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O caminho para a
Revolução de 30 (2)
Os dois cinco de
julho - o levante do Forte, em 1922, e a revolução de 1924 - e a sua
continuação, a Coluna Prestes, que, na maior marcha militar da História mundial,
percorreu 30.000 km sem que a oligarquia conseguisse derrotá-la, foram o toque
de alvorada de um novo Brasil, o sinal mais claro, ardente, cristalino,
eloquente, de que o servilismo ao capital inglês, a drenagem de recursos para um
único setor, a submissão da sociedade aos interesses de uma minoria, cada vez
mais antagônicos aos do conjunto do país, não eram mais suportáveis - havia, em
verdade, se exaurido, podendo esperar-se desse domínio apenas retrocesso e
atrofia. Portanto, tinha de chegar ao fim
CARLOS LOPES
Continuação da
edição anterior
Em 1918, com o fim da I Guerra Mundial, terminaram as
restrições às importações. Os governos que se seguiram ao de Wenceslau Braz e à
breve interinidade de Delfim Moreira – devida ao falecimento, antes da posse, de
Rodrigues Alves - debatem-se com uma crise interna de proporções cada vez
maiores.
A própria carência
de quadros para ocupar a Presidência é um reflexo – aliás, impressionante – do
esgotamento do domínio da oligarquia cafeeira. Depois de ser obrigada a apoiar
Ruy contra Hermes – e ser derrotada, dando ao gaúcho Pinheiro Machado a
predominância na política nacional num momento em que revoltas se espalhavam
pelos Estados - a oligarquia cafeeira não tem alternativa para suceder ao
marechal senão ceder outra vez a Presidência, dessa vez ao mineiro Wenceslau
Braz, vice-presidente que se havia recolhido a Itajubá, desaparecendo da vida
pública durante os quatro anos do governo de Hermes.
Quatro anos depois,
para suceder Wenceslau, não há solução melhor do que retirar o ex-presidente
Rodrigues Alves, idoso e doente, de seu retiro em Guaratinguetá. A probabilidade
de que não terminasse o mandato é lembrada por vários próceres da República
Velha, inclusive pelos de São Paulo. Mesmo assim, para seu vice foi designado o
governador de Minas, Delfim Moreira – que era até então um dos candidatos à
Presidência, apesar de já apresentar sintomas de demência.
Rodrigues Alves
faleceu antes da posse. Afastado Delfim Moreira, mais uma vez não se encontrou
um político pertencente à oligarquia predominante para fazê-lo presidente. A
solução – desta vez contra a candidatura de Ruy Barbosa – para evitar um
conflito entre as oligarquias foi recorrer a um político de um Estado pequeno e
sem participação na luta pelo poder, o paraibano Epitácio Pessoa. Terminado o
mandato de Epitácio, para enfrentar Nilo Peçanha, agora candidato da oposição,
foi ao governador mineiro, Artur Bernardes, que se recorreu.
Nem mesmo o sucessor
de Bernardes, Washington Luiz, apesar de ex-prefeito da capital e ex-governador
do Estado de São Paulo, era um genuíno membro da oligarquia cafeeira. Washington
foi uma espécie de reforço, a coisa mais próxima de “sangue novo” que a anêmica
oligarquia conseguiu absorver, uma vez que, fluminense de Macaé, onde começou
sua vida pública, atravessou a divisa com São Paulo para estabelecer-se em
Batatais.
Sob o mesmo aspecto,
isto é, a sucessão presidencial, bastava haver um candidato oposicionista para
que o pavor se instalasse na situação – depois, Getúlio se referiria a isso como
uma demonstração da falência do antigo regime. Foi assim nas duas vezes em que
Ruy Barbosa foi o candidato da oposição, mesmo quando a oligarquia cafeeira o
apoiou, e também quando o candidato oposicionista foi Nilo Peçanha - para não
falar na eleição em que Getúlio foi candidato. Mesmo com eleições de fancaria,
todo o sistema de dominação oligárquica tremia, com as candidaturas de oposição
reunindo sempre multidões impressionantes - e à beira da revolta.
