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Rodoanel:
governo de SP permitiu vigas mais baratas contra o projeto
As vigas
racharam esmagando três veículos e deixando dois homens e uma mulher feridos
Na
sexta-feira, 13 de novembro, mais uma obra sob responsabilidade do governo de
São Paulo desabou - apesar de não serem muitas. Desta vez foram três das quatro
vigas de sustentação do viaduto do Rodoanel sobre a Rodovia Régis Bittencourt.
As vigas de 80 toneladas espatifaram-se sobre a estrada. O desabamento, na
altura da cidade de Embu, na Grande São Paulo, atingiu uma carreta e dois carros
que passavam pelo local, ferindo três pessoas, uma delas em estado grave.
A obra previa a
instalação de cinco vigas em cada lado do viaduto do Rodoanel. Entretanto, uma
das vigas apresentou uma rachadura no transporte até o local da obra. Sem levar
em conta que as outras quatro poderiam apresentar o mesmo defeito, o consórcio
decidiu prosseguir na instalação. Resultado: três vigas despencaram sobre a
Régis. E não tinha sido por falta de aviso. O Tribunal de Contas da União (TCU)
informou em setembro que o consórcio constituído pela OAS, Mendes Júnior e
Carioca Engenharia, com o objetivo de baratear os custos, havia trocado as
vigas, usando material pré-moldado, de menor qualidade, fora da especificação
original.
Irregularidades
A troca das vigas
foi uma das 79 irregularidades classificadas como “graves” em relatório emitido
pelo órgão. A decisão de instalar quatro vigas suspeitas, além de criminosa,
desconsiderou a norma de que a instalação só podia ser feita se fosse com todas
as vigas. O projeto inicial previa fundações de concreto, conhecidas como
tubulões, material mais caro que o usado hoje pelo consórcio, na sustentação dos
vãos livres. Essa previsão inicial, inclusive, era de sete vigas de sustentação
em cada vão e não cinco. Segundo técnicos, o normal é que todas as vigas de uma
mesma estrutura fossem instaladas na sequência, pois elas são “amarradas” umas
às outras. Além de reduzir para cinco, o consórcio decidiu instalar apenas
quatro pré-moldadas.
Para o presidente do
Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura de São Paulo (CREA-SP), José Tadeu
da Silva, a redução das vigas pode ser enquadrada como “negligência, imperícia
ou imprudência”.
Nenhuma fiscalização
dessas irregularidades foi realizada pelas autoridades do governo do estado. A
falta da amarração final, que fixaria as cinco vigas na estrutura, além da baixa
qualidade do material, pode, na opinião de técnicos, ter sido um dos fatores que
contribuíram para o desastre. Segundo o TCU, foi reduzida a quantidade de
material de construção usado na obra, mas os preços, repassados ao Estado, foram
mantidos.
Não se sabe
exatamente o motivo pelo qual o TCU não recomendou a paralisação da obra ou o
bloqueio dos repasses. O órgão é conhecido por paralisar obras do PAC até para
discutir o preço do sabonete usado em canteiros de obras. No caso do Rodoanel de
São Paulo, financiado parcialmente com dinheiro federal, mas administrado pelo
governo Serra, nada fez. No inicio do ano, o TCU informou que foram detectados
superfaturamentos que chegaram a R$ 184 milhões. As mudanças nas obras, segundo
o tribunal, resultaram numa “combinação altamente danosa às finanças” públicas.
Apesar de tudo isso, a obra prosseguiu até o desabamento.
Como conseqüência do
desabamento, Reginaldo Aparecido Pereira, de 40 anos, caminhoneiro, sofreu
traumatismo craniano grave e não tem previsão de alta. Uma mulher de nome Luana
Augusto, de 21 anos, que dirigia um Clio vermelho, totalmente destruído, foi
ferida. E o ferramenteiro Carlos Fernando Rangel, de 38 anos, fraturou o punho
esquerdo e permanece internado num hospital da região.
Apesar do governador
ter comemorado a falta de vítimas fatais no desmoronamento, uma pessoa morreu e
duas ficaram feridas no súbito engarrafamento que se seguiu ao desabamento, após
um Ford EcoSport preto bater violentamente contra a traseira de um caminhão
próximo do local onde as três vigas caíram sobre a Rodovia.
Desastres
Definitivamente, com
este desabamento, a administração José Serra adquiriu a sua marca. Logo no
início de seu governo a obra da linha 4-Amarela do metrô de São Paulo
desmoronou, abrindo uma cratera de 80 metros de diâmetro por 30 metros de
profundidade que engoliu quatro caminhões, dois carros e uma van. Sete pessoas
morreram soterradas e 79 famílias ficaram sem suas casas. Até hoje os culpados
não foram apontados. A OAS, integrante do consórcio do Rodoanel, participou
também das obras da linha 4, onde o contrato, conhecido como “porteira fechada”,
previa o repasse antecipado das verbas, sem qualquer fiscalização por parte do
governo.
A outra empresa do
consórcio, a Carioca Engenharia, também participou da ampliação do Expresso
Tiradentes (antigo Fura-Fila) até a Vila Prudente, onde, no ano passado, um
viaduto em construção tombou sobre a pista da Avenida do Estado. Agora veio a
queda das vigas do Rodoanel. O vice de José Serra, Alberto Goldman, afirmou que
o desastre do Rodoanel é “coisa comum”. No atual governo de São Paulo, é
verdade.
“Investigação”
“Acidentes em obras
são comuns. Acidentes sobre rodovias não são comuns”, afirmou o vice-governador.
Segundo ele, a queda da viga “não é um fato tão diferente”. “A diferença é que
essa viga foi colocada em cima de uma estrada em movimento”, prosseguiu. “Se ela
tivesse ocorrido em outras áreas do Rodoanel - e pode até ter ocorrido -,
ninguém saberia. Nem eu sei”, completou o sagaz vice-governador.
O secretário de
transportes de Serra, Mauro Arce, foi ainda mais fundo na análise que fez sobre
o desabamento. “Ainda não sabemos se as vigas caíram porque ruíram ou se ruíram
depois que caíram”, disse. Já o diretor do Dersa (Desenvolvimento Rodoviário SA),
órgão teoricamente responsável pela fiscalização, Paulo Vieira de Souza, afirmou
que acha que “houve erro de execução do projeto”, mas não tem certeza.
De posse das
evidências de uma atuação criminosa e do total descaso na fiscalização das
obras, Serra tentou mais um abafa, enviando as investigações para o IPT
(Instituto de Pesquisas Tecnológicas), cuja direção é toda ela nomeada por ele.
Coincidentemente, o IPT foi o órgão que fez de tudo para livrá-lo de qualquer
responsabilidade na cratera da linha 4 do Metrô.
SÉRGIO CRUZ |