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A guerra cambial americana e as ameaças sobre o Brasil
Na guerra
cambial deflagrada, com a invasão de bilhões de dólares sem lastro, pelos
EUA, ou nos defendemos ou seremos devastados. O chamado “câmbio flutuante” é
a entrega da administração de nossa moeda exatamente àqueles que estão nos
saqueando através do câmbio
CARLOS LOPES
Há poucos dias,
nós escrevemos que “a sobrevalorização do real é consequência da enxurrada
de dólares que o banco central norte-americano, o Federal Reserve (Fed),
emitiu desde que a crise estourou. (….) Só no sistema financeiro, foram
injetados US$ 14,9 trilhões, mais do que o próprio PIB dos EUA (cf. The Wall
Street Journal, 21/05/2009, ‘U.S. Rescue Aid Entrenches Itself’). As taxas
de juros nos EUA foram fixadas entre 0 e 0,25% - e não para estimular a
indústria, mas para beneficiar os bancos, antes de todos o JP Morgan-Chase,
fusão dos grupos Morgan e Rockefeller (....). Com essa taxa de juros e com
tanto dinheiro emitido, saem bilhões de dólares sem lastro para outros
países – com objetivo tão somente especulativo, parasitário, numa palavra,
predatório” (HP 11/11/2009).
Somos, agora,
obrigados a atualizar os dados.
Segundo
relatório oficial de um alto funcionário da Secretaria do Tesouro dos EUA,
Neil Barofsky, inspetor-geral especial do TARP (“Troubled Asset Relief
Program” - Programa de Alívio a Ativos Problemáticos), os recursos injetados
já chegavam, em junho, a “algo em torno” de US$ 23,7 trilhões.
Barofsky, em seu
relatório, discrimina esse dinheiro, além dos US$ 700 bilhões injetados
diretamente pelo governo nos bancos:
1) US$ 6,8
trilhões do Federal Reserve, também para os bancos;
2) US$ 2,3
trilhões, igualmente para os bancos, da Federal Deposit Insurance
Corporation (FDIC) - que, apesar do “corporation” no nome, é uma agência
governamental;
3) US$ 7,4
trilhões, através do TARP, principalmente para os bancos, embora não
exclusivamente;
4) US$ 7,2
trilhões gastos com as financeiras de hipotecas (Fannie Mae e Freddie
Mac) e outros programas de “salvamento” e ajuda.
A soma desses
quatro itens é US$ 23,7 trilhões. No entanto, o relatório fala em “algo
em torno” de US$ 23,7 trilhões – Barofsky, pelo visto, não está seguro
de que sua contabilidade está completa.
O relatório
também cita os receptores do dinheiro, quase todo para apenas 13 bancos, dos
360 que são listados por Barofsky. As maiores quantias foram para o JPMorgan
Chase, Bank of America e Wells Fargo.
Depois disso,
quase não necessitamos fazer comentários sobre a invasão de dólares sem
lastro e a guerra cambial deflagrada pelos EUA contra os outros países. Nem
sobre o que significa se conformar em “trabalhar com o câmbio baixo”. Muito
menos sobre certas odes e elegias ao “câmbio flutuante”.
Evidentemente, o
“câmbio baixo” é resultado de uma política monetária deliberada por parte
dos EUA – mais precisamente, dos monopólios financeiros norte-americanos,
que determinam essa política através do Fed, um banco central que não
somente é “autônomo” em relação ao governo, como é privado. Mas essa
política só afeta o Brasil e outros países enquanto eles não se defenderem
contra a agressão cambial, ou seja, enquanto mantiverem a ilusão de que o
“câmbio flutuante” é flutuante.
Nos parece óbvio
que US$ 23,7 trilhões, com as taxas de juros dos EUA em torno de zero, só
podem ter um destino – a pilhagem de outros países, debaixo de um tsunami de
papel pintado (hoje, não há ao menos a necessidade de imprimi-lo: basta
acrescentar cifras num computador). Mais óbvia ainda nos parece a conclusão
de que, diante disso, temos que nos defender da invasão e depredação de
nosso país.
No entanto, já
que a vaga neoliberal, apesar de minguante, tornou difícil de compreender
certas coisas que antes eram consideradas óbvias, vejamos essa questão do
“câmbio flutuante”, tão incensado por Fernando Henrique.
