|
Otavinho revela que Serra comprou 17 milhões de votos
Bastou a gente dar algum refresco pro Otavinho
(afinal, o Civita é um bandido de coturno mais alto) que o rapaz resolveu fazer
das suas. Primeiro, usando a editora da família, lançou um livro de "ensaios
culturais" (cáspite!). Depois, no último domingo, colocou como garrafal manchete
no jornal também da família: "17 milhões de brasileiros admitem ter vendido
voto".
A suposta notícia é uma pesquisa, do instituto
também da família do Otavinho, o Datafolha, que perguntou a alguns pesquisados
(não há menção de quantos e, até a manhã de segunda-feira, quando escrevemos
esta nota, a pesquisa não havia sido publicada no site do instituto): “alguma
vez você votou em alguém em troca de alguma coisa?". Segundo o Otavinho, 13%
responderam que sim. Logo, como o Brasil tem 132 milhões de eleitores, 17
milhões deles venderam seu voto.
Diante de uma pergunta dessas, o milagre é que
100% não tenham respondido "sim". Evidentemente, ninguém sai de casa para votar
pelo libidinoso prazer de enfiar a cédula na urna - exceto alguns pervertidos,
provavelmente fetichistas da cédula (ou da urna).
Aliás, com a urna eletrônica, até esse prazer
foi negado aos pervertidos.
Porém, isso foi suficiente (com outras perguntas
mais viciadas ainda) para encher completamente 9 (nove) páginas de jornal, quase
locupletando todo o soporífero caderno "Mais". De quebra, fazendo sábias
considerações sobre o nada - isto é, sobre a pesquisa do Otavinho - estão os
mesmos acadêmicos de sempre, daquele tipo que não pode ver nem luz de geladeira
que logo confundem com os refletores da mídia.
Tudo para provar (perdoe o leitor o uso desse
termo) que a eleição de Lula foi ilegítima. Deve ter sido a compra de votos que
decidiu a eleição contra Serra e Alckmim, que, como todos sabem, fizeram uma
campanha muito mais pobre que a de Lula... E, como já notaram alguns, também
para preparar uma farsa futura, se Serra der outra vez com os burros n'água, que
Deus seja louvado.
Mas, além dos acadêmicos, um preposto do
Otavinho recorreu, veja só o leitor, a Lima Barreto, para mostrar como esse
nosso povo é ordinário. Lima Barreto, do ponto de vista político, não era
brilhante - mas, além de escrever uma obra-prima literária ("Clara dos Anjos"),
era um inimigo jurado dos barões de imprensa, o que lhe garantiu sua quase
completa exclusão desses jornais por mais de 40 anos após a sua morte. Somente
na década de 60 do século passado, sua condição de grande escritor viria a ser
reconhecida por esses canalhas. Não há dúvida sobre quem Lima Barreto achava que
era a fonte de corrupção no Brasil.
Fora isso, há uma catilinária sobre a corrupção
dos brasileiros porque, por exemplo, "31% dos entrevistados colaram em provas ou
concursos (49% entre os jovens); 27% receberam troco a mais e não devolveram;
26% admitiram passar o sinal vermelho; 14% assumiram parar carro em fila dupla".
Deve ser o povo mais honesto do mundo. Mas pode
ser que a gente esteja de má vontade com o Otavinho: será que ele resolveu
denunciar o Serra?
C.L.
|