|
BC levou o país à beira do caos no fim de
2008
O diretor de
política monetária do Banco Central, Mário Torós, retirado a fórceps do cargo na
segunda-feira (ele já estava demissionário, mas suas declarações ao “Valor”
precipitaram a saída), merece, como disse Luiz Nassif, denúncia pelo Ministério
Público. E, acrescentamos por nossa conta, cadeia. Trata-se de réu confesso,
pois declarou que, como diretor do BC, passou informações de bancos em
dificuldades para compradores (ou seja, para grandes bancos). Só resta chamar a
polícia.
Porém,
exatamente por ser um patife financeiro, Torós revelou algumas coisas
interessantes. Resumindo a matéria do “Valor”, com algumas deduções nossas:
1. No último
trimestre do ano passado houve no país uma “corrida aos bancos”. Numa única
semana de outubro, houve retiradas totais de R$ 40 bilhões.
2. Este foi o
motivo real da política de Meirelles de liberar o depósito compulsório,
aumentando o dinheiro à disposição dos bancos. O objetivo, ao contrário do que
Meirelles propalava, não era aumentar o estancado crédito para as empresas
produtivas - como aliás, não aumentou, até que os bancos públicos interviessem.
Como de hábito no BC, era uma política para favorecer os grandes bancos.
3. Torós, que
não tem escrúpulos, descreve a situação desse jeito: “qualquer banquinho era
‘too big to fail’ [grande demais para quebrar]”. Assim, Meirelles passou a
patrocinar a compra dos pequenos bancos pelos grandes. E Torós confessa que
passava informações dos pequenos para os grandes.
4. Em seguida,
houve um ataque especulativo. O Moore Capital Management, um dos maiores fundos
de hedge do mundo, empregou US$ 5 bilhões para elevar a cotação do dólar. E
conseguiu. A cotação, que estava em R$ 1,66 no início de setembro, foi parar em
R$ 2,62 em dezembro.
5. Em suma, o
controlador do Moore Capital Management, o especulador norte-americano Louis
Bacon (cujo lema é “como especulador você deve abraçar a desordem e o caos”
- cf. Dyan Machan, “Macro Moneymaker”, Forbes, dezembro/2004) percebeu que as
grandes empresas exportadoras e os bancos no Brasil, devido à política do BC,
estavam pendurados nos derivativos cambiais – essas empresas e bancos haviam
apostado numa cotação baixa para o dólar; o BC, através dos juros altos,
sobrevalorizava o real e puxava a cotação do dólar para baixo. Portanto, o Moore
Capital Management, ao elevar a cotação do dólar, ganhava, nos derivativos, em
cima das grandes empresas exportadoras e dos bancos instalados aqui. O conluio
de monopólios e bancos com o BC se tornou, então, a linha reta para o brejo.
6. Resultado:
o BC torrou reservas cambiais do pais no mercado de dólar, para evitar que
subisse mais e para tentar baixar a cotação, pois as grandes empresas
exportadoras e alguns bancos estavam à beira da quebra. Com isso, o BC também
locupletava especuladores.
7. As grandes
empresas exportadoras e os bancos tiveram prejuízos de US$ 10 bilhões com os
derivativos cambiais. O valor total dos contratos de derivativos cambiais era de
US$ 38 bilhões, ou seja, “mais de 18% das reservas cambiais do país na época”.
Como foi
possível chegar a essa desordem e a esse caos? Limitamo-nos, por enquanto, a
transcrever alguns trechos da matéria de Luiz Nassif. Estamos inteiramente de
acordo em que o problema crucial foi a irresponsabilidade do Banco Central,
gestão Meirelles, na questão cambial:
“Desde
dezembro de 2007, aqui se alertava para a imprudência de permitir a valorização
imprudente do Real; desde meados do primeiro semestre de 2008 alertava-se para a
imprudência em dobro do BC estimular operações especulativas com o câmbio.
Tratava-se do “swap reverso”, uma operação em que em uma ponta ficava o BC e na
outra grandes empresas exportadoras ou financeiras. Cada vez que o real
valorizava, essas empresas perdiam dinheiro com exportações. Para
compensá-las, o BC instituiu o tal “swap reverso”, um jogo de cartas marcadas
que permitia às empresas lucrar no mercado financeiro com a valorização do real
– com o BC pagando a conta. Os prejuízos do BC com essa jogatina chegaram a
US$ 10 bilhões apenas em 2008. Em junho, alertei aqui que se houvesse
qualquer crise que invertesse a mão do câmbio, explodiria uma crise sistêmica no
mercado. Foi o que ocorreu. De repente, as maiores empresas brasileiras viram-se
encalacradas com essas jogadas. Como o BC não tinha controle sobre quem
jogara e quanto jogara, o mercado inteiro parou. Levou meses para que houvesse
uma estabilização no mercado. Por pouco, não se desemboca em uma crise bancária
cujo epicentro era a falta de informações sobre as empresas que tinham
aplicado no mercado de “derivativos” (altamente especulativos). Sem saber o
que ocorria, o crédito estancou. Grandes empresas, mesmo aquelas altamente
sólidas – como a Petrobras – da noite para o dia tiveram que recorrer a
operações emergenciais para manter a roda girando” (grifos nossos).
C.L.
|