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Tarifa extorsiva de energia foi o ‘incentivo’
à privatização do setor
Adoção de novo cálculo de reajuste das tarifas, projetado nos EUA, foi decisivo
para a alienação do patrimônio público
O aumento galopante no preço da energia
elétrica, tal como expomos em artigo anterior (HP, 30/09/2009), foi consequência
direta da mudança na forma de cálculo das tarifas. Porém, por que mudou a forma
de calcular a tarifa?
A resposta, inequivocamente, é: devido à
privatização das empresas elétricas, no governo Fernando Henrique - e porque o
objetivo dessa privatização era, sobretudo, entregar nosso setor elétrico a
empresas estrangeiras, de preferência norte-americanas.
O aumento das tarifas era o principal
"incentivo" (sic) para que as empresas estatais do setor elétrico fossem tomadas
- e escolheu-se como modelo para esse setor exatamente uma cópia daquele que
permitiu à Enron, sob a proteção do governo Bush, escalpelar os consumidores do
Texas, Califórnia, Iowa, Minnesota, Pennsylvania, Wisconsin e Oregon - o que
levou, depois, os assaltantes à cadeia.
A tabela desta página é um resumo das
privatizações do setor elétrico. Nele, falta ainda a CTEEP, companhia de
transmissão do Estado de São Paulo, responsável por 30% da transissão elétrica
do país, que Geraldo Alckmin, em 2006, entregou a uma estatal colombiana.
Evidentemente, há poucas pessoas com a opinião de que o Estado colombiano é
capaz de dirigir melhor uma empresa do que o Estado brasileiro - ou o Estado de
São Paulo. Principalmente quando a empresa fica no Brasil.
O que apenas expõe de maneira mais escandalosa que o móvel da privatização
jamais foi a busca da eficiência, mas a rasteira entrega de patrimônio
brasileiro, público, a monopólios, sobretudo externos.
Reparemos nas 23 empresas da tabela: nada
menos que 17 foram entregues ao capital estrangeiro, com as empresas
norte-americanas levando o filet-mignon. Algumas (Cemar, Light e a jóia roubada
pela Enron, a Elektro) tiveram que ser repassadas para outros grupos - com
resultados ínfimos, do ponto de vista do consumidor.
SUPERLUCROS
Para que o leitor tenha ideia da relação
entre a privatização das empresas de eletricidade e o aumento das tarifas,
transcreveremos o que diz um dos seus "desenhistas" (e apologista baboso), o
economista Carlos Kawall Leal Ferreira, que foi um dos "formatadores" da
torrefação no setor elétrico de São Paulo:
"Após a adoção do teto de preço ter
tranquilizado os investidores em relação ao reajuste das tarifas, a
privatização das empresas estatais teve um rápido progresso, especialmente
porque a maior parte das empresas vendidas não necessitava de reestruturação
prévia" (Kawall Ferreira, "Privatização do setor elétrico no Brasil",
capítulo 6 da coletânea "A privatização no Brasil: o caso dos serviços de
utilidade pública", São Paulo, OCDE/BNDES, 2000, pág. 209, grifos nossos)
Das empresas privatizadas, apenas três
apresentavam dívidas consideráveis, mesmo assim, considerando o seu patrimônio e
mercado consumidor, nada que fosse irremediável: a CEEE (RS), a Eletropaulo e a
Elektro (SP).
Porém, as multinacionais não estavam
interessadas somente em se apoderar de um patrimônio valiosíssimo a preço exíguo
- e com financiamento do BNDES. Antes de tudo, queriam superlucrar com o
monopólio da distribuição e geração de eletricidade - ou seja, queriam o aumento
das tarifas de energia. Daí, a mudança no modo de reajuste, até então baseado
nos custos reais das empresas, para o "teto do preço" (uma tradução do inglês "price
cap"), que descrevemos em nosso artigo anterior.
Este foi o primeiro e supremo "incentivo" para a privatização das empresas de
eletricidade.
De passagem, observemos que o autor que
citamos confirma inteiramente duas denúncias que nós (e outros) fizemos na época
dessas privatizações:
1) o governo Fernando Henrique chantageou
os governos estaduais - sufocados, em consequência dos juros altos, pela dívida
pública - para que privatizassem as distribuidoras de energia. Diz o
privatizador: "o BNDES ofereceria empréstimos garantidos por receita futura
para os governos estaduais que aprovassem leis de privatização, aceitando como
garantia um bloco acionário de controle da(s) empresa(s) objeto da privatização.
