas.
“A outra questão: por que as térmicas não entraram rapidamente [em ação]?
O Rio de Janeiro tem duas termoelétricas a gás de mais de mil megawatts cada
uma. E aí, hoje, me explicaram: ‘Térmica demora muito para entrar em operação’.
Térmica a vapor, turbina a vapor; turbina a gás, não! Turbina a gás é igual a
turbina de avião: apertou o botão, liga o motor do avião e sincroniza rápido.
Mas acho que isso precisa ser respondido também, porque há um parque
termoelétrico que atende ao Brasil, e o consumidor paga por isso nas suas contas
de luz.
“Não podemos simplificar a análise, dizer assim: ‘Houve uma descarga
atmosférica, a linha saiu, mas tudo bem, não vai acontecer mais’. Acho que, com
tudo que tem sido feito, com os investimentos que vão, mais do que nunca, ser
concluídos ao longo dos próximos anos, não precisamos mitigar, esconder nada. E
às vezes dizem assim: ‘Levou só quatro horas para voltar’. Quatro horas em uma
cidade como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Campo Grande, a
minha cidade, não é mole, não. E o Governo não tem nada a temer, porque foram
feitas muitas coisas, muitos investimentos, e serão feitos novos investimentos,
que vão dar uma confiabilidade cada vez maior para o nosso sistema, inclusive -
como ouvi aqui em alguns discursos - incluindo outras modalidades de energia
renovável, para que o Brasil consolide talvez a matriz energética mais limpa do
mundo”.
CARLOS LOPES
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