SuperVia atrasa, cobra caro, chicoteia e parasita o Estado

Passageiros se revoltam com o descaso da ferrovia privatizada por FHC e Marcelo Alencar

Segundo o porta-voz da SuperVia - o “consórcio” que explora a malha ferroviária do Rio de Janeiro depois da privatização - os passageiros se revoltaram na quarta-feira, ao longo de uma distância tão grande quanto a que separa as estações de Mesquita e Deodoro ou Engenho de Dentro, porque eram muito bem tratados.

É a única explicação possível, pois, segundo o sujeito, “a interrupção durou apenas 12 minutos. Temos uma regularidade de 99% em nossos trens, bem como uma pontualidade de 90% a 92%”. Impressionante! Todas aquelas pessoas que estavam indo para o trabalho, e que não conseguiram conter sua fúria, ocupando linhas férreas e estações durante pelo menos seis horas, deviam ser malucas.

Parece até que essa é a primeira vez que trabalhadores se revoltam contra a SuperVia – aquela que até há alguns meses chicoteava os passageiros para comprimi-los nos vagões (v. HP, 17/04/2009).

Na quarta-feira, passageiros relataram: “eles jogaram balde de cloro, deram tiros pro alto, bateram nos passageiros”. Outro passageiro contou: “eu vim da Central para Austin, mas só aqui o maquinista avisou que o trem ia voltar para a Central porque a condução estaria suspensa no ramal de Japeri. Eles esperam a gente pagar passagem lá para só aqui a gente ficar sabendo”. Para leitores de outros Estados: a Central fica no centro da cidade do Rio; Austin, na Baixada Fluminense, muito longe da Central.

Uma jovem descreveu: “os trens estão sempre atrasados, não dá nem para respirar lá dentro, de tanta gente”. Uma senhora, com um bebê nos braços, disse: “eu ia levar minha filha no médico. Não tenho condição de pegar outra condução. Eu vou pegar um dinheiro emprestado”.

Sintetizando em poucas palavras: 30 mil pessoas ficaram impossibilitadas de chegar no horário ao trabalho – ou a outro compromisso. Os órgãos de mídia que se esforçaram por pintar a população revoltada como um grupelho de marginais parecem compostos de vagabundos que nunca trabalharam. Na verdade, essa gente nunca precisou tomar um trem para trabalhar, muito menos um da SuperVia.

“A fúria dos mansos é terrível”, escreveu uma vez o general e historiador carioca Nelson Werneck Sodré. A SuperVia teve muita sorte na quarta-feira. Pelos atrasos dos trens, pela sua escassez, pelo mau estado da maior parte deles e pela forma como trata os passageiros, a reação destes foi até moderada. Mais ainda porque os delitos da SuperVia não são apenas estes.

Não estamos nos referindo apenas à elevação absurda dos preços das passagens. Desde a fundação da Central do Brasil (1858) e da Leopoldina (1897), as passagens de trem eram bem mais baratas que as de outros meios de transporte, pois os custos por passageiro são menores. A tarifa atual da SuperVia é um assalto, mais ainda considerando a qualidade do serviço: R$ 2,50 (unitária, isto é, sem complemento de metrô ou ônibus, casos em que pode ir a R$ 3,50). A privatização não baseia seus preços nos custos, mas nos lucros dos usurpadores.

A SuperVia é uma associação, através de um emaranhado de pessoas jurídicas de nome bem característico (Rio Trens Corporation, Rio Rail Partners, The Transportation Infras-truture Equity Fund, Rio Trens Fund, Electra International Brazil, etc.) entre fundos especulativos americanos e ingleses (Electra Investment Trust, General Eletric Invest-ments), um ou outro brasileiro, e a Construcciones y Auxiliares de Ferrocarriles, da Espanha.

É difícil saber quem manda nesse ninho de cobras, mas, segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (ANBID), onde a SuperVia é obrigada a registrar certas operações, “a maioria dos acionistas (….) é composta de investidores institucionais estrangeiros de mercado” - isto é, de especuladores externos.

A malha ferroviária urbana do Rio de Janeiro foi privatizada por R$ 30 milhões (o governo Marcelo Alencar, a quem Fernando Henrique entregou a malha ferroviária do Rio para privatizá-la, estabeleceu R$ 279,7 milhões como preço, mas fez um acordo pelo qual os compradores “investiriam” R$ 250 milhões, ao invés de pagá-los).

Antes que o leitor tenha a sensação de que digitamos errado a quantia, repetimos: os acumpliciados na SuperVia pagaram R$ 30 milhões por toda a malha ferroviária urbana do Rio de Janeiro – um valor que é metade do maior prêmio da Mega-Sena, e para levar a Central do Brasil e a Leopoldina eles não precisaram acertar seis números. Aliás, número nenhum. Foi muito mais fácil.

Com esse abatimento de 89,9% num preço já subestimado, por R$ 30 milhões eles se apossaram de 7 linhas, 224 km de trilhos, 58 trens e 88 estações que continuam as mesmas há 11 anos.

Não se viram os R$ 250 milhões de investimentos que trocaram pelo abatimento no preço das ferrovias. Depois disso, receberam recursos do Programa Estadual de Transportes (PET), embolsaram dinheiro do governo federal, e até cavaram empréstimos no Banco Mundial. E a porcaria continuou a mesma – se o leitor nos permite o uso de uma rude, mas justa expressão popular.

O governador Sérgio Cabral reconheceu que os trens são em número insuficiente e, em geral, ruins: “o nosso compromisso é até 2014 comprarmos 60 trens com ar-condicionado e a SuperVia reformar todos os demais trens”.

O incrível é que o Estado, e não a SuperVia, que recebe os lucros, tenha de comprar trens para uma ferrovia privatizada – mas, pela experiência do metrô do Rio, foi esse o “modelo” de privatização que os tucanos implantaram no governo Marcelo Alencar: o de roubar o Estado não uma única vez, mas infinitas vezes. Os ladrões mordem a carótida da população - e ficam com os lucros. Investimentos, somente se o Estado fizer – apesar deste não ter mais a posse do bem público. Assim, a população paga na tarifa e nos impostos para ser tratada como prisioneira em trânsito para um campo de concentração.

CARLOS LOPES
 


Primeira Página

 

Página 2

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Expediente

Página 3

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Página 4

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Cartas

Página 5

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Página 6

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Página 7

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Página 8

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