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Aristóteles
Moura e seu livro: Capitais Estrangeiros no Brasil
Há, no Brasil, um dano que ainda não foi
reparado. Durante todo o período da Constituição de 1946 – isto é, o período
encerrado com o golpe de Estado de 1964 – desenvolveu-se entre nós todo um
pensamento, toda uma série de pesquisas, toda uma série de livros, ensaios,
artigos, absolutamente fundamentais para que os brasileiros conheçam o seu
próprio país, em especial os problemas que temos de superar. A ditadura,
apesar de um ou outro período de mais proximidade com os interesses do país,
era essencialmente um regime anti-nacional (caso contrário, seria impossível
explicar o próprio golpe de Estado). Portanto, todo esse pensamento foi,
durante duas décadas, colocado, pode-se assim dizer, na clandestinidade.
Houve época em que até possuir livros dessa vertente anterior ao golpe era
um problema.
Apesar da queda da ditadura ter ocorrido em 1985,
e da Constituição de 1988 ter sido elaborada sob a égide desse pensamento,
antes perseguido, muitas obras do período 1946-1964 não foram ainda
recuperadas – a maré neoliberal, que cercou e sucedeu a devastação da URSS e
do Leste Europeu, manteve-as desconhecidas da maioria dos brasileiros que
não viveram o período anterior ao golpe de Estado. Há algumas semanas,
publicamos texto do escritor Mário Drumond onde ele menciona a biografia de
Santos Dumont escrita por Gondim da Fonseca. No entanto, a última publicação
dessa biografia, até hoje a melhor do Pai da Aviação, foi na década de 50 ou
60 do século XX, assim como seus livros sobre Machado, sobre Camilo ou sobre
o petróleo no Brasil.
Para ocupar o vácuo deixado pelo banimento dessa
vigorosa tradição, promoveu-se uma raquítica literatura pseudo-sociológica e
pseudo-histórica, com tortuosas pretensões “de esquerda”. O exemplo mais
ilustrativo, porque mais evidente e mais estúpido, foram os escritos de um
intelectual de salão, Fernando Henrique Cardoso, que rapidamente abandonou a
tintura de esquerda.
Entretanto, no início dos anos 90, o general e
historiador Nelson Werneck Sodré fez chegar à redação da HORA DO POVO os
originais manuscritos (que até hoje conservamos) de “A Farsa do
Neoliberalismo”, logo publicado por nós em caderno especial. Ali estava
aberto um ciclo de recuperação do pensamento nacional, até agora não
encerrado, mostrando a sua atualidade ao enfrentar-se com as questões
contemporâneas. Nelson Werneck Sodré, um dos maiores historiadores deste
país, vivera intensamente o período por nós mencionado. Com Álvaro Vieira
Pinto e outros pensadores, constituiu a ala de vanguarda do Instituto
Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), até sua depredação e fechamento, em
1964. Foi para nós uma honra publicá-lo – e, mais ainda, receber seu
agradecimento de próprio punho, desnecessário mas nem por isso menos
estimulante.
Hoje publicamos um pequeno trecho de um dos
livros mais importantes já escritos no país, “Capitais Estrangeiros no
Brasil”, de Aristóteles Moura – remetido a nós, mais uma vez, por este
inestimável (pois há coisas na vida que não podem ser estimadas) amigo que é
o vereador Werner Rempel, de Santa Maria, vice-presidente do Partido Pátria
Livre no RS e membro de sua direção nacional.
O leitor mais jovem perguntará: quem foi
Aristóteles Moura? Alguns talvez se lembrem das menções feitas a ele por
Graciliano Ramos, em “Memórias do Cárcere”. Por exemplo, no primeiro volume:
“Certa manhã, à porta de uma célula vizinha ao banheiro, um moço lento, a
revelar perfeita arrumação interna, me convidou a ensinar-lhe português.
Assim conheci Aristóteles Moura, bancário, embrulhado em reivindicações de
sindicato. Vacilei: as minhas lições não lhe deveriam servir para grande
coisa. Mas evitei descontentá-lo. Pois não, algumas informações, em
conversa; nada de encrencas pedagógicas. Falamos dez minutos – e desisti:
Moura sabia gramática melhor que eu”.