A determinação
da taxa de câmbio sempre foi um instrumento de política econômica. A ideia
de que ela deve ser determinada pelos bancos e outros especuladores - ou
seja, pelos que podem se beneficiar com a sua manipulação - é, além de
esdrúxula, essencialmente estúpida. Entretanto, é a isso que se chama
“câmbio flutuante”. Equivale a encarregar a Cosa Nostra de fazer a segurança
dos cofres do Banco do Brasil.
Como escreveu
recentemente, em artigo na “Carta Capital”, o ex-ministro Delfim Netto:
“Como todo
ativo financeiro, a taxa de câmbio, quando há liberdade de movimento de
capitais, ajusta-se instantaneamente às pressões do mercado (seja lá o que
isso for), enquanto os preços e os salários demoram a fazê-lo, o que impõe
custos reais à economia. É pura mitologia pensar que isso pode ser corrigido
simplesmente aumentando o grau de ‘abertura’. É também mítica a crença de
que a taxa de câmbio estabelecida livremente pelo ‘mercado’ é um fenômeno
‘natural’, e que, portanto, qualquer intervenção governamental só poderia
aumentar o desequilíbrio”.
O atual deputado
Antonio Palocci, quando ministro da Fazenda, disse que “o diabo do câmbio
flutuante é que o danado flutua”. Talvez as palavras “diabo” e “danado” não
sejam completamente inadequadas ao assunto. Mesmo assim, não é verdade. O
problema do mal chamado “câmbio flutuante” é que ele afunda o país sob a
especulação – porque significa entregar aos bancos e outros especuladores
externos a administração da nossa moeda.
O câmbio,
deixado à mercê dos monopólios financeiros (ou do “mercado”, na expressão de
Delfim, que percebe perfeitamente que isso não é um mercado), obedece às
manipulações especulativas dos monopólios financeiros - manipulações que,
evidentemente, são em benefício deles, sobretudo dos que têm mais dólares e,
antes de tudo, em benefício daqueles que têm a capacidade de fabricar
dólares.
Em um mês,
outubro, entraram no Brasil US$ 17 bilhões em dinheiro puramente
especulativo. Nos últimos quatro meses, entraram US$ 37,4 bilhões - uma
montanha de dólares sem lastro que serviu somente para sobrevalorizar o
real, frear exportações, anabolizar importações, e drenar recursos para os
EUA.
O problema do
“câmbio flutuante”, em suma, consiste em que, ao invés da relação da moeda
nacional com o dólar ser administrada publicamente, pelo Estado, tendo em
vista os interesses do país, essa relação é administrada privadamente pelos
que se locupletam com ela contra os interesses do país, em suma,
especuladores que têm em vista os seus interesses – e não estamos falando de
um Soros da vida ou outro pistoleiro qualquer do “mercado financeiro”, mas
dos grandes bancos norte-americanos, em especial, o JP Morgan Chase.
Ou, o que é
outra forma de dizer a mesma coisa, o problema do “câmbio flutuante” é que
manda nele quem tem dólares - e não quem tem reais. A rigor, aqueles que têm
reais, ao aceitar o “câmbio flutuante”, entregam o comando do real aos que
têm dólares.
Em conferência
no Brasil, no último mês de agosto, Louis-Vincent Gave, um dos sócios da
empresa de consultoria francesa GaveKal, estimou que, em 2009, 60 a 70% do
crescimento do PIB mundial serão devidos ao crescimento de um único país, a
China.
Gave, apesar de
francês, nada tem de anti-americano. Pelo contrário, consultor de
especuladores, é um americanófilo, formado por uma universidade dos EUA.
Apenas, em relação à China, estava registrando o fato de que esse país não
entrou em crise – e continuou a crescer, enquanto os EUA submergiam na
crise. Basicamente, ele frisou que este ano “ficaria na história” como o
primeiro, desde antes da II Guerra, em que os EUA “não lideram a
recuperação” da economia mundial.
Não é somente
que os EUA “não lideram” a recuperação. Até agora não apareceu nem uma luz
no fim do túnel da crise norte-americana.
A prova maior é
que, no momento, os bancos e demais monopólios norte-americanos, inclusive
através de Obama, pressionam a China para que a taxa de câmbio do yuan em
relação ao dólar seja deixada ao alvedrio da agressão especulativa, isto é,
que essa taxa passe a ser “flutuante”.
