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O caminho para a
Revolução de 30 (1)
Ao aproximar-se
a data em que se comemora a vitória da Revolução de 30 - no dia 3 de outubro -,
que levou Getúlio à presidência do Brasil, decretando o fim da República Velha e
inaugurando uma era de desenvolvimento e progresso no país, iniciamos hoje uma
série sobre esse que foi um dos mais significativos períodos da nossa História
CARLOS LOPES
A remoção do entrave às forças produtivas que
representou a Abolição e a República significou a expansão da produção de café.
Com efeito, de seis milhões de sacas em 1895 [uma saca=60 kg], a produção passou
para 20 milhões de sacas em 1907 1.
A imigração de trabalhadores (principalmente da Itália) para São Paulo
quadruplicou nos 10 anos que se seguiram à Proclamação da República2.
As estradas de ferro, que tinham principalmente o objetivo de escoar a produção
de café em direção aos portos, pularam de 10 mil km ao final do Império, para 29
mil km nos 30 anos seguintes.
Há também um
importante surto industrial: de 636 empresas ao final do Império, empregando
54.164 operários, os estabelecimentos industriais cresceram, em 1910, para
3.424, empregando 159.600 operários.
No entanto, apesar
de 50% da demanda interna de produtos têxteis já ser atendido pela produção
interna - em geral por fábricas inglesas instaladas aqui - somente 5% das
mercadorias industriais consumidas no Brasil era produzida no país3.
O restante era importado, com a tácita submissão ao monopólio da indústria
inglesa.
Em choque com
Deodoro e seu ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, por sua política de incentivo
industrial, a oligarquia cafeeira de São Paulo conseguiu depô-los. Mas o novo
presidente, Floriano, tentou manter, apesar dos pesados gastos que as
sublevações monarquistas impuseram ao país, a política industrial. No entanto,
para vencer a restauração monárquica, foi obrigado a se compor com as
oligarquias regionais, em especial a cafeeira.
Com Prudente de
Moraes, a oligarquia cafeeira chega, enfim, ao poder. A política econômica de
Prudente foi caracterizada pelo corte aos estímulos à industrialização, com um
impacto violento sobre o setor. A percentagem de aplicação de capital na
indústria (taxa de investimento) cai para menos da metade4
nos mandatos de Prudente e seu sucessor, Campos Sales:
* Até 1884 –
9,6%;
* 1885/1889 –
11,2%;
* 1890/1894 –
11,8%;
* 1895/1899 –
5%;
* 1900/1904 –
6%;
O domínio da
oligarquia cafeeira colocou, desde cedo, um limite político ao crescimento do
país, isto é, ao enfrentamento do bloqueio ao desenvolvimento, constituído pela
relação de dependência para com a Inglaterra. Nossa economia continuava tendo
sua dinâmica determinada externamente.
A crise de 1898 -
crise devida à queda vertiginosa do preço do café no mercado externo - acuou a
oligarquia cafeeira de tal maneira que ela passou, cada vez mais e mais, à
vassalagem aberta frente à matriz imperialista da época.
Nesse mesmo ano,
Campos Sales sucedeu Prudente de Moraes. A destruição de forças produtivas
realizada por seu ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, foi algo absolutamente
inédito desde a Independência: o país foi paralisado, sangrado e pauperizado a
um ponto extremo, como condição para a obtenção de um empréstimo externo - cuja
função não era o investimento dentro do país, mas o refinanciamento da dívida
anterior, para que os pagamentos em ouro de juros aos bancos ingleses, tornados
impossíveis em virtude da queda dos preços do café, pudessem ser retomados.
Murtinho -
profissionalmente um homeopata, mas cujo servilismo nada tinha de homeopático -
era um repetidor do que corria na matriz londrina sobre o “saneamento” das
finanças, o combate à inflação, o caráter sacrossanto da dívida externa e o
desperdício que era ter indústria nacional e economia independente, como
demonstra, ainda antes da posse de Campos Sales, o seu relatório ministerial de
1897 (na época ele era ministro da Viação e Obras Públicas do vice-presidente
Manoel Vitorino, que substituiu Prudente de Moraes por algum tempo):
“A indústria não constitui fim a que se deve procurar atingir à
custa de todos os sacrifícios. Limitemos paciente e corajosamente [!?] a
expansão manufatureira à pequenez dos nossos recursos econômicos e restrinjamos
a ação governamental ao que ela pode oferecer de mais útil e salutar ao
desenvolvimento industrial de nossa pátria: a Ordem por meio da Liberdade,
mantendo a paz a todo transe e fazendo desaparecer todas as peias regulamentares
que entorpecem os movimentos da atividade individual [isto é, da atividade dos
ingleses dentro do país]”
Em seguida, Murtinho
expressa sua opinião sobre o nosso povo e sobre a política econômica:
“Não podemos, como muitos aspiram, tomar os Estados Unidos da
América do Norte como tipo para nosso desenvolvimento industrial, por não termos
as aptidões superiores de sua raça, força que representa o papel principal no
progresso industrial desse grande país. Seja, pois, esta a fórmula da nossa
política industrial: produzir barato aquilo que só podemos importar caro e
importar barato aquilo que só podemos produzir caro”5
Resumidamente, a
política econômica de Campos Sales e Joaquim Murtinho consistiu em obter um
empréstimo, o chamado “funding-loan”, em condições leoninas, para pagar a dívida
externa, dando como garantia a Alfândega do Rio de Janeiro – porto principal por
onde entravam as importações. O negociador do empréstimo foi o próprio
presidente eleito, Campos Sales. Quando mesmo Prudente, em seus últimos dias de
governo, estranhou os termos aceitos (“Resista, porque reputo indispensável”) e
reclamou que uma dívida de 2 milhões de libras em letras do Tesouro havia ficado
fora do acordo, Campos Sales respondeu em telegrama que as letras do Tesouro
“estão em poder de banqueiros que se interessam novo acordo e podem se retrair
desgostosos, sendo certo não desistirem pagamento forma estipulada6”.