Ou, no segundo volume:
“Admirava-me a serenidade, a frieza de
Aristóteles Moura, conhecido meses antes no Pavilhão dos Primários. Nunca
lhe notei uma queixa, um gesto áspero. Nenhuma ferida nos melindres de
pequeno-burguês aviltado na piolheira social. Não se aproximava nem se
afastava dos vagabundos; mantinha-se mais ou menos distante, nada o
contagiava. Subia pelos pés de uma das camas unidas que formavam longo
estrado junto à parede, recolhia-se, tomava um livro. Se alguém lhe falava,
interrompia a leitura, respondia calmo, paciente, em poucas palavras, a voz
monótona, e findava: - ‘É só.’ Depois abria o livro”.
Aristóteles Moura, em 1956, publicou um detalhado
levantamento sobre o capital norte-americano no país: “O Dólar no Brasil.
Empresas Americanas no País”. Porém, não se contentou com essa obra, que já
seria quase definitiva.
Em 1959, publica “Capitais Estrangeiros no
Brasil”, que teve uma segunda edição em 1960 - obra incluída por Nelson
Werneck Sodré, a partir dos anos 60, em “O que se Deve Ler para Conhecer o
Brasil”. Neste livro, a preocupação de Moura é com as formas de espoliação
do país pelo capital estrangeiro. É impressionante como conseguiu coletar –
numa época em que a Internet não existia nem em sonho – uma quantidade
imensa de dados e, mais impressionante ainda, como os organizou de uma forma
inteligível para qualquer leitor normal (isto é, com exceção dos
entreguistas, todos). Observemos que as quantias em dólares mencionadas no
texto e nas tabelas correspondem a quantias muito maiores hoje em dia, se as
atualizarmos pelo poder de compra do dólar nos EUA, e, maiores ainda, se as
traduzíssemos como parcela do PIB brasileiro de cada ano.
O livro, até onde sabemos, não é republicado há
50 anos. No entanto, o leitor poderá ter, através dele, um retrato vívido
das formas de espoliação atuais sobre o Brasil e o nosso povo. De lá para cá
essas formas apenas se exacerbaram – e talvez o fato do autor abordá-las
quase em seus começos torne os problemas econômicos e políticos mais claros
para nós, que já vivemos, como diria Brecht, na crista da onda em que outros
se afogaram.
Além disso há algo sobre Aristóteles Moura que a
observação de Graciliano deixa entrever, mas está plenamente presente em
“Capitais Estrangeiros no Brasil”: trata-se de um grande escritor, um homem
de estilo, preocupado com a clareza acima de tudo. Seu texto, sobre um
assunto complexo, não é jamais maçante, nem excessivo nem pobre.
Porém, já falamos demais sobre aquilo que o
leitor poderá constatar por si mesmo, neste pequeno extrato da obra de
Aristóteles Moura. Como o livro não é publicado há meio século, recomendamos
a quem queira adquiri-lo uma consulta aos nossos melhores sebos – aliás,
hoje em dia, as melhores livrarias são os sebos...
C.L.
ARISTÓTELES MOURA
Um dos fatos mais marcantes, observado a propósito dos capitais
estrangeiros no Brasil, foi a constatação pública, há poucos anos, de que,
em certos períodos, as entradas são menores que as saídas. Embora as
publicações especializadas estrangeiras e nacionais se refiram
frequentemente às flutuações do mercado internacional de capitais, essa
constatação causou alarme e decepção em alguns meios brasileiros. Um
jornalista, em artigo sobre “Capitais estrangeiros”, salientou que
“levantada a nossa primeira balança de pagamentos, foi como se cortássemos
um véu denso: a realidade estava ali”.1
Além de outras entidades oficiais, o Banco do Brasil, em relatório de
1953, ao tratar do movimento de capitais e remessa de rendas, se mostra
surpreendido com o “vultoso déficit” do período de 1941/1952.
