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O BNDES e as teles
Desde a
privatização, como noticiamos em nossa edição anterior, o BNDES já desembolsou
R$ 29,4 bilhões para as teles. As companhias privatizadas (não somente as teles)
vivem penduradas no BNDES – onde, quando estatais, eram proibidas de tomar
empréstimos.
No caso das
teles, a situação é mais escandalosa: em 2008, as teles estrangeiras remeteram
lucros de US$ 881 milhões para as matrizes (sem contar as remessas de lucro
disfarçadas), um aumento de 91% em relação a 2007 – o maior aumento de remessas
dentre todas as multinacionais que operam no país.
As teles, em
2008, faturaram R$ 178,1 bilhões, segundo a própria associação que as reúne, a
Telebrasil. Só a Telefónica, de 1999 a 2008, extraiu US$ 18 bilhões e 449
milhões em lucro líquido – na antiga Telesp, sem contar a Vivo e a TIM,
que ela também controla (cf. Info Exame, agosto 2009).
Como observa o
site Teletime, o BNDES gasta 3 a 4% dos seus recursos anuais com as teles. O
pior é a justificativa: “o banco argumenta que o setor é o segundo maior
empregador e o maior gerador de primeiro emprego do País (graças ao setor de
call center)”. Será que o sr. Luciano Coutinho já tentou usar um call center
de uma das teles que o BNDES sustenta? Será que teve a curiosidade de saber os
salários e a jornada de trabalho dos (poucos, em relação ao que têm de fazer)
funcionários desses call centers?
Mas o
principal não é isso. Como nota o engenheiro Virgílio Freire, ex-diretor da
Embratel, da Telebrás e da Telesp, ex-diretor da Nortel e ex-presidente da
Lucent e da Vésper:
“Quando o
‘Príncipe dos Sociólogos’, FHC, privatizou a Telebrás, a preço de banana, o
grande argumento foi de que a Telebrás não tinha dinheiro para investir, e que
os ‘ricos investidores’ privados iriam investir bilhões do próprio bolso, e
colocar as Telecomunicações brasileiras no Primeiro Mundo. Era tudo mentira.
(….) os grupos privados que assumiram a Telebrás investem apenas com dinheiro do
próprio governo, não colocam um só tostão do próprio bolso. Usam nosso dinheiro
para nos tratar mal e nos prestar serviços bem piores do que a antiga Telebrás.
É bom lembrar que esta última tinha bilhões de dólares para investir, e não o
fazia porque o Governo Federal proibia, a fim de criar um clima favorável à
venda da empresa”.
Isso quando
elas investem alguma coisa – até agora não se conseguiu saber em que a
Telefónica gastou os R$ 2 bilhões que o BNDES lhe concedeu em dezembro de 2007.
Provavelmente, mandou-os para seus cofres na Espanha (ou, talvez, nos EUA).
Se isso é verdade em relação às teles estrangeiras, a situação da BrOi, nas mãos
dos grupos Jereissati e Andrade Gutierrez, é crítica. Trata-se de uma vítima da
política de criar “multinacionais brasileiras” do sr. Luciano Coutinho.
Em pouco
tempo, a história de que o país ia ter um “player global” (haja linguagem!),
pela fusão da BrT e Oi, para extrair lucros do exterior que compensassem os
lucros que as teles estrangeiras tiram daqui, viu-se reduzida a uma empresa
falida. Nas palavras de Paulo Henrique Amorim:
“O BNDES já
tinha enfiado R$ 11 bilhões na BrOi. Agora, enfia (ou joga fora?) mais R$ 4 bi.
Para remunerar os sócios (como o BNDES) e pagar a divida, a BrOi terá que ficar
cinco anos sem investir.(....) Se ficar cinco anos sem investir, a BrOi vai ser
comida, não pelas bordas, mas pelo meio, pelo mexicano Carlos Slim, da Embratel,
e pelos franceses da Vivendi, que acabam de comprar a GVT. A BrOi não tem grana
para competir no Paraguai. Os fundos de pensão dos funcionários do Banco do
Brasil (Previ), da Petrobrás (Petros) e da Caixa Econômica (Funcef), somados ao
BNDES, têm uma participação de quase 50% na BrOi. Ou seja, botam a grana e não
mandam”.
Ao contrário
da Telefónica e da Embratel/Telmex/ATT&T, a BrOi não pode importar sucata da
matriz, ou de empresas do mesmo grupo, e lançar na conta dos usuários. Nem é tão
experiente no ramo da tele-vigarice. Além disso, com algumas exceções, não ficou
com o filé da privatização. No início de outubro, a dívida da BrOi já era de R$
28,55 bilhões (dívida líquida: R$ 21,43 bilhões) para uma receita líquida anual
de R$ 7,5 bilhões.
Outra vez o
engenheiro Virgílio Freire:
“… a dívida
da BrOi é impagável - e o BNDES não vê isto. Olhando os números da dívida da
BrOi, fica evidente que mais cedo ou mais tarde a bolha vai explodir - é como
bicicleta, não pode parar de pedalar, de tomar um empréstimo para pagar os
outros, e assim por diante. Na hora em que o governo resolver cobrar a dívida,
irá assumir a empresa, e desta forma reestatizá-la. O que será a melhor solução
para o consumidor e para o país. Transformar a BrOi em uma “Petrobrás” ou um
“Banco do Brasil” (….) que tome decisões tendo em vista o benefício do público
brasileiro, e não se limite a obedecer ordens dos grupos que dominam a empresa -
Andrade Gutierrez e Jereissati”.
Esse é
exatamente o problema: nas telecomunicações, ou o Estado toma conta, inclusive
para garantir as empresas nacionais privadas do setor, ou o monopólio
estrangeiro o faz.
C.L.
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