O Brasil já não
cabia mais na estreita moldura da dependência oligárquica à matriz londrina. No
entanto, é ela, a oligarquia cafeeira, que continua determinando a política
econômica do governo, ainda que tivesse de recorrer repetidamente a políticos
fora de seu meio para conservar o poder.
Em 1924, o surto
industrial iniciado durante a I Guerra entra em colapso. Os motivos,
resumidamente, são: a subordinação ao capital inglês, com o escancaramento de
nossas fronteiras comerciais aos produtos industriais ingleses, arrasando com a
produção nacional; a política de “valorização” do café, que drena para esse
setor a maior parte dos recursos internos, sobretudo os recursos públicos; a
predominância da grande propriedade rural como principal unidade de produção da
economia, o que restringe o mercado interno. Como consequência da hegemonia da
oligarquia cafeeira sobre o Estado, é mantida a ferro e a fogo uma política
econômica hostil à indústria.
O resultado é o
definhamento das iniciativas e empreendimentos industriais, sem financiamento e
enfrentando a invasão das mercadorias importadas; a economia com centro no
campo, no momento em que a população das cidades aumentava rapidamente; o
desemprego urbano crescente; a inflação causada pela urbanização sem produção e
pela política de “valorização” do café; a burguesia industrial impedida de
crescer e, até mesmo, sob ameaça de regressão; as camadas médias urbanas e a
classe operária acicatadas pelo desemprego; a política inteiramente dominada
pelo voto de cabresto, pelos interesses mesquinhos do coronelismo local, com o
parlamento dominado pelas “comissões de reconhecimento de mandato”, que
eliminavam os poucos que conseguiam furar o bloqueio e serem eleitos, apesar do
fraudulento sistema eleitoral. Não há nenhum sistema nacional de educação ou
saúde públicas, em que pesem os esforços e iniciativas abnegadas de alguns
grandes homens, do qual é exemplo Oswaldo Cruz.
Juntamente com isso,
a partir do final do governo Floriano e, principalmente, depois do governo
Hermes da Fonseca, teve início um processo de marginalização do Exército e da
Marinha, onde estava boa parte da intelectualidade jovem do país. As Forças
Armadas são vistas - com razão - como um risco para a oligarquia dominante. Sua
formação, essencialmente patriótica, com origem nas revoluções da Independência
e da República, chocava-se inevitavelmente com a política de atraso para manter
a submissão aos centros externos.
Assim, o Estado
oligárquico se apoia cada vez mais sobre as milícias particulares das
oligarquias estaduais. As “forças públicas”,“brigadas” e outros contingentes são
melhor equipadas do que as forças armadas nacionais - o que seria quase fatal
para a oligarquia na revolução de 1924, quando, sob o comando de Miguel Costa, a
tropa melhor armada e adestrada do país, a Força Pública de São Paulo, ficou do
lado dos tenentes.
A revolta do Forte
de Copacabana, em 1922, foi o troar das insatisfações há muito tempo acumuladas
pelo freio às aspirações de progresso, desenvolvimento e justiça do povo
brasileiro.
A partir daí, o
“tenentismo” e sua luta tornaram-se os representantes de toda a sociedade
brasileira, dos empresários industriais, dos intelectuais e dos operários –
que, em São Paulo, durante um mês sob selvagem bombardeio de artilharia pesada,
a que a oligarquia submeteu os bairros populares em 1924, lutou sem esmorecer,
sem que fosse registrada uma única queixa ou protesto.
Os dois cinco de
julho - o levante do Forte, em 1922, e a revolução de 1924 - e a sua
continuação, a Coluna Prestes, que, na maior marcha militar da História mundial,
percorreu 30.000 km sem que a oligarquia conseguisse derrotá-la, foram o toque
de alvorada de um novo Brasil, o sinal mais absolutamente claro, ardente,
cristalino, eloquente, de que o servilismo ao capital inglês, a drenagem de
recursos para um único setor, a submissão da sociedade aos interesses de uma
minoria, cada vez mais antagônicos aos do conjunto do país, não eram mais
suportáveis - havia, em verdade, se exaurido, podendo esperar-se desse domínio
apenas retrocesso e atrofia. Portanto, tinha de chegar ao fim.