Os
investidores americanos mostraram-se consternados com os comentários então
surgidos. O presidente da American Foreign Power Co., subsidiária da
Electric Bond and Share, Sr. H. W. Balgooyen, protestou. A seu ver não há
motivo para considerar inconveniente ou irregular o superávit a favor
dos países investidores. Impugnou considerações feitas sobre o assunto,
pelos técnicos da ONU, em seus livros “Foreign Capital in Latin America” e
“Cooperação Internacional da Política de Desenvolvimento Econômico
Latino-Americano”. Indaga, contrariado, o dirigente da Bond and Share:
“Se os investimentos são feitos
visando a lucros, e se os lucros, para serem úteis aos acionistas, devem
eventualmente poder converter-se em moeda que os investidores possam
utilizar, por que se deveria esperar que uma empresa privada americana
viesse a investir no estrangeiro durante determinado período mais do que
dali poderia retirar? Por que se esperar que isto não aconteça com o total
dos investimentos das empresas privadas?”2
Assim
pensa sobre o movimento de capitais o diretor principal da American Foreign
Power, subsidiária da Bond and Share para assuntos externos. E, note-se, as
subsidiárias da Bond and Share que funcionam no Brasil formam o maior grupo
americano em nosso país. Esse grupo opera em vários estados; é detentor de
concessões para construção de usinas de cerca de 1.100.000 Kw de capacidade
no Rio Grande (fronteira Minas-São Paulo), e está construindo a primeira
dessas usinas – a de Peixotos, de 400.000 Kw – inclusive com empréstimos de
um banco oficial brasileiro, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico.
Uma parte do potencial dessa usina já se acha em utilização. O grupo é o
segundo produtor de energia elétrica no país, está distribuindo energia da
usina estatal de Paulo Afonso e gozando de favores. O diretor da American
Foreign Power parece estar pensando como o velho Rockefeller quando disse:
“Deus me deu o meu dinheiro”.3
Mas, deixando de lado os protestos do Sr. Balgooyen, voltemos ao
alarme causado em nosso país. É evidente que, para não haver déficits
no movimento global de capitais e rendas, é preciso que a entrada seja
superior ao retorno mais a remessa de rendimentos. Basta que a entrada
decline ou não se realize para que os déficits possam sobrevir. E é
isto o que tem acontecido frequentemente, em várias épocas e em vários
países.
Por
outro lado, certas dúvidas, sobre o assunto, resultam de que frequentemente
não se leva em conta que os capitais estrangeiros existentes, isto é,
os que existem no país, de propriedade de empresas e cidadãos residentes no
exterior, em grande parte, não são constituídos por entradas de recursos e
sim pelo reinvestimento de lucros. Foi certamente por não se levar em conta
esse fato que os estudos feitos pelo governo em 1951 vieram a causar
espanto.
Em
discurso de 31/12/1951, o presidente da República apresentou dados
espetaculares sobre a transferência e o reinvestimento de lucros. Em sua
mensagem, de março de 1954, ao Congresso, encontram-se as seguintes cifras
de saída líquida de recursos: (Ver tabela 1)
Não se calculava, até então, o
balanço de pagamentos do país. O cálculo, feito posteriormente, teve como
ano inicial o de 1947. Em relatório de 1956, a SUMOC paulista publica os
“dados revistos” do “movimento geral de capitais estrangeiros a longo prazo
e serviços correlatos”. Aqui estão as cifras, em dólares, do “resultado”
desse movimento, isto é, os líquidos de entrada e saída de capitais e
transferências de rendas: (ver tabela 2)
Como se vê pelos dois quadros,
do ano de 1939 até o de 1952 – em 14 anos – só em um ano, no de 1947, o
resultado foi positivo. A SUMOC, em seu quadro, não o esclarece, mas pode-se
admitir que os resultados volumosos dos anos de 1953 e 1954 decorrem
sobretudo de transações feitas para cobertura dos atrasados comerciais, as
quais não correspondem à entrada de capital para aplicação em
empreendimentos.
Os déficits no movimento
de capitais e transferências ao exterior não têm sido peculiares ao nosso
país. Na América Latina, segundo a ONU, as remessas de lucros e juros
“alcançaram a cifra de 5.773 milhões de dólares, entre 1945 e 1952, enquanto
a entrada de capitais foi de 3.992 milhões”, ocorrendo assim uma saída
líquida de 1.781 milhões de dólares, sem considerar as amortizações e as
repatriações que atingiram 2.598 milhões.4
(Ver tabela 3)
Houve fases em que o movimento
de capitais estrangeiros na América Latina se caracterizou por espetacular
drenagem de recursos para o exterior. Segundo os técnicos da ONU, “durante a
segunda metade da década de 1920, a renda anual de investimentos paga ao
exterior pela América Latina foi cerca de três vezes maior que a entrada de
capital”.5
No capítulo das transferências
o assunto é tratado sob aspectos relacionados com a “drenagem”.
BRASIL - ESTADOS UNIDOS
Os
dados sobre o movimento de capitais entre o Brasil e os Estados Unidos são
deficientes e não permitem afirmações precisas quanto ao seu volume. Como já
foi salientado, só a partir de 1947 se vem calculando sistematicamente o
balanço geral de pagamentos do Brasil. Quanto ao balanço bilateral de
pagamentos entre o Brasil e aquele país, a deficiência é maior: os quadros
encontrados são os dos anos de 1954 e 1955. A tabela 4, extraída de dados do
Departamento de Comércio dos Estados Unidos, contém apenas as entradas para
investimentos diretos, não compreendendo, portanto, todos os empréstimos.
Em nosso país, ainda segundo a
Organização das Nações Unidas, admite-se que a entrada de capital
estrangeiro em geral, entre 1920 e 1931, tenha sido de cerca de 65 a 75
milhões de dólares, por ano. Quanto ao procedente dos Estados Unidos, diz a
ONU que a entrada para investimentos diretos, excluídos assim os empréstimos
oficiais e outros, variou de 23 milhões de dólares em 1946 a 96 milhões em
1951, esta quantia presumivelmente compreendendo lucros não transferidos.6 Segundo
o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, nesses dois anos a entrada de
capitais norte-americanos no Brasil, sob a forma de investimentos diretos,
foi, respectivamente, de 30 e 92 milhões de dólares.
Tomando-se os números de 1946 e
1956 daquele Departamento, a média anual, nesse período, de entrada de
capital dos Estados Unidos no Brasil, sob a forma de investimentos diretos,
atinge 42,7 milhões de dólares. Os dados dos empréstimos particulares são
pouco conhecidos. O total registrado pela SUMOC, até 31/12/1956, certamente
de empréstimos contraídos nos últimos anos, é de 335,1 milhões de dólares.
Todavia, o total de empréstimos concedidos pelo Eximbank, de 1940 a 1956,
atinge 904 milhões de dólares. Desse total, em dezembro de 1956, já tinham
sido sacados 618,7 milhões de dólares. Essa quantia, distribuída entre 1940
e 1956, dá para esse período uma entrada média anual de 36,4 milhões de
dólares.
De poucos anos para cá, tem-se
observado ponderável surto na instalação e ampliação de empresas, esse
surto, entre outros motivos, é devido às facilidades concedidas pela
Instrução 113, da SUMOC, pelo regime criado para as fábricas de veículos a
motor, e pelas dificuldades cambiais de importação. No setor dos
empréstimos, a elevação do volume, resultante dos créditos do Eximbank,
decorre, em boa parte, da política externa dos Estados Unidos destinada a
manter o governo brasileiro em sua órbita.
O surto de empréstimos
contraídos pelo governo brasileiro, de fato, é caracterizado pelo montante
do ano de 1956. Nesse ano encontram-se as principais operações realizadas
pelo governo que deram motivo à Declaração Conjunta brasileiro-americana de
que falaremos mais adiante.
Dos 46,1 milhões concedidos em
1940, 45 milhões se destinaram à Usina de Volta Redonda. Do montante de
1945, 38 milhões se destinaram ao Lóide Brasileiro. Do total de 1952, 55
milhões foram concedidos à subsidiária da Bethlehem Steel para a exploração
do manganês do Amapá e 41,1 milhões foram concedidos à subsidiárias da
Electric Bond and Share. Em 1953, destaca-se o crédito de 300 milhões para
liquidação de atrasados comerciais americanos. Entre os concedidos em
1955, estão 75 milhões contraídos pelo Banco do Brasil para utilização em
casos de queda imprevista da receita cambial.
Notas:
1 - Conselho Técnico de
Economia e Finanças do Ministério da Fazenda – “Revista de Finanças
Públicas”, Rio de Janeiro, abril de 1950, pág.14.
2 - Balgooyen,
H.W. e outros - “Latin America: Development Progra- mming and United States
Investments”, pág.59, University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 1956.
3 - Allen, Frederick Lewis – “A
Grande Transformação”, pág. 52, Livraria Clássica, Rio de Janeiro.
4 - ONU - “Estúdio Económico de
America Latina, 1951/52”, pág. 13, México, 1954.
5 - ONU -
“Foreign Capital in Latin America, 1955”, pág. 15, New York, 1955.
6 - ONU -
“Foreign Capital in Latin America, 1955”, págs.
55/56, N. York, 1955. |