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Isolamento faz
Micheletti suspender estado de sítio
A queda do estado de
sítio irá permitir que as negociações para o retorno ao poder do presidente
Zelaya se deem com o povo nas ruas e a volta das transmissões da rádio Globo
e do canal 36 de TV que defendem a legalidade
Isolado interna e externamente, o golpista Roberto Micheletti anunciou na
segunda-feira dia 5 a revogação do estado de sítio em Honduras e, na maior
cara de pau, inclusive disse que iria “punir” quem seqüestrou e expulsou do
país o presidente Manuel Zelaya. Isto é, ele próprio. A revogação era uma
das condições do presidente legítimo, que está abrigado na embaixada
brasileira, para o diálogo que será conduzido em Tegucigalpa a partir desta
quarta-feira por uma missão da OEA. Por modéstia, Micheletti não antecipou o
que vai acontecer com o falsário que produziu, e apresentou no Congresso, a
famosa “carta de renúncia”.
A queda do estado de sítio irá permitir que as negociações para o retorno ao
poder do presidente Zelaya se dêem com o povo nas ruas e a volta das
transmissões da rádio Globo e do canal 36 de TV que defendem a legalidade. A
resistência ao golpe completou 100 dias, período em que os golpistas não
conseguiram o reconhecimento de sequer um governo no mundo inteiro, foram
rechaçados na ONU e na OEA, e no qual a mobilização do povo hondurenho pelo
retorno de Zelaya jamais cessou. A decretação do estado de exceção saiu pela
culatra, com o golpismo ficando ainda mais abertamente golpista, e mais
isolado. A farsa das eleições sob golpe ficou mais escancarada com o estado
de sítio, ameaçando os candidatos inscritos com a perspectiva de ninguém os
reconhecer. O país foi atingido pela paralisia econômica. Setores
empresariais hondurenhos, que surfa-ram no golpe, começaram a mudar de
conversa.
“ALGO POSITIVO”
Conforme o jornal mexicano “La Jornada”, o empresário Miguel Facussé, um dos
cabeças da maior associação empresarial hondurenha, de quem se diz que
emprestou o avião para tirar a chanceler Patrícia Rodas do país, apontou que
“é preciso pôr Micheletti e Mel Zelaya para conversar, dali há de sair algo,
creio, positivo”. “Há um mês atrás ele não queria nem saber de Zelaya”,
ressaltou o jornal. A Câmara de Comércio e Indústria do departamento
(estado) de Cortés, cuja capital é a segunda cidade do país, e a única onde
existe indústria, cobrou a revogação do decreto que “restringe os direitos
humanos básicos e o processo eleitoral atual”.
De acordo com declarações do deputado Marvin Ponce, do Partido Unificação
Democrática, “os empresários do norte estão de acordo com o retorno de
Zelaya, enquanto os do Conselho Hondurenho da Empresa Privada estão contra”.
Nem todos estão tão contra agora, como visto nas declarações de Facussé. Há
ainda empresários que jamais retiraram o apoio a Zelaya – nos termos do “La
Jornada” – “o também poderoso Jaime Rosenthal”, dono do jornal “Tiempo”.
O congresso hondurenho, que havia carimbado a derrubada do presidente, agora
se manifestou pela revogação do estado de sítio. Assim, a tentativa de
Micheletti de jogar no colo dos militares o “erro” do banimento de Zelaya e
consequente ascensão sua ao poder é bem sintomática da desagregação que
atinge as fileiras dos golpistas. Ainda de acordo com o “La Jornada”, o
comando militar hondurenho participou na semana passada da reunião sigilosa
man-tida, numa base dos EUA, entre o secretário-geral da OEA José Miguel
Insulza, e Micheletti. O deputado Ponce também se referiu a algumas
propostas de remendo, como a de que “Micheletti e Zelaya abram mão” em prol
de um terceiro: “seria só mudar de golpista”. Uma eleição sem o retorno de
Zelaya à presidência também seria só outro jeito de “mudar de golpista”.
Já a Frente de Resistência ao Golpe, que havia exigido a revogação do estado
de sítio, pediu o fim do cerco da ditadura à embaixada brasileira, para que
seja possível a negociação, aasim como a libertação dos presos políticos. A
Frente também não abre mão de levar adiante, nos dias restantes de mandato
de Zelaya e depois, a luta pela convocação de uma Assembléia Nacional
Constituinte. Uma constituinte que escreva uma nova carta magna, diferente
da que foi imposta a Honduras nos anos 80, sob o vice-rei Negroponte,
embaixador norte-americano e personagem do escândalo Irã-Contras. Época em
que Honduras era conhecida como “um porta-aviões dos EUA na América Central”
e campo de teste da tortura da CIA, e na qual agia o esquadrão da morte 316,
treinado na “Escola das Américas”. Atualmente Negro-ponte, após deixar o
Iraque, é vice-presidente de um dos maiores escritórios de lobby de
Washington, que representa a Chiquita, nome de fantasia da famigerada United
“Banana” Fruits.
ANTONIO PIMENTA |