Amorim: “se não fosse o Brasil, Zelaya estaria preso ou morto”
Ministro das
Relações Exteriores rebateu teses de senadores do PSDB e Dem favoráveis a
golpistas
“O
presidente Manuel Zelaya teria sido preso, talvez morto sem o apoio do
Brasil”, afirmou o chanceler brasileiro , Celso Amorim, durante reunião
extraordinária da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do
Senado, na última terça-feira. O ministro ponderou que o Brasil está
apoiando uma vítima de um golpe de Estado. “Não foi apenas uma pessoa que
estava procurando refúgio. Foi um presidente legítimo que procurava o apoio
da Embaixada”, sublinhou.
Diante dos ataques da oposição, o chanceler
apontou que a proteção de Zelaya foi referendada por outras entidades
internacionais, como a Organizações dos Estados Americanos (OEA) e
Organização das Nações Unidas (ONU). “Não fomos protagônicos, fomos fazendo
o que achávamos o que tinha de fazer. O Brasil não comandou nenhum
processo”, disse Amorim, reiterando que o governo brasileiro ficou sabendo
da entrada de Zelaya em Honduras apenas cerca de meia hora antes de sua
chegada ao local. “Falei com ele (Zelaya), que nos disse que estaria indo (a
Honduras) para tratar do retorno dele à presidência, por meios pacíficos e
diálogo”, contou o chanceler.
“Nossa ação reconduz à retomada do diálogo, algo
que não estava acontecendo”, afirmou Amorim. “O fato de Zelaya estar hoje no
país é um convite ao diálogo”, destacou o ministro, divergindo de José
Agripino (DEM-RN) e Sérgio Guerra (PSDB-PE), que criticaram a atuação do
Brasil e expressaram o desejo de ver Zelaya asilado. “Não sei o que teria
acontecido caso o Brasil não o tivesse aceito [na Embaixada]. Ele teria sido
preso, morto ou estaria em uma serra planejando uma insurreição, uma
revolução. Achamos que estamos contribuindo para o diálogo e nossa Embaixada
não está interferindo [nos assuntos internos hondurenhos]”, afirmou o
chanceler.
Ao defender a decisão do Itamaraty das críticas
de tucanos e demistas, o ministro lembrou que o Brasil não está só. “Não me
lembro de nenhum golpe de Estado que tenha sido tão amplamente criticado,
tanto pela OEA quanto pela ONU e por outras lideranças mundiais. Trata-se
não apenas de um presidente que buscava se exilar por golpe em seu país, mas
de um presidente legítimo, assim reconhecido pela comunidade internacional,
que quase literalmente bateu à nossa porta. Então consideramos como correto
dar esse abrigo”, resumiu Amorim.
Quanto ao líder do PSDB no Senado, Arthur
Virgílio (AM), que expressou a preocupação de que a diplomacia brasileira
fique refém da crise em Honduras, que o tucano definiu como um “pequeno
país”, Amorim concordou apenas com a preocupação: “Naturalmente esta é uma
preocupação nossa. Mas lá o que está em jogo não é apenas um pequeno país da
América Central, mas o destino da democracia, pelo menos na região, onde a
tolerância a um golpe de Estado poderia inspirar outros golpes”, disse.
Arthur Virgílio (PSDB-AM) tentou defender o
golpista Roberto Micheletti. Disse que mesmo que ele tenha feito um golpe e
esteja coibindo a liberdade de expressão naquele país, não significa que
Manuel Zelaya tenha agido democraticamente “ao querer forçar um terceiro
mandato na presidência”. Na avaliação do tucano “Zelaya também tentou dar um
golpe, talvez inspirado na conduta do presidente da Venezuela, Hugo Chávez”.
Amorim rebateu as afirmações de Virgílio e negou
a existência de “qualquer segmento da agenda política de Hugo Chávez” na
questão hondurenha. Ele reafirmou que Zelaya foi vítima de um golpe militar
repudiado por toda a comunidade internacional e que não teve nada a ver com
“forçar um terceiro mandato”. “O que está em jogo é o destino na democracia
na América Central. O fato é que o Brasil não escolheu o papel que está
tendo neste contexto, mas também não fugiu dele depois da situação posta”,
completou Amorim.
O ministro polemizou também com o senador Alvaro
Dias (PSDB-PR), quando este insinuou que o Brasil sabia previamente da volta
de Zelaya, concordando, portanto, com a tese do governo golpista de
Honduras: “Tenho 50 anos de vida pública. Se Vossa Excelência preferir
acreditar nas palavras de um golpista, não posso fazer nada. Não soubemos,
não participamos e fomos surpreendidos quando ele bateu às portas da
embaixada”, sublinhou.
O líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), afirmou
“não haver dúvidas quanto ao fato de Manuel Zelaya, presidente deposto de
Honduras, ter sofrido um golpe”. Mercadante pediu, que os parlamentares
brasileiros se posicionem claramente contra o golpe. Inácio Arruda (PCdoB-CE)
disse não haver sentido em ficar perguntando qual é o status de Zelaya. “O
que importa é que o Brasil defende a democracia e os direitos de um
presidente legitimamente eleito pelos hondurenhos”, declarou.