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“Bancos e empresas transnacionais
controlam a agricultura”, diz Stedile
“Cerca de 98% da produção de suco no pais é exportada. Não vai para a mesa
dos pobres”
O economista João Pedro Stedile,
integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST), denunciou a concentração de