Essa é a
esperança do establishment dos EUA de sair da crise – afundar a China, assim
como os outros países, na crise, drenando, através dessa guerra cambial,
riquezas do mundo para os monopólios dos EUA.
Nada poderia
mostrar com tanta clareza a situação em que está a economia dos EUA – a
única “recuperação” que seus paxás e mandarins conseguem imaginar é que os
outros países a sustentem com seus recursos e, inclusive, que permitam ser
devastados pela drenagem desses recursos para os EUA.
Certamente, os
EUA poderiam reorganizar a sua economia de modo mais racional, e assim sair
da crise – mas isso é tudo o que os monopólios financeiros não querem,
porque significaria o fim de seu domínio.
Significativamente, enquanto tentam saquear os outros países para sair da
crise, sua mídia – e a mídia vassala em outros países – propagandeia que os
EUA já teriam, no essencial, superado a crise em que se atolaram desde o
último trimestre do ano passado – na verdade, desde março de 2008, quando o
Bear Sterns quebrou. Apenas três meses antes a revista “Fortune” havia
escolhido o Bear Sterns como “a mais admirada” empresa dos EUA, quiçá do
mundo. O Bear Sterns, instalado em Wall Street desde 1923, sobrevivera à
crise iniciada em 1929, mas sucumbiu a esta logo no início. O Fed, depois de
fracassar em seu “salvamento”, entregou-o ao JPMorgan Chase.
Como disse na
época, apesar de sua filiação tucana, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser
Pereira:
“Chegou ao
fim a onda ideológica neoliberal que dominou o mundo nos últimos 30 anos no
quadro da hegemonia americana. Dois fatos ocorridos nas últimas semanas
marcaram esse fim inglório; de um lado, o socorro do banco de investimento
Bear Stearns; de outro, as revoltas populares em vários dos 33 países hoje
seriamente atingidos pelo aumento dos preços dos alimentos”.
De passagem,
notemos que desde abril de 2008 somente o sr. Meirelles e outros da mesma
cepa foram incapazes de ver a aproximação da catástrofe – e continuaram não
vendo, mesmo depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro, quando
ninguém mais a negava. Para quem foi defenestrado da presidência do
BankBoston por garantir aos clientes, no momento em que De la Rúa estava
sendo escorraçado da Casa Rosada, que os títulos argentinos “continuam um
investimento seguro” porque tudo ia acabar ficando como dantes, não é uma
façanha inédita.
Os chineses
jamais tiveram ilusões no “câmbio flutuante”. Sempre determinaram a taxa do
yuan em relação ao dólar de acordo com o que entendiam que eram os
interesses da China. E isso – ao lado de voltar boa parte de sua produção
para o mercado interno – foi o que possibilitou que continuassem a crescer,
enquanto os EUA trilhavam o caminho do brejo.
Diante da atual
agressão dolarizada, a China defendeu-se, não permitindo que sua moeda fosse
artificialmente sobrevalorizada pela política monetária americana, ou seja,
pela inundação de dólares provenientes dos EUA, com as consequências a que
já nos referimos. Que os EUA propugnem que os chineses – e qualquer um – não
devem defender-se enquanto desatam uma guerra cambial contra a China e os
outros países, demonstra apenas o que já se sabe: o caráter imperialista dos
monopólios financeiros dos EUA. Os antigos romanos, como se lê no relato de
César sobre a guerra nas Gálias, também achavam um absurdo que outros se
defendessem contra a sua agressão.
Porém, no caso
dos EUA, o que torna mais histéricas – portanto, também mais impotentes – as
exigências de que os outros não se defendam, é o fato de que seus
monopólios, no momento, contemplam o abismo.
Na última
terça-feira, Douglas W. Elmendorf, diretor do Congressional Budget Office (CBO
- escritório do Congresso dos EUA que acompanha o orçamento), declarou,
sobre a crise econômica:
“A previsão
do CBO antecipa uma recuperação relativamente lenta e tateante”.
A declaração foi
feita em sua apresentação na American Association for Budget and Program
Analysis (Associação Americana para a Análise de Orçamento e Programa).
Porém, essa
declaração ainda é eufemística, diminuindo, pelo menos em parte, o tamanho
do problema.