Prudente de Morais,
justiça seja feita, não gostava de Joaquim Murtinho, que havia sido parte de um
golpe contra ele, encabeçado pelo vice-presidente Manoel Vitorino durante seu
afastamento da Presidência por motivo de doença. Vitorino, que governou quatro
meses, mudou o Ministério, o que Prudente só aceitou em troca do compromisso de
nomear para ministro da Fazenda seu velho amigo Bernardino de Campos. Vitorino
nomeara Bernardino e em seguida transformou a Fazenda num ministério decorativo.
A política econômica passou a ser ditada pelo ministro da Viação, Joaquim
Murtinho, que atirou o país numa crise pior ainda do que aquela em que se
encontrava. Bernardino, duas vezes “presidente” (governador) de São Paulo,
permaneceria na oposição à política econômica de Murtinho. Representava uma
tendência da oligarquia cafeeira que ainda se chocava com a política de
submissão completa aos banqueiros ingleses - o que lhe barrou o caminho para a
Presidência da República.
A partir de janeiro
de 1899, o governo se comprometeu a depositar nos bancos ingleses o
correspondente às emissões do “funding”, sob a forma de papel-moeda, para futuro
pagamento em ouro dos juros da dívida externa.
Foram instituídos
dois fundos: um para garantia do papel-moeda, formado com a taxa-ouro sobre as
importações; outro, o fundo de resgate, formado pelo arrendamento das estradas
de ferro federais, saldos orçamentários e outros recursos. Além disso,
aumentavam-se os impostos: a taxa-ouro sobre as importações foi aumentada de 10%
para 15%.
Como esclareceu o
próprio Campos Sales, esse aumento dos impostos sobre as importações nada tinha
a ver com a proteção da indústria, da qual declarou-se - embora não fosse
necessário - um inimigo. Num país em que a maioria das mercadorias eram
importadas, a medida tirava dinheiro dos consumidores para transferi-lo aos
cofres londrinos. Ao mesmo tempo, foram instituídos novos impostos sobre os
produtos nacionais e sobre os rendimentos das pessoas.
O resultado foi uma
recessão brutal. Em 1900, o Banco da República, uma empresa mista, semi-estatal,
faliu - e o pânico se espalhou. Murtinho afirmou que era perfeitamente normal a
onda de falências daí decorrente: o importante era restabelecer a confiança dos
credores externos. Em seguida, retomou o pagamento em ouro aos banqueiros
ingleses – que era o objetivo do “funding-loan”, isto é, de toda a política
econômica de Murtinho e Campos Sales.
No penúltimo dia de
seu governo, com o país quebrado, exausto e faminto, Campos Sales recebeu um
telegrama de felicitações: “...devido à vossa deliberação de restaurar o
equilíbrio das finanças, o crédito do vosso país ressurgiu e a felicidade geral
da nação bastante aumentou7”.
Era assinado pelo banqueiro Rotschild, de Londres.
Para realizar essa
política econômica de terra arrasada, Campos Sales havia instituído oficialmente
o regime político da fraude, conhecido pelo eufemismo de “política dos
governadores”: somente seriam reconhecidos como eleitos os candidatos que
contassem com o beneplácito dos governadores, isto é, dos oligarcas de cada
Estado. As juntas apuradoras de votos só teriam validade legal caso a
“municipalidade”, isto é, os chefes políticos municipais, “mantivessem relações
oficiais com os governos dos Estados”. As atas de votação e apuração somente
seriam reconhecidas se fossem aprovadas pelos governantes estaduais. E, para
garantir que tudo saísse sem imprevistos, era instituída uma comissão de
verificação de mandatos que era a responsável final por reconhecer - ou não - se
um candidato tinha sido “eleito”.
Tratava-se de um
interessante princípio jurídico, segundo o qual, nas palavras de Campos Sales,
“a presunção, salvo prova em contrário, é a favor daquele que se diz eleito pela
política dominante do respectivo Estado8”.
