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O caminho para a
Revolução de 30 (3)
Rompida a aliança
que tinha sustentado Washington Luiz e lançada, pelo governador mineiro, a
candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, esta se tornou o
desaguadouro de todas as insatisfações e esperanças de construir um Brasil
desenvolvido, independente e justo
CARLOS LOPES
Continuação da edição anterior
Diante da crise, e de seu aguçamento extremo, a
política do governo Washington Luiz foi a de tentar assegurar à oligarquia
cafeeira a continuação do paraíso artificial em que vivia, às custas da
coletividade, desde a primeira década do século. Seus lucros não tinham sido
afetados, apesar das crises periódicas que atingiam o comércio internacional,
porque era o conjunto da sociedade que arcava com os prejuízos decorrentes da
dependência à exportação de um único produto. Se o café não encontrava mercado
lá fora, ou se seu preço caía, o governo comprava o que não era vendido por
preço compensador, contraindo para isso empréstimos externos - pagos,
evidentemente, com o dinheiro dos impostos que toda a população pagava. Da mesma
forma, eram financiadas as importações dos bens de consumo para a oligarquia. A
dominação comercial externa era, assim, subordinada à dominação financeira
externa.
A crise exacerbou
violentamente a pilhagem sobre o país - Washington Luiz manteve as
transferências aos banqueiros, principalmente ingleses, desperdiçando reservas
cambiais e depois lançando mão das reservas em ouro. Literalmente, a política do
governo era a de promover a destruição do país para manter a submissão
financeira aos bancos externos.
Essa subserviência extremada foi a base
econômica do rompimento da política “café com leite”, que revezava, com os
percalços já referidos, paulistas e mineiros na Presidência da República. Não
havia mais como garantir a continuação da política da oligarquia cafeeira, senão
colocando outro representante direto seu como sucessor de Washington Luiz. Um
presidente mineiro ou de outro Estado não merecia confiança para dar
continuidade a uma política econômica que única e exclusivamente contemplava os
interesses da oligarquia dominante, em prejuízo das outras oligarquias locais.
Nas duras condições
que o país enfrentava depois que à crise interna somou-se a crise de 29, a
candidatura do governador - na época, “presidente da província” - de Minas,
Antônio Carlos, tinha esse sério defeito. Dificilmente Antônio Carlos
garantiria, ou poderia garantir, a pilhagem exacerbada e desesperada sobre todo
o país, inclusive sobre a oligarquia mineira, em prol do domínio cafeeiro. O que
explica o rompimento dos acordos anteriores, por Washington Luiz, para colocar
como candidato oficial o presidente de São Paulo, Júlio Prestes.
Porém, isso
significava que a oligarquia cafeeira optava por impor seu candidato contra
qualquer consideração da realidade. Era, a rigor, uma política desesperada para
não mudar o status quo – o que abriu uma situação revolucionária, aquela
em que “os de cima não podem mais seguir vivendo como até então; em que há um
agravamento fora do comum da miséria e dos sofrimentos das classes oprimidas; e
uma intensificação considerável, por estas causas, da atividade das massas”1.
Washington Luiz tinha sido candidato único à sucessão do mineiro Artur
Bernardes, com o seu apoio e o de todos os governadores. O mesmo não acontecerá
com Júlio Prestes.
Rompida a aliança
que tinha sustentado Washington Luiz e lançada, pelo governador mineiro, a
candidatura do governador do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, esta se tornou o
desaguadouro de todas as insatisfações e esperanças de construir um Brasil
desenvolvido, independente e justo.
A 2 de janeiro de
1930, na capital do país, Getúlio apresentou o seu programa - o programa da
frente que se chamava “Aliança Liberal”. Antes prevista para um local fechado, a
apresentação teve de ser feita em praça pública, na Esplanada do Castelo, pois o
governo havia conseguido que todos os auditórios estivessem fechados para a
candidatura da oposição.
Esperava-se o
comparecimento de uns poucos - a apresentação de um programa de governo, desde
Prudente de Moraes, nunca atraíra muita gente. Há quase dez anos, nem mesmo os
comícios dos candidatos a presidente atraíam gente, pois já se sabia o resultado
de antemão. Desde a candidatura de Nilo Peçanha contra Bernardes, praticamente
ninguém se interessava por comícios.
Quanto aos
programas, resumiam-se sempre à “salvação da lavoura”, expressão que passou para
o anedotário nacional e que não significava outra coisa senão a proteção dos
interesses cafeeiros às custas de todo o povo.
Mas, naquele segundo
dia de janeiro, compareceram mais de 100 mil pessoas, o que se repetiu dias
depois em São Paulo – a própria sede da oligarquia - numa época em que o Brasil
tinha menos de um terço dos habitantes de hoje2,
para não mencionar, o que seria uma comparação mais precisa, a população dessas
duas cidades. Evidentemente, não havia a atual tecnologia de som. Mesmo assim,
as milhares de pessoas que ocuparam o centro das duas principais cidades do país
aplaudiram as palavras do seu candidato, e o saudaram efusivamente ao final. Era
mais importante ser contra o estado de coisas existente do que ser a favor do
programa.