No entanto, antes
que o fim chegasse, a repressão mais impiedosa se abateu sobre o país, a
perseguição e a vingança tornaram-se estilo de governo. Quando Epitácio Pessoa
assumiu a Presidência, não conseguiu encontrar para ministro da Guerra um
oficial-general que implementasse incondicionalmente – e tivesse liderança para
fazê-lo - a repressão sobre o povo e seus camaradas de armas. É obrigado,
então, a nomear um civil, uma relíquia ideológica da oligarquia, Pandiá
Calógeras, para a tarefa.
No primeiro cinco de
julho, em 1922, além dos melhores oficiais jovens do Exército, também um
ex-presidente da República, marechal, famoso na Guerra do Paraguai por ter
tomado Assunção, e presidente do Clube Militar, Hermes da Fonseca, se levantou
contra o regime, o que lhe custou a prisão – e a de todos os seus filhos, irmãos
e parentes, com duas únicas exceções.
O marechal, que como
ministro da Guerra e como presidente tinha sido o reformador da força armada
terrestre, e era aclamado pela oficialidade jovem como “o chefe do Exército
Brasileiro”, só sairia da prisão um ano depois, em estado grave, para morrer em
seguida.
O segundo cinco de
julho – a revolução de 1924 - foi o réquiem da República Velha. Em poucos dias,
São Paulo foi tomada e a revolução se alastrou pelo país, inclusive com a tomada
do poder local em vários Estados, sempre com um impressionante apoio popular. No
Rio, sob a liderança dos comandantes Augusto do Amaral Peixoto e Hercolino
Cascardo, uma parte da esquadra se uniu à revolução e, contra todas as
dificuldades, o encouraçado São Paulo, sob controle dos revolucionários, se faz
ao mar. Ele e o encouraçado Minas Gerais são as principais unidades da Marinha.
Devido à falta de
comunicações, os revolucionários de cada Estado não sabem das vitórias
conquistadas em outros. No entanto, a oligarquia não conseguiu retomar a sua
própria capital, São Paulo. Em meio a um dos mais rigorosos invernos já sentidos
em São Paulo, com uma maciça participação popular, a revolução conseguiu conter
as tropas do governo na linha de frente da rua do Lavapés, entre os bairros do
Cambuci e da Aclimação. Então, a oligarquia passa a arrasar a própria cidade que
considerava até então como seu ninho. A artilharia pesada foi assestada contra
os bairros populares, destruindo casas e fábricas. Sob protestos do empresariado
– até mesmo dos ingleses, que têm suas fábricas atingidas – o bombardeio
continuou por dias e dias. Os revolucionários, para evitar a continuação das
mortes e da fome causada pelo bloqueio da cidade, decidiram retirar-se para o
interior. Essa retirada foi um notável feito militar – cercados pelo governo, os
revolucionários rompem o cerco várias vezes, até atingir Foz do Iguaçu, no
Paraná.
Ao mesmo tempo, no
Rio Grande do Sul, a oficialidade jovem também se revoltava. Comandados pelo
capitão Luís Carlos Prestes, seu objetivo é chegar a Foz do Iguaçu, mas têm que
enfrentar uma tropa muito superior em número e armamento, que fecha o caminho. O
governo não consegue um oficial-general de sua confiança para comandar as
tropas. A solução foi nomear Rondon, que tinha dedicado sua vida a explorar a
selva do país, mas jamais havia sido comandante de exército. As tropas
comandadas por Prestes rompem o cerco e chegam a Foz do Iguaçu. É decidida então
a continuação da revolução: da junção entre os revolucionários que vinham de São
Paulo e dos que vinham do Rio Grande do Sul, nasceu a Coluna que nunca iria ser
derrotada, comandada por Miguel Costa, tendo Prestes como chefe de Estado Maior,
Juarez Távora como adjunto de Prestes e João Alberto, Siqueira Campos, Cordeiro
de Farias e Djalma Dutra como chefes de destacamento1.