O aspecto quase
caricatural da República Velha – a eleição a bico de pena, a fraude eleitoral
sistemática, o domínio das oligarquias e dos carcomidos – teve origem, portanto,
na submissão mais acoelhada aos banqueiros ingleses. Foi para fazer passar essa
política servil que transformou-se a República numa farsa.
Em fevereiro de
1906, a oligarquia cafeeira deu um novo passo – e definitivo – na dependência
aos bancos ingleses: a política de “valorização” do café, instituída pelo
“Convênio de Taubaté”, assinado pelos governadores de São Paulo, Minas e Rio, e
seguida pelo governo federal. A dívida externa, de 30 milhões de libras
esterlinas em 1889, passa a 90 milhões de libras em 1910
9.
Desde o governo de
Prudente de Morais que o preço do café estava em queda, enquanto a produção se
expandia. Em 1905, os estoques invendáveis já atingiam 11 milhões de sacas – o
equivalente a 60% do consumo mundial por ano. Como conseqüência, o preço em ouro
do café havia descido 50%10.
O Convênio de
Taubaté estabelecia preços mínimos em ouro para cada tipo de café que era
exportado; criava uma sobretaxa, em franco-ouro, para cada saca de café
exportado; autorizava o Estado de São Paulo a contrair empréstimos até o valor
de 15 milhões de libras esterlinas para financiar o plano, empréstimo que seria
pago com a receita da sobretaxa; e instituía uma caixa de conversão para fixação
do valor em moeda, cujo lastro era o empréstimo a ser contraído por São Paulo,
que os outros Estados se comprometiam a avalizar.
Traduzindo essas
medidas em palavras mais simples: o Estado compraria os estoques de café,
mantendo os lucros dos cafeicultores à custa da população, que em última
instância era quem bancaria a compra, a manutenção do preço-mínimo e o pagamento
dos empréstimos externos. Não se tratava de uma política de preço-mínimo para um
produto consumido principalmente pela população. Ao fim e ao cabo, a população
pagava os lucros que a oligarquia cafeeira não conseguia obter com a venda de
café no exterior.
A outra face desse
endividamento colossal do país, era a ditadura das mercadorias importadas - isto
é, o monopólio inglês sobre o mercado brasileiro -, onde as divisas vindas da
exportação do café eram gastas, bloqueando o desenvolvimento da indústria
nacional, o que ficou escandalosamente nítido durante a I Guerra Mundial.
Com as dificuldades
causadas pela guerra à importação de mercadorias, ocorreu no Brasil um salto
industrial: em 1920 existiam no país 13.336 estabelecimentos industriais, quatro
vezes mais do que em 1910, empregando 275.512 pessoas - o dobro de antes da
guerra. Mais importante ainda, em 1924 essas indústrias atendiam, pela primeira
vez desde o Descobrimento, a 99% dos sapatos, 90% dos móveis e 86% dos têxteis
consumidos no país.
Porém, mesmo antes
da I Guerra, o servilismo da oligarquia cafeeira encontrava cada vez mais
oposição, até porque, apesar de seu peso econômico, ela não tinha força
suficiente para impor um domínio absoluto sobre o Estado, tendo de se aliar às
outras forças políticas regionais – principalmente a oligarquia mineira,
resultando no que se chamou de política “café com leite”: o revezamento na
Presidência entre paulistas e mineiros.
Após um período de
prosperidade sob Rodrigues Alves, com a morte de seu sucessor, Afonso Pena,
ex-governador de Minas, e a posse do vice-presidente, Nilo Peçanha (1909), do
Estado do Rio de Janeiro, a oligarquia cafeeira perde momentaneamente o governo.
Nem mesmo consegue um candidato seu à Presidência. Disputam a eleição Ruy
Barbosa e o marechal Hermes da Fonseca – e a oligarquia apoia o candidato
derrotado, Ruy Barbosa.
Essa ruptura no
plano político tinha origem numa crise econômica em gestação, uma crise
gigantesca, devido à própria política de “valorização” do café e no
endividamento resultante dela, crise que só é adiada pelo eclodir da I Guerra,
com a política industrial de substituição das importações provocada pelo
bloqueio marítimo, implementada no governo Wenceslau Braz, que sucedeu Hermes da
Fonseca.
Continua na
próxima edição.
Notas:
1 Celso Furtado, Formação Econômica do
Brasil..
2 Idem.
3 Idem.
4 Hélio Silva, “O Poder Civil”.
5 “Idéias Econômicas de Joaquim Murtinho”,
org. Nícia Villela, cit. “A influência do Sistema Americano de economia política
no Brasil”, de Lorenzo Carrasco Barzúa e Geraldo Luís Lino”.
6 Hélio Silva, “O Poder Civil”.
7 Hélio Silva, “O Poder Civil”.
8 Hélio Silva, “O Poder Civil”.
9 Celso Furtado, Formação Econômica do
Brasil.
10 Hélio Silva, “O Poder Civil”. |