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Fiscal do bailout: ‘bancos dos EUA estão
mais vulneráveis que antes’
Neil Barofsky,
fiscal-geral do bailout, disse que os grandes bancos têm usado os
US$ 3 trilhões do Tesouro para “adquirir outras instituições, sentar em cima
para constituir um ‘colchão’ de capital, limpar balanços e desovar títulos
podres”
“Dependente de menos - e maiores - bancos”, o sistema financeiro dos EUA
pode estar agora “numa situação muito mais perigosa”, afirmou o
inspetor-geral especial do programa de bailout dos bancos, Neil Barofsky, em
entrevista ao portal “Huffington Post” na semana passada. O sistema está
“mais vulnerável a abalos do que nunca”, destacou o “Huffington”,
acrescentando a advertência de Barofsky de que os bancos “não estão
emprestando”. Em seu relatório de abril ao congresso, ele assinalou que o
programa de bailout de US$ 780 bilhões evoluiu para quase US$ 3 trilhões -
de “alcance, escala e complexidade sem precedentes” – dos quais havia “muito
pouca fiscalização e informação”. Parte ponderável das operações de bailout,
conforme ele denunciou, está sujeitas a fraudes e manipulações.
CONCENTRAÇÃO
Como revelou Barofsky, resumindo suas investigações, o que esse número menor
de grandes bancos – “mais consolidados” e “mais entrelaçados” – têm feito
com a montanha de dinheiro público é “adquirir outras instituições, sentar
em cima para constituir um ‘colchão’ de capital, limpar balanços e desovar
títulos podres”. Menos emprestar, que era a justificativa para o bailout,
depois remendada para “evitar um colapso sistêmico”. A bem da verdade, os
bancos também pagaram obscenos pacotes de bônus para os banqueiros e
fabricaram, desde março, graças à bolada do bailout, uma bolha com ações de
Wall Street.
Barofsky, um promotor de 39 anos, foi nomeado inspetor-geral especial do
bailout pelo Congresso dos EUA em dezembro passado, mas desde então tem
denunciado que ninguém sabe como foram usados os quase US$ 3 trilhões, e que
o Tesouro dos EUA – e, acrescentaríamos nós, o Federal Reserve – andou
fazendo de tudo para dificultar o rastreamento do dinheiro. Nos últimos
dias, a secretaria do Tesouro anunciou ter desistido de obter, do
Departamento de Justiça, autorização para botar cabresto no inspetor-geral
especial. Em outubro, ele irá apresentar novo relatório.
Na entrevista ao portal, ele registrou sua “grande surpresa”, quando, ao
anunciar uma auditoria do programa de bailout, teve como resposta da
secretaria do Tesouro de que isso seria “um grande desperdício de tempo”. O
interessante raciocínio foi reforçado com a alegação de que o dinheiro –
aliás, uma cordilheira de recursos públicos – seria “fungível” -, isto é,
todo dinheiro é a mesma coisa, sendo “impossível” rastrear o bombeamento de
dólares para os bancos. (Nessa altura, até os jornais já conseguiam
“rastrear” o caminho de bilhões de dólares do bailout da AIG, direto até os
cofres do JP Morgan e Goldman Sachs no chamado ‘bailout pela porta dos
fundos’ – e dali para os felizes ganhadores de bônus recheados). O
rastreamento “impossível” também revelaria que os bancos que eram
contrapartes nos derivativos podres da AIG haviam sido pagos com
inacreditáveis 100% do valor de face.
ALTO CUSTO
Também a presidente do Painel de Supervisão do bailout do Congresso, a
professora universitária Elizabeth Warren, tem advertido contra o atual
quadro das coisas. “A estabilidade frágil de hoje veio a um custo enorme
para o povo americano”, ressaltou. “Os ativos tóxicos permanecem nos livros
dos bancos, as hipotecas de imóveis comerciais são a próxima crise, os
pequenos bancos continuam a quebrar”, apontou. “Faz um ano que estamos
falando sobre os grande-demais-para-quebrar. Nós estamos agora diante de um
setor que é mais concentrado do que era há um ano atrás e os
grande-demais-para-quebrar estão agora sobre nós num sentido muito maior”.
ANTONIO PIMENTA |