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EUA pretende que a China não se defenda na
guerra cambial
Paul Krugman, em
catilinária sobre o “perigo chinês”, deixa passar o que de fato o preocupa: “o
desejo de participação de muitos investidores nessa economia de rápido
crescimento”. Os monopólios ianques agradecem a desinteressada lembrança
Não é a
primeira vez que o economista oficial do “New York Time”, e seu paparicado
Prêmio Nobel, Paul Krugman, baba na gravata a respeito da China, mas sua última
manifestação, após a visita de Barack Obama a Pequim, foi particularmente
raivosa. Seriam a China e sua moeda, o yuan - e não a lambança dos monopólios
dos EUA, o colapso de Wall Street, e a enxurrada de dólares furados que se
seguiu do Federal Reserve -, que estariam colocando “sob ameaça” a recuperação
da mais grave depressão desde o século passado.
As
conclamações de Krugman contra o yuan levaram o colunista John Walsh a registrar
que “alguém poderia quase pensar que foi a China que nos levou à atual crise
econômica global, ao invés de ser quem está liderando o caminho de saída”. O que
está acontecendo, graças à política da China de concentrar suas forças no
mercado interno para compensar a fraqueza nas exportações, realização de um
extenso plano de desenvolvimento da infra-estrutura e melhorias sociais de US$
580 bilhões, crédito amplo através dos bancos estatais, e defesa do yuan, com
paridade fixa.
Reclama
Krugman que a China manteve essa paridade, apesar de o dólar ter despencado em
relação à maioria das moedas. Enquanto faz ameaças e exigências à China no
artigo “o jogo perigoso dos chineses”, o guru do NYT oculta que exista uma
guerra cambial desencadeada pelo Federal Reserve, inundando o mundo com dólares
sem lastro, que foram entregues a juro zero aos grandes bancos dos EUA e fundos
especulativos, praticamente falidos, mas que agora se lançam, por toda parte,
para trocar papel pintado de verde por riqueza em cada país e, nesse processo,
forçando a valorização artificial das moedas locais.
Mas, para
Krugman, quem precisa ser detida é a China, pois “quase todas as principais
moedas do mundo ‘flutuam comparativamente entre si, ou seja, seu valor relativo
sobe ou baixa segundo as forças de mercado” e só ela é uma “grande exceção”. (As
“forças de mercado”: Goldman, Rockeffeler, Morgan, Soros...). O débil yuan daria
aos seus exportadores “uma crescente vantagem competitiva”, especialmente sobre
os de outros países em desenvolvimento”, acrescentou, “drenando uma demanda
muito necessária” do resto do mundo para “os bolsos dos exportadores chineses”.
Ou seja, são
os chineses os responsáveis pela drenagem de riquezas dos países em
desenvolvimento, porque sua moeda “não flutua”, isto é, não está submetida à
manipulação especulativa. É comovente tanta preocupação com as nossas riquezas
por parte de Krugman. Ele vai além: são os chineses os responsáveis “pelo
sofrimento dos trabalhadores norte-americanos desempregados” e pelo “crescente
déficit comercial dos Estados Unidos e superávit comercial da China”. “Se eu
fosse o governo chinês estaria realmente preocupado com essa perspectiva”,
encena.
Krugman não
acha que tenha de se preocupar com o sofrimento dos trabalhadores chineses. Mas
o governo chinês tem que se preocupar com o sofrimento dos trabalhadores
norte-americanos – e não com seus trabalhadores. Não é só um problema de lógica.
Antes, é cinismo e empulhação, pois Krugman está preocupado é com as grandes
corporações e bancos norte-americanos, e não com os trabalhadores
norte-americanos. No meio de mais uma catilinária sobre o “yuan débil”, ele
deixa passar o que realmente o preocupa: “o desejo de participação de muitos
investidores nessa economia de rápido crescimento”.
Não há uma
palavra sobre porque, no comércio com a China, é sempre do lado chinês que está
o superávit e sempre do lado americano que está o déficit. Pelo contrário, o
problema dos chineses é que eles deveriam aceitar a política monetária
especulativa americana sem se defender, capitulando como o Pétain na II Guerra -
ou pior. Assim, entre outras coisas, os EUA reduziriam o déficit, podendo até
conseguir superávit, sem mexer em nada na sua decadente economia, cada vez menos
produtiva em relação às economias de outros países, sustentada por uma invasão
de papéis (dólares e títulos). Em suma, o resto do mundo tem que engolir essa
droga.
No entanto, os
chineses resolveram se defender... Por isso a política monetária chinesa é “um
perigo” - porque ela é uma defesa contra a política monetária de pilhagem dos
EUA; porque ela não deixa os monopólios dos EUA saquearem a China como eles
querem (e, no momento, gostariam mais do que nunca). E talvez seja esse o
principal problema deles, porque essa política chinesa não deixa os monopólios
norte-americanos sozinhos para saquear o resto do mundo. Ao ocupar um espaço na
economia internacional, a China, com essa política, impede que a pilhagem
norte-americana sobre nós seja maior.
ANTONIO PIMENTA
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