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Canto de Mercedes Sosa inspirou resistência à tirania
Mercedes Sosa nasceu em 9 de julho de 1935, filha de uma
família de camponeses pobres que trabalhavam na produção de cana-de-açúcar,
em Tucuman, uma província do noroeste da Argentina. Aos 15 anos, estimulada
por amigos, Mercedes ganhou um concurso da rádio em sua cidade natal, sob o
pseudônimo de Gladys Osorio. Era o início de uma carreira vitoriosa e de sua
luta incansável a favor dos perseguidos e discriminados do continente.
Chamada carinhosamente pelos argentinos de “La Negra” - por sua ascendência
indígena -, ela incendiou os corações da juventude em todo o mundo com seu
canto de resistência. Desde a tenra idade se ligou às tradições populares,
tornando-se a principal porta-voz da música latino-americana. “Mi meta es
cantar para la gente del pueblo”, dizia. E o seu canto “para o povo”
transformou-se num “terror” para as tiranias impostas ao cone sul.
Num show em 1977, no Rio de Janeiro, em plena ditadura, ela comoveu um
auditório lotado na zona sul da cidade com seu vibrante repertório. Logo no
início, “Hermano Dame Tu Mano”, “Graças a La Vida”, “Cancion de Amor a Mi
Pátria”. Um verdadeiro grito de guerra! Os tambores marcavam o ritmo da
batalha. A platéia, uma mistura de argentinos, brasileiros e chilenos, não
se fez de rogada: “Abaixo a ditadura!”, “Viva a Argentina!”, “Fora Pinochett”,
“Liberdade!”, bradaram em uníssono. O canto de Mercedes mostrou ali toda sua
força. Uniu a todos, independente da nacionalidade, na luta contra a
prepotência dos regimes títeres dos EUA, implantados na América Latina.
Peronista desde a adolescência, Mercedes foi duramente perseguida pela
ditadura argentina. Em 1979, após perder seu marido, foi presa juntamente
com uma platéia de 200 estudantes enquanto cantava na cidade universitária
de La Plata. Libertada, fruto da pressão internacional, foi obrigada a
abandonar sua terra natal. Retornou à Argentina em 1982, quando a ditadura
vivia seus últimos estertores.
Mantendo a coerência política manifestou um forte repúdio ao entreguista
Carlos Menem, traidor do peronismo e dos argentinos. Depois da devastação
neoliberal, empunhou sua voz na luta pela reconstrução do país. Apoiou a
eleição do ex-presidente Néstor Kirchner e de sua sucessora, Cristina, atual
presidente da Argentina. Era uma entusiasta da unidade da América Latina.
“Eu não escolhi cantar para as pessoas. A vida me escolheu para cantar”,
afirmou ela, em entrevista recente para a TV. No Brasil seus principais
parceiros foram Chico Buarque e Milton Nascimento.
Viveu até os 74 anos, 59 dos quais como artista. Produziu cerca de 50
álbuns, entre gravações de estúdio e shows ao vivo. Deixa um impressionante
legado musical. Seu canto certamente servirá de pano de fundo para as
reuniões da Unasul, a União das Nações da América do Sul, que ela tanto
sonhou. Milhares de argentinos foram até o salão dos Passos Perdidos, no
Congresso da Nação, no domingo para se despedirem de Mercedes. A cantora
pediu para ser cremada e as cinzas espalhadas na cidade natal, Tucumán, em
Mendoza e na capital Buenos Aires.
A presidente Cristina Kirchner decretou luto oficial pela morte da artista.
O decreto da Casa Rosada diz que Mercedes “esteve sempre de mãos dadas com
um forte compromisso social”. O texto recorda que “esse compromisso social
lhe causaria na década de 70 a perseguição da ditadura, a prisão e o
exílio”.
S.C.
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