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Israel: qual a
arquitetura do muro?
GILSON CARONI FILHO *
Em encontro com o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, o presidente
Lula foi econômico nas palavras e preciso na análise. Quanto mais tempo o
governo de Israel persistir com as violações da lei humanitária
internacional, mais distante fica a possibilidade de uma solução negociada
para o conflito no Oriente Médio. Enquanto não for destruído o muro erguido
na Cisjordânia para anexar ilegalmente terras, e não forem garantidos aos
palestinos os direitos de propriedade, de ir e vir, e de buscar saúde,
educação e emprego, qualquer enunciado sobre a paz será apenas uma ironia
semântica. Um discurso que admite a realidade do que é virtual, mas que não
pode ser colocado no plano lógico daquilo que já tenha adquirido existência
concreta.
É necessário, mais uma vez, reconhecer que, respaldado pelo imperialismo
norte-americano na região, a construção incessante de assentamentos em
território ocupado obedece a uma lógica clara. O governo israelense joga
todo o seu peso em uma solução definitiva para o “problema palestino”: uma
solução que vem contemplando o massacre e o apartheid.
Como declarou, há cinco anos, a jornalista judia Amira Hass, "Israel se
considera forte o bastante, até para desrespeitar decisões internacionais,
porque tem um poderoso apoio dos americanos que, na prática, não demonstram
o mínimo interesse quanto ao destino de um povo que vive isolado atrás de
barricadas."
Apesar de ter participado de todas as negociações de paz nos últimos 30
anos, envolvendo-se em articulações secretas que levaram a acordos como o de
Oslo, sabotado pela extrema-direita de Israel, o presidente Shimon Peres,
tem um ponto em comum com as forças mais reacionárias de seu país: a não
aceitação de qualquer saída que preserve um mínimo de organização do
movimento palestino, que mantenha intactas as possibilidades de unificação
com o vigoroso movimento anti-imperialista que ainda existe nas vielas de
Gaza e da Cisjordânia. Peres sabe que desestruturação organizativa das
forças de resistência resulta em tratativas diplomáticas destinadas a ganhar
tempo. Uma manobra que se repete sem apresentar qualquer sinal de
inteligência.
SIONISTAS
Apesar da mudança de tom de Obama, o governo estadunidense adota a abordagem
preconizada por Israel. Trabalha com a possibilidade de uma reforma política
que assegure a proteção das colônias e dos interesses sionistas na Palestina
Ocupada. Para tanto, exclui atores legítimos como o Hamas, e as bases
sociais que representa, estabelecendo, por conseqüência, um simulacro de
negociação diplomática.
Em “A Paz ou Apartheid”, o escritor Marwan Bihara, assinala que "a melhora
desesperadamente necessária das condições de vida dos palestinos se tornou
impossível com o plano de bantustões de Sharon. Enquanto, continuarem
taxando de terroristas todos os partidos políticos palestinos, a formação de
um processo político democrático continuará sendo uma farsa. A maioria das
lideranças foram assassinados ou presos. Muitos estão foragidos,
escondendo-se para a sua própria segurança."
Lula foi preciso. ”Se continuar construindo na capital palestina, Israel
está complicando a paz, quer que nos distanciemos da paz. Pedimos não apenas
a retirada das 900 casas, mas de todas as atividades de construção nos
territórios ocupados. Essas palavras não são nossas. Foram ditas pelo
presidente Obama."
A única ressalva a ser feita na fala presidencial solicita um acréscimo. É
preciso ir bem além das “palavras de Obama". É fundamental reafirmar nosso
discurso. O que deve ser dito é que a coalizão de colonos, fundamentalistas
e generais reacionários que domina o plano político israelense não tem o
menor interesse em implementar acordos que possam prejudicar a expansão de
assentamentos ilegais. Enquanto a comunidade internacional, liderada pelos
Estados Unidos, não fizer a inflexão necessária, a muralha, que tem 80% de
extensão em território cisjordaniano, continuará edificada como uma solução
final da barbárie. A arquitetura perfeita da destruição.
* É professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha),
no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do HP |