De 1924 em diante,
os heróis populares são os tenentes, que encarnam o Brasil verdadeiro contra a
ficção senil mantida pela oligarquia.
Até mesmo as figuras
dessa última - as melhores - o reconheceram. Artur Bernardes, que governou
debaixo de estado de sítio e reprimiu a revolução de 24 e a Coluna, o sintetizou
ao dizer que “como presidente, não fui mais que um chefe de polícia”.
Era impossível
prolongar a sobrevida daquele regime, exceto pela força bruta pura e simples,
pois lhe faltava já qualquer legitimidade diante do povo. Cercado pela multidão
que atirava pedras, Bernardes, após cumprir seu mandato, foi obrigado a fugir
pela porta dos fundos do Senado, de onde foi para o exterior.
No entanto,
Bernardes resistiu não apenas à revolução: a missão de banqueiros ingleses que
esteve no Brasil para “aconselhar” o governo na gestão da economia, produziu um
documento, o denominado “pacote inglês”2,
em que, para garantir as transferências de recursos por conta do endividamento
externo, propunha a entrega do Banco do Brasil e da Central do Brasil,
praticamente as únicas empresas estatais existentes na época. Bernardes não
executou as recomendações dos ingleses, ainda que haja transigido com seus
interesses.
O sucessor de
Bernardes, Washington Luiz, render-se-ia aos bancos londrinos. Ficaria na
História como o presidente que declarou que “a questão social não é mais do que
um problema de polícia”, e não conseguiu encerrar o seu mandato - deposto, preso
e exilado na Europa.
À crise que desde o
início da década de 20 assolava o Brasil como consequência do domínio da
oligarquia cafeeira e do imperialismo inglês, somou-se dramaticamente a crise do
capitalismo mundial, em 1929.
Desde 1925 as
exportações de café haviam estagnado, enquanto a produção interna crescera 100%,
com a formação de imensos estoques - em 1929 o valor deles atingia 10% do PIB
brasileiro - comprados pelo governo com empréstimos externos. Enquanto isso,
entre 1920 e 1929, a quantidade total de importações cresceu 100%, e a das
exportações, somente 10%3.
Quando a crise
explodiu, no último trimestre de 1929, o preço do café foi para o fundo do
abismo: em seis meses, de 22,5 centavos de dólar por libra [1 libra = 0,45 kg],
caiu para 8 centavos de dólar por libra4.
Em poucos meses, com
a manutenção da política de “valorização” do café - isto é, a compra pelo
governo dos encalhes, com a formação de gigantescos estoques -, no mesmo momento
em que não só secavam os empréstimos externos, mas os banqueiros ingleses, em
desespero, passavam a cobrar a dívida, as reservas cambiais brasileiras desceram
a zero5.
Quando Getúlio assumiu a Presidência, há meses o país não contava com um único
centavo em suas reservas.
A crise assolava,
invadia e imergia todos os setores da Nação: num país que importava a maior
parte dos produtos industriais, a desvalorização da nossa moeda provocou uma
alta generalizada nas mercadorias importadas, tanto as destinadas à nascente
indústria – máquinas e insumos - quanto às destinadas ao consumo. O resultado
foi a explosão das falências, o aumento ainda maior e mais insuportável do
desemprego, da miséria e da fome, com a insatisfação generalizada de todos os
setores da sociedade.
Continua na
próxima edição.
Notas
1
Lourenço Moreira Lima, “A Coluna Prestes – Marchas e Combates”.
2
Domingos Meirelles, “A Noite das Grandes Fogueiras”.
3
Celso Furtado, “Formação Econômica do Brasil”.
4
Idem.
5
Idem. |