Porém, este
programa, lido em forma de manifesto por Getúlio, incluía o fim do voto de
cabresto, com uma nova lei eleitoral que garantisse o voto secreto e universal;
o ensino público geral; a reorganização da Justiça; políticas estatais para
alimentação, moradia, amparo da mulher, da criança, dos idosos e dos inválidos;
amparo, com concessão de créditos, à economia nacional – indústria, agricultura,
comércio e setor financeiro nacionais; garantia de salário e de repouso
remunerado; estímulo ao esporte e à cultura; incentivos ao Nordeste e apoio às
vítimas da seca; colonização da Amazônia3.
Era ,
fundamentalmente, o programa da revolução que seria deflagrada nove meses
depois. Eleger Getúlio contra o prócer da oligarquia, imposto por Washington
Luiz, seria a revolução. Se ela não se deu por essa via, foi exclusivamente pelo
inconformismo desesperado da oligarquia, que fraudou, escandalosamente, o
resultado das eleições.
Assim perceberam os
tenentes, com uma exceção, somando-se à campanha da Aliança Liberal, a mais
ampla e profunda frente nacional e popular já formada até então no país,
superando, nestes dois pontos - amplitude e profundidade - as que fizeram a
Independência e a República. Formavam-na desde setores que antes tinham se
subordinado à oligarquia cafeeira - de Minas, do Rio Grande do Sul, finalmente
unido após décadas de guerras e conflitos, da Paraíba, cujo governador, João
Pessoa, era o candidato a vice-presidente - até o elemento popular que eram os
revolucionários de 22, 24 e da Coluna. Estes, com Getúlio, iriam vertebrar
política e ideologicamente a Aliança, da campanha eleitoral à revolução.
O que houve no dia
do pleito, 1o de Março de
1930 - e o clima resultante - é sinteticamente retratado na resposta,
ironicamente arrasadora, de Oswaldo Aranha, então governador interino do Rio
Grande do Sul, ao arrogante telegrama de Washington Luiz comunicando a “eleição”
do seu candidato:
“Presidente da
República - Palácio do Catete - Rio. Agradeço o telegrama de Vossa Excelência,
cujos termos farei publicar por virem tranqüilizar a opinião pública do país,
pela confirmação feita com a autoridade do supremo magistrado da República, de
que ‘o brasileiro, consciente dos seus direitos, só será governado pelo eleito
de sua vontade soberana’. Não era outra a nossa convicção quando nos empenhamos
nesta luta eleitoral, confiantes na cultura e na civilização do nosso povo e dos
seus governantes. Fechar as urnas, negar boletins, não instalar mesas, recusar
fiscais, adulterar resultados, afugentar eleitores, comprar votos, falsear
alistamento, invadir as mesas com policiais, arrebatar livros eleitorais e
procurações de candidatos, fazer eleição antecipada, não aceitar votação em
cartório, sonegar, enfim, ao cidadão o direito de votar ou forçá-lo contra a sua
consciência, são fatos degradantes que verificados, tínhamos antecipadamente
certeza que não influiriam no resultado do pleito, repugnando a qualquer caráter
medianamente honesto e merecendo a condenação de todos os brasileiros. Tenho,
infelizmente, de fatos similares, denúncias documentadas em relação a muitos
Estados, especialmente São Paulo, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do
Norte, Santa Catarina, Paraná e Sergipe (....). Estamos confiantes e tranqüilos,
desejosos de concorrer, com honestidade e firmeza políticas, para o êxito desta
campanha cívica de grande alcance para a nossa civilização, como Vossa
Excelência muito bem afirma, em seu telegrama. Correspondendo ao pedido de Vossa
Excelência, transmito o resultado até o momento conhecido aqui: Getúlio Vargas,
278.321 votos e Júlio Prestes, 789, faltando alguns municípios e seções de
outros. Aguardando as informações prometidas por Vossa Excelência, transmitirei
tudo quanto possa interessar à apuração da verdade eleitoral nesta campanha”4.
Depois da fraude,
estavam fechados os caminhos eleitorais para a mudança - vale dizer, para a
revolução. Os meses seguintes seriam de luta intensa dentro da frente a respeito
do que fazer: submeter-se ou, como queriam os tenentes, e não só eles,
insurgir-se. A 1o de maio
de 1930, Getúlio lança um manifesto afirmando que cabe ao povo brasileiro “a
solução da contenda”, isto é, o destino do Brasil.
O assassinato de
João Pessoa, nos últimos dias de julho, iria cobrar uma decisão de todos os
setores que tinham formado a Aliança Liberal. A partir de então, discutia-se não
mais o que fazer, mas quando fazer - e como fazer.
Continua na
próxima edição.
Notas:
1 Lenin, A Bancarrota da II Internacional.
2 IBGE, Estatísticas Históricas do Brasil,
vol. 3.
3 Paul Frischauer, “Presidente Vargas –
Biografia”, Companhia Editora Nacional, 1943.
4 Frischauer, op. cit.
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