Elmendorf, em
sua conferência, mostrou um gráfico (imagem 1), referente ao chamado “GDP
gap”, isto é, a diferença entre o PIB real e o “PIB potencial” (aquele que
existiria se a economia estivesse usando plenamente todos os seus recursos,
inclusive com pleno emprego):

As áreas em
cinza correspondem a períodos de recessão, de “crescimento negativo” da
economia. Porém, ainda que admitindo, como está no gráfico, que os EUA não
vão entrar em recessão até o ano de 2019, o que é mais do que altamente
duvidoso, o que chama a atenção é que somente em 2015, daqui a seis anos,
segundo a previsão do CBO, a diferença entre PIB real e “PIB potencial”
voltaria ao nível de 2006, isto é, ao nível de nove anos antes (ao contrário
do que o gráfico pode induzir, essa diferença não seria zero, pois os
números na vertical são referentes a uma base fixa - o ano de 1973).
Em nossa última
edição, publicamos artigo do pesquisador norte-americano Andrew Gavin
Marshall, onde ele considera que “o grande elefante na sala é a principal
bolha financeira criada pelos pacotes de salvamentos e ‘estímulos’ pelo
mundo todo. Este dinheiro foi utilizado pelos bancos principais para comprar
bancos menores e absorver a economia real, a indústria produtiva. O dinheiro
também foi para a especulação, alimentando a bolha de derivativos e levando
a uma ascensão dos mercados de ações, uma ocorrência completamente ilusória
e fabricada”.
Com efeito, nada
na economia dos EUA, no momento, é mais do que ilusão, exceto o sofrimento
dos trabalhadores e a aflição dos empresários não-monopolistas.
Em setembro, um
ano depois do estouro no Lehman Brothers, segundo dados do Bank for
International Settlements (BIS), o banco que reúne os bancos centrais, a
montanha de derivativos estava em US$ 520 trilhões.
Até agora, a
economia americana tem sido sustentada – e quase que somente seu braço
financeiro – por injeções maciças de dinheiro público, o mesmo dinheiro que
não pode ser empregado na Saúde ou na Educação dos norte-americanos.
Vejamos o que
mostra a tabela:

Essa tabela diz
respeito apenas a recursos estritamente orçamentários – e a receita é a
obtida com a arrecadação de impostos. O resultado final de 2009 é uma
projeção feita pelo COB em seu último relatório. Há quem considere otimista
essa projeção; existe, por exemplo, dentro do governo dos EUA, quem projete,
para este ano, um PIB não maior do que US$ 12 trilhões e 774 bilhões (cf.
Bureau of the Public Debt’s, da Secretaria do Tesouro dos EUA, departamento
que tem como lema a frase de Alexander Hamilton: “A dívida dos Estados
Unidos, externa e interna, foi o preço da liberdade”).
Entretanto, o
que chama a atenção, na tabela, é que o déficit fiscal pulou de 3,2% do PIB
para 11,2% do PIB - o maior desde 1943, quando os EUA estavam em meio a uma
guerra mundial. Quanto à dívida pública federal, ela saltou de 40,8% do PIB
para 53,8%. Somados os Estados e condados, a dívida pública atinge US$
12.036.228.000.000, quase 100% do PIB.
Vejamos a dívida
privada individual (ou seja, não-empresarial), neste mês, segundo a última
fonte citada:
1) Cartões de
crédito - dívida total: US$ 870.370.000.000 (870 bilhões e 370 milhões
de dólares).
2)
Empréstimos pessoais - dívida total: US$ 2.428.073.000.000 (2 trilhões,
428 bilhões e 73 milhões de dólares).
3)
Hipotecas -
dívida total: US$ 14.268.426.000.000 (14 trilhões, 268
bilhões e 426 milhões de dólares).
Como é possível
manter este estado de coisas? Evidentemente, não é possível. No momento, ele
ainda se mantém porque nós – o mundo todo – estamos sustentando os EUA,
inclusive através de comprar títulos da dívida que rendem zero de juros. Mas
isso, além de devastar os nossos países, serve somente para adiar as
mudanças naquele país.
E, certamente,
se continuarmos amarrados à crise dos EUA – sobretudo se não nos defendermos
na guerra cambial perpetrada contra nós – servirá para que essa crise, que
não é nossa, nos conduza, também, a um desastre, e exatamente quando
tínhamos tudo para crescer. |