Se, posteriormente, o governo estadual não privatizasse a empresa, o BNDES
iria cobrar o empréstimo, tomar posse das ações e privatizar a empresa. O
segundo incentivo (sic) concedido pelo governo federal relacionava-se ao
processo global do reescalonamento da dívida entre os governos estaduais e o
governo federal. (....) o reescalonamento incluiu apenas 80% das dívidas em
aberto, com os 20% restantes a serem pagos com antecedência em ativos
físicos. A única opção para a maioria dos governos foi a de repassar para o
governo federal o controle de suas empresas públicas ou a receita obtida da
privatização" (Kawall Ferreira, op. cit., págs. 209-211, grifos nossos).
2) a privatização das empresas de
eletricidade foi inteiramente comandada de fora - isto é, a partir dos EUA. Diz
ele: "No início de 1996, a Eletrobrás contratou a firma americana de
consultoria e contabilidade Coopers & Lybrand, através de licitação [o autor
parece acreditar que as licitações têm o condão de transformar crimes em
virtudes], para projetar um novo modelo para o setor elétrico no Brasil.
(....) isso não impediu que o governo federal e alguns governos estaduais
começassem a privatizar as empresas de distribuição por conta própria. No
entanto, um novo modelo era crucial para a privatização de ativos de geração de
energia elétrica" (Kawall Ferreira, op. cit., pág. 198, grifos nossos).
O autor parece ter a opinião de que o
modelo dos americanos ainda era muito estatista, pois acha "polêmico" que a
Coopers & Lybrand tenha sugerido "a manutenção da Eletrobrás como o Agente
Financeiro (AFS) para o setor elétrico" (Kawall Ferreira, op. cit., pág.
202).
Porém, deixando de lado o ridículo, o que
importa é que o modelo atual, com algumas modificações (para melhor,
introduzidas no governo Lula) é o da Coopers & Lybrand: uma encenação de
mercado, com o monopólio privado sangrando os consumidores e as geradoras de
energia estatais.
APAGÃO
Sobre as últimas, é necessário observar que
esse modelo é tão desastroso que, em apenas dois anos de privatização consumada
e tarifas gigantescas, levou ao apagão (aliás, reduzindo a pó todas as odes à
privatização do setor elétrico). Isso cortou qualquer espaço político para a
privatização de outras geradoras de energia. Na época, Furnas era chamada de
"bola da vez".
Trata-se de um modelo, portanto, em que,
supostamente, era necessário privatizar para resolver o problema energético do
país - mas, para enfrentar uma crise de energia, foi necessário acabar com a
privatização...
Olhemos outra vez a tabela desta página: 19
distribuidoras de energia e 4 geradoras (Cachoeira Dourada, que era a parte mais
lucrativa da Companhia de Eletricidade de Goiás; Gerasul, a parte mais lucrativa
da Eletrosul; CESP Paranapanema e CESP Tietê, não por coincidência, a parte mais
lucrativa da CESP).
O capital nacional, ainda que seja aquele
tipo de capital com pretensões monopolistas, ficou na beirada, com apenas 6
empresas - se contarmos, entre elas, a CEEE Norte-Nordeste, que foi adquirida em
sociedade com uma corporação norte-americana. Para que as empresas estrangeiras
tomassem essas estatais, receberam variados financiamentos do BNDES, nenhum
abaixo de 50% do "lance mínimo". No caso da Eletropaulo, o BNDES financiou 100%
da compra pelos aventureiros da AES - que não pagaram nem a primeira parcela
desse empréstimo. Hoje, eles se sustentam no controle da empresa porque o BNDES
adquiriu 49,5% das ações da Eletropaulo, isto é, o suficiente para manter o
controle nas mãos da AES.
[Um pequeno interlúdio: mais recentemente,
quando foi marginalizado por um consórcio encabeçado pela multinacional francesa
Suez na construção e concessão da Usina de Jirau, no rio Madeira, o empresário
Antonio Ermírio de Moraes protestou contra os empréstimos do BNDES às
multinacionais: "nós somos pobres; eles são ricos". É verdade - e, ainda que o
empresário não tenha se lembrado disso durante o governo Fernando Henrique, é
muito positiva essa descoberta.]
As mudanças até agora introduzidas nesse
modelo, ainda que o tenham melhorado em aspectos secundários, não alteraram a
sua essência. No entanto, é impossível resolver o problema energético do país
sem tocar nessa essência. Além do colossal aumento nas tarifas, que arrancam o
couro do consumidor, "se essas soluções [emergenciais] são necessárias mesmo
a baixas taxas de crescimento, é evidente que esse modelo nunca será capaz de
garantir energia para taxas altas de crescimento" (Galvão dos Santos, G.A.;
Kaplan Barbosa, E.; Sanches da Silva, J.F.; Silva de Abreu, R., “Por que as
tarifas foram para os céus?”, Revista do BNDES, V. 14, N. 29, p. 435-474,
junho/2008).
CARLOS LOPES

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