CCJ
deixa aviação nacional à mercê das multinacionais
Senadores
ampliaram de 20% para 49% a presença estrangeira nas empresas aéreas
A
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou na quarta-feira a
ampliação de 20% para 49% a presença estrangeira nas empresas aéreas do
país.
O projeto de lei, de autoria do ex-senador Paulo
Otávio (DEM-DF), apresentado em 2004, e relatado pelo senador Francisco
Dornelles (PP-RJ), está tramitando em regime terminativo (não precisa ser
votado em plenário a não ser que haja recurso para tal) e altera o
artigo 181 da lei 7.565/86, do Código Brasileiro de Aeronáutica, que
estabelece o limite de participação estrangeira nas empresas. Em julho deste
ano, a proposta foi aprovada pelo Conselho de Aviação Civil (Conac), depois
do desempenho advocatício do ministro da Defesa, Nelson Jobim, argumentando
que o aumento do capital estrangeiro daria “mais musculatura às empresas
aéreas nacionais”.
Dornelles rejeitou em seu relatório o projeto de
lei nº 258/06, do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que acabava com qualquer
limite ao capital estrangeiro e permitia que empresas aéreas externas
fizessem voos domésticos. Por isso, o senador exaltou seu parecer,
permitindo a ampliação para 49%, como uma “proteção” às empresas nacionais
contra a política de “céu aberto” do projeto de Raupp. Por essa lógica, o
senador poderia defender, também, que metade de cada casa do Rio de Janeiro,
sua base eleitoral, seja ocupada por traficantes, para que eles não ocupem
as casas inteiras.
Como disse o presidente do Sindicato Nacional
das Empresas Aeroviárias (SNEA), José Márcio Mollo, o limite de 49% “não é
suficiente para assegurar o controle nacional” - sobretudo depois que a
Telmex/AT&T tomou a NET e a Telefónica tomou a TVA, apesar da lei proibir
que companhias estrangeiras tenham mais de 49% das empresas de TV a cabo.
Um outro projeto, do senador Tião Viana (PT-AC),
tramita no Senado propondo também 100% para o capital estrangeiro. Ele fez
um requerimento pedindo que seu projeto não fosse juntado ao de Paulo
Otavio, para que pudesse ser votado em separado, como mais uma tentativa de
entregar 100% do setor.
O presidente do SNEA considerou que a referência
ao Chile, utilizada por alguns que defendem abrir para o capital
estrangeiro, é descabida: “o Chile é um país sem gente e sem aviação. A
comparação tem que ser com os EUA que, com toda a sua fama de liberais, não
abrem sua aviação para o capital estrangeiro”. Ele frisou que nos Estados
Unidos a participação estrangeira nas empresas aéreas não pode ir além de
25% - e, mesmo assim, somente com autorização expressa do governo
norte-americano. Mollo citou a tentativa de compra de 18% das ações da
United Airlines pela inglesa British Airways. Depois de tudo acertado, a
compra foi vetada pelo governo americano.
Celso Klafke, presidente da Federação Nacional
dos Trabalhadores em Aviação em Civil (Fentac-CUT), enviou em setembro uma
carta aberta, em nome da entidade, ao presidente Lula, alertando para os
perigos da política neoliberal no setor aéreo brasileiro: “A presidente da
Anac, Solange Vieira, apoiada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, vem
implementando com voracidade um projeto 100% neoliberal”, diz um trecho do
documento, ressaltando que “os trabalhadores do setor aéreo não assistirão a
esta armação calados”. Segundo o sindicalista, a medida “põe em risco uma
cadeia produtiva que abriga mais de cem mil trabalhadores”.
Não por acaso, os advogados do capital
estrangeiro querem aprovar o projeto sem que ele passe pelo plenário –
quanto menos discussão, e menos democracia, melhor.
O ex-senador Paulo Otávio, na justificativa do
seu projeto, usa o argumento de que o aumento de capital estrangeiro na
aviação brasileira pode baratear a venda de passagens e fomentar o turismo.
Seria um caso inédito. O capital estrangeiro – isto é, o dinheiro dos
monopólios externos, sobretudo norte-americanos – não tem como função, e não
entra em lugar algum, para “baratear” nada. Muito menos para melhorar os
serviços. Ou será que a Telefónica barateou e melhorou os serviços da Telesp
ou a Iberdrola melhorou ou barateou as tarifas elétricas da Coelba (Bahia),
Celpe (Pernambuco) ou da Cosern (Rio Grande do Norte)?
O capital dos monopólios existe para monopolizar
– e não há razão para monopolizar, senão cobrar sobrepreços para obter
superlucros. Quanto a supostos investimentos, o máximo que pode acontecer é
termos um aumento do número de multinacionais penduradas no BNDES.
Além disso, o capital estrangeiro instala-se num
país com a preponderante intenção de extrair recursos para remetê-los à
matriz no exterior.
Sobre o setor aéreo, um estudo feito pelos
pesquisadores do Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
Eliana Consoni Rossi e Elton Fernandes, aponta que “as medidas
liberalizantes em curso e a proposta de política (PNAC) estão longe de
proporcionar ao país um serviço de transporte aéreo estável e com benefícios
para a sociedade como emprego, tecnologia, comércio exterior, regularidade
na prestação do serviço, etc”. Lembrando o caso da Varig e de outras
empresas que fecharam suas portas, o estudo alerta que “a saúde das empresas
aéreas brasileiras é uma questão nacional, e não somente um problema das
empresas”.
Para os pesquisadores, com a desnacionalização
do setor, “certamente, as empresas brasileiras serão prejudicadas e, por
conseguinte a sociedade brasileira também. Nesse sentido, a política e a
regulação precisa garantir condições de equidade para a indústria de
transporte aéreo brasileira em seu mercado, sob pena de estar atendendo
somente aos interesses estrangeiros na liberalização do mercado brasileiro”.
Caso não haja recurso para o projeto ir a
plenário no Senado, ele irá direto para a Câmara dos Deputados.
SÉRGIO CRUZ