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Mantega e a deletéria estatística
americana
Um dos
livros mais engraçados da literatura norte-americana é “How To Lie With
Statistics” (“Como Mentir Com Estatísticas”), de Darrel Huff. Na época em
que surgiu (1954), essa obra-prima cômica só poderia ser escrita por um
norte-americano, já que nunca houve um país onde se mentisse tanto com
estatísticas quanto os EUA do pós-guerra – e até hoje.
Por
exemplo, as autoridades “econômicas” norte-americanas têm um jeito muito
peculiar de apresentar as estatísticas de crescimento. Pegam o resultado de
um trimestre em relação ao anterior e o “anualizam” - isto é, multiplicam
por quatro. Se tudo continuasse exatamente do mesmo jeito, ao fim de 12
meses o resultado seria o que eles apresentaram. Como nem a natureza é assim
– quanto mais a economia - isso é somente uma fraude com a serventia de
esconder pífios resultados. No último trimestre o PIB norte-americano
cresceu 0,87% em relação ao trimestre anterior. No entanto, o governo, os
jornais, e alguns puxa-sacos pelo mundo, anunciaram que o crescimento dos
EUA havia sido de 3,5%...
Essa moda
jamais pegou no Brasil. Por alguma razão, nem a ditadura foi capaz de aderir
a esse método. Por isso, qual não foi a nossa surpresa ao ver o ministro
Guido Mantega afirmar, há alguns dias, que a economia está crescendo a 10% -
para quem é distraído, um crescimento maior que o da China.
O que quer
dizer isso? Embora o ministro não tenha esclarecido, desconfiamos nós que
ele está prevendo um crescimento no terceiro trimestre, em relação ao
segundo, de algo em torno de 2,5%, o que, anualizado ao modo
norte-americano, daria 10%. Em suma, uma deletéria influência estatística
ianque parece ter acometido o ministro.
Não há país do mundo com melhores condições para crescer do que o Brasil.
Nem a China tem o nosso “potencial de competitividade” (para usar outra
expressão do ministro). Aliás, não seria a primeira vez: de 1930 até 1980,
fomos o país de economia não-socialista que mais cresceu em todo o mundo.
Para isso,
certamente, não foi necessário mudar nossos critérios estatísticos. E, se
fosse, isso nada teria a ver com o crescimento que obtivemos. O que fizemos
foi basear a economia no mercado interno, usar os recursos do Estado para
financiar nossas empresas, protegermo-nos das invasões predatórias de
mercadorias importadas, gerenciar o câmbio de acordo com os interesses do
país e construir empresas públicas onde elas eram necessárias – e continuam
a ser: como lembrou um engenheiro de telecomunicações outro dia, há dúvida
de que a Petrobrás é muito melhor administrada do que a Telefónica?
No
momento, por exemplo, o ministro declarou-se um apóstolo do câmbio
“flutuante”, no momento em que os EUA movem uma guerra cambial contra os
outros países. Ao contrário do que disse o seu antecessor no cargo, o
problema do câmbio “flutuante” não é a sua faculdade de flutuar. Pelo
contrário, o problema do câmbio “flutuante” é que ele não flutua.
Apenas segue as manipulações especulativas. Mais exatamente: ”flutuante”
quer dizer que, em vez do câmbio ser administrado pelo Estado em prol dos
interesses do país, ele está sendo administrado pelos bancos e demais
monopólios financeiros externos, em prol dos seus interesses. Só isto e nada
mais.
A
macaqueação – seja das formas exóticas de confeccionar estatísticas, seja
das formas de tratar o câmbio, ou seja lá do que for - não é uma boa
assessora para ninguém. Muito menos para o nosso bravo ministro da Fazenda.
C.L.
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