|
Metalúrgicos exigem o fim da jornada extenuante
na Fiat
O Ministério Público do Trabalho também quer
mais contratações na Fiat que, desde 2008,
demitiu 1.600 trabalhadores em Betim
A Fiat Automóveis deve reduzir o volume abusivo
de horas extras, que elevou a jornada de
trabalho para 52 horas semanais, e contratar
mais mão-de-obra, defendeu o Ministério Público
do Trabalho, cobrando que a multinacional
italiana feche um acordo com os metalúrgicos.
A ação do MPT atendeu denúncia do Sindicato dos
Metalúrgicos de Betim, Igarapé e São Joaquim de
Bicas de que os profissionais estão fazendo pelo
menos oito horas semanais de hora extra para
atender o crescimento da demanda depois da
redução do IPI (Imposto Sobre Produtos
Industrializados).
“Em razão do volume de horas extras,
solicitamos fiscalização ao Ministério do
Trabalho e novas contratações na Fiat. A jornada
excessiva é prova dessa necessidade”, afirmou o
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos,
Marcelino da Rocha, frisando que o pólo
automotivo da Grande Belo Horizonte tem
estendido a jornada aos sábados, domingos e
feriados.
Conforme demonstraram os trabalhadores, o
excesso de horas extras abrange o conjunto da
cadeia de fornecedores da Fiat, comprometendo,
além da saúde e da segurança de todos os
operários das indústrias de autopeças da região,
a recomposição dos postos de trabalho.
Apesar de ser detentora do terceiro maior
empréstimo que o BNDES concedeu na área
industrial, de outubro de 2008 a março de 2009,
nada menos que R$ 410.884.744 (410 milhões, 884
mil e 744 reais), a multinacional não traduziu
este gigantesco aporte de recursos públicos em
qualquer atenção à geração de emprego. Pelo
contrário, conforme denuncia o Sindicato, a Fiat
capitaneou a indústria automobilística para
forçar os operários a ampliarem a jornada desde
maio.
Em recente audiência com o Ministério Público,
os representantes da montadora alegaram que não
necessitam alterar a jornada, pois a empresa
estaria utilizando o regime de horas extras em
conformidade com a legislação trabalhista
vigente e, inclusive, fazendo novas admissões.
Diante do aumento da procura, entre março e
abril, a montadora italiana anunciou a
contratação de cerca de 700 operários.
Na verdade, o número é completamente
inexpressivo, contesta o Sindicato, lembrando as
“demissões preventivas” realizadas no ano
passado. Quando ocorreram as demissões, o
pretexto foi o mesmo utilizado por todas as
montadoras: “antecipação dos reflexos da crise
financeira internacional”. A medida revelou-se
uma tragédia social de grandes proporções, com o
setor automobilístico convertendo-se no
principal importador da crise, o que levou o
ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a
qualificá-las como “inexplicáveis”.
“Nós não podemos dizer que as empresas não
tiveram lucro no ano de 2008, principalmente as
montadoras. Até o mês de outubro tiveram lucros
excessivos. O que elas fizeram com o lucro?
Remeteram para fora”, esclareceu José Nicolau
Pompeo, doutor em economia e professor da USP e
da PUC-SP, destacando o crescimento de 62% das
remessas de lucro das multinacionais, de US$ 21
bilhões em 2007 para US$ 34 bilhões em 2008.
Além de não repassarem tão expressivos lucros
aos salários, a primeira atitude das montadoras
diante de perspectivas sombrias foi recorrer às
dispensas em larga escala.
Conforme João Alves, vice-presidente do
Sindicato, apenas na unidade de Betim, a Fiat
demitiu 1.600 trabalhadores.
De acordo com Marcelino da Rocha, cerca de seis
mil trabalhadores da indústria automobilística
da região perderam seus empregos entre outubro e
março. Assim, explicou, o aumento do quadro de
pessoal é uma questão de justiça que produzirá
melhorias também na indústria de autopeças, que
necessitará contratar pessoal para acompanhar o
ritmo de trabalho na montadora.
O Ministério Público do Trabalho de Minas
promoveu audiência em 14 de outubro para ouvir
as partes, quando foi estabelecido um prazo para
que a Fiat apresente uma solução. O prazo se
esgota nesta sexta-feira. |