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France Telecom privatizada leva
funcionários ao suicídio
A
“reestruturação” com base na “administração do terror”, como denunciam
líderes sindicais, resultou no suicídio de 24 trabalhadores da empresa no
período de 19 meses, entre meados de fevereiro de 2008 e setembro último
O vice-presidente da France Telecom, Louis-Pierre Wenes, foi afastado do
cargo no dia 5 depois que foi responsabilizado pela execução de um sistema
de “reestruturação”, a partir de 2005, que obrigou 22 mil trabalhadores da
empresa a pedir demissão entre 2006 e 2008. A pressão para esse objetivo,
denunciada pelas centrais sindicais como “administração do terror”, provocou
24 suicídios de funcionários em 19 meses, de meados de fevereiro de 2008 a
setembro de 2009. A France Telecom, antes denominada Direction Generale de
Télécomunications, foi privatizada em 1998 durante o período em que Lionel
Jospin exercia o cargo de primeiro-ministro. Os dados sobre pedidos de
demissão deste ano não foram divulgados.
Nos dias 6 e 7, terça e quarta-feira, trabalhadores convocados por seis
centrais sindicais francesas realizaram manifestações por todo o país. As
maiores, que reuniram milhares de trabalhadores, ocorreram em Paris, Lion e
Marselha.
O último suicídio de trabalhador da France Telecom ocorreu no final de
setembro. Um funcionário que trabalhava em uma central telefônica na cidade
de Annecy, de 51 anos, se jogou de um viaduto em uma pista movimentada. Era
casado, pai de dois filhos e deixou uma carta afirmando que o clima no
trabalho o levara a tomar a decisão extrema.
Três semanas antes, um técnico em manutenção, que havia sido deslocado para
o setor de atendimento a clientes, com metas de atendimento sempre
crescentes, cortou o ventre com um punhal durante um encontro com 15 outros
funcionários da empresa. Ele sobreviveu e declarou: “Fiz isso por causa das
condições de trabalho na France Telecom”.
“Há um problema real ligado aos constantes deslocamentos durante os últimos
anos. Uma empresa pública passou a adotar uma administração de estilo
norte-americano, com cortes constantes de pessoal ”, declarou o dirigente da
CGT, Denis Capdevielle.
Um líder sindical na cidade de Annecy, Patrice Diochet, destacou: “É
vergonhoso. Ele estava trabalhando em condições insustentáveis. Uma
verdadeira indiferença, uma falta de humanidade. Estes diretores só sabem
falar de números e os trabalhadores são tratados como coisas”.
“Wenes foi quem trouxe a administração do terror, ele tem que partir”,
declarou Pierre Morville, da central CFE-CGC.
Patrice Diochet da central CFTC declarou que a demissão “foi um primeiro
passo” mas exigiu que “a France Telecom mude sua cultura administrativa”.
Sandrine Leroy, da Central Force Ouvriére, declarou que sem mudanças reais
dentro da empresa “a demissão seria apenas simbólica”.
O presidente, Didier Lombard, em negociações com as centrais, no mês de
setembro, em plena onda de suicídios, ofereceu apenas mudanças paliativas:
declarou que suspenderia os deslocamentos “até 31 de outubro” e contrataria
uma equipe de psicólogos.
Um vídeo que circulou na internet mostra Lombard em seminário sobre
administração no início do ano, declarando que os funcionários da France
Telecom precisam se adaptar a “um mercado em transformação” e exemplificou
que os funcionários “gastam muito de seu tempo na praia”.
Outra suicida foi uma operária de 32 anos que pulou da janela de um prédio
da empresa no dia 15 de setembro.
Uma outra funcionária, Gabrielle que trabalhava há 35 anos na empresa, nunca
se ausentou por doença mas acabou ruindo também e denunciou o “clima de
precariedade” na empresa depois de haver assumido três postos diferentes em
quatro anos e ser submetida a “terríveis entrevistas semestrais, nas quais,
objetivos anteriormente definidos eram sempre considerados insuficientes”.
“Sempre nos dizem que somos um custo muito alto, com o objetivo de nos
forçar a pedir demissão ao nos aproximarmos da idade de 50 anos e o pior é
que os chefes de setor são valorizados, promovidos, e se diz que recebem
prêmios em função do número de pessoas que fazem ir embora”, afirma
Gabrielle.
Um outro assalariado que se suicidou em Marselha, no dia 14 de julho havia
declarado estar sob “sobrecarga no trabalho e diante de uma administração
pelo terror”.
Enquanto espalha o terror para arrancar demissões “voluntárias” e submete os
trabalhadores a metas cada vez mais escorchantes, a administração da France
Telecom informou aos acionistas, no ano de 2008, a obtenção de US$ 5,8
bilhões de lucro e faturamento de 53,5 bilhões de dólares. Terceira em
telefonia móvel e primeira em banda larga na Europa, a France Telecom tem
186 milhões de usuários em 30 países.
NATHANIEL BRAIA |