Amorim:
“preocupantes são as bases dos EUA na Colômbia”
Para ministro,
governo americano não trata a região com franqueza: “o acordo contém
ambiguidades”
O ministro das Relações Exteriores, Celso
Amorim, afirmou que as bases dos EUA na Colômbia são um “fator de
preocupação” para os países da região, ao rechaçar o documento do Pentágono
para o Congresso sobre a localização de militares americanos na América do
Sul, que veio a público recentemente deixando claro que as pretensões
americanas na região vão muito além do declarado “combate a guerrilha e o
narcotráfico”.
“O acordo contém ambiguidades. Não fala apenas
de combate ao narcotráfico, fala também em ameaças comuns à paz e à
democracia”, observou Celso Amorim, referindo-se ao acordo militar
EUA-Colômbia. “O que são ameaças comuns à paz e à democracia? Quem define o
que é? Quem dirá quais são?”, questionou o chanceler.
O documento do Pentágono diz textualmente que as
base na Colômbia garantem aos Estados Unidos “acesso ao continente inteiro,
com exceção da região de Cabo de Hornos, se o combustível está disponível, e
a mais da metade do continente sem ter de reabastecer” e deixa escapar que
Washington avalia a possibilidade de intervir militarmente contra “governos
antiestadunidenses” da região.
Celso Amorim considerou que a reação do
presidente venezuelano Hugo Chávez, que denunciou a instalação das bases
como uma ameaça direta à Venezuela, é uma resposta objetiva à presença
militar estrangeira. “Se os venezuelanos pensarem dessa maneira, você não
pode dizer que eles têm mania de perseguição”, disse. Para o ministro, as
bases americanas são a ameaça e não as declarações do presidente Hugo Chávez
conclamando os venezuelanos a se defenderem de uma guerra. “O presidente
Chávez já voltou atrás, e uma coisa é falar em guerra, uma palavra que não
deveria nem ser pronunciada, e outra é a questão prática e objetiva das
bases na Colômbia”, disse o Amorim, em entrevista para a Folha de S. Paulo.
O ministro lembrou a semelhança entre o
documento apresentado por Chávez em uma reunião da Unasul com o do
Pentágono. “Os dois textos são muito próximos e, em algumas partes,
praticamente idênticos, só com uma redação um pouquinho diferente. Eles
falam inclusive em autonomia de vôo e no quanto isso é muito importante para
os EUA, para ter uma projeção de poder sobre a América do Sul. Sem dúvida, é
muito preocupante, sim”, ressaltou.
Para Amorim, falta “franqueza” na forma como
Washington tem conduzido as relações diplomáticas com a América do Sul. “Se
os EUA conversarem diretamente com a Venezuela, dariam uma percepção para o
governo e para a sociedade venezuelana de que os EUA podem ter suas
divergências, mas que não vão voltar a se envolver no futuro em nenhum
golpe, como em 2002”, observou, comentando que o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva chegou a propor uma reunião com o presidente Barack Obama. “Acho
que os EUA precisam ter mais franqueza com a região. Até por isso o
presidente Lula propôs a reunião com o presidente Obama. Ele não fez”.
Amorim avaliou que os problemas na fronteira
entre a Venezuela e a Colômbia, onde tem havido frequentes confrontos,
também ocorrem devido à subserviência de Uribe na questão das bases. “A
Venezuela pode até ter rivalidades com a Colômbia, mas ela não se sente
ameaçada pela Colômbia, ela se sente ameaçada é pelos Estados Unidos. Então,
no dia em que ela caminhar para um diálogo com os EUA, com uma certa
franqueza, grande parte do problema desaparece. No mínimo, diminui”,
assinalou.
“O presidente Obama talvez esteja muito
preocupado com o Iraque, o Afeganistão, os problemas internos, e talvez isso
venha impedindo que ele se concentre nesses temas. Pode ser que, quando ele
venha a se concentrar, ele descubra que as relações dos EUA com a América do
Sul tenham se deteriorado. Espero que isso não ocorra, mas que as bases são
fator de preocupação, isso são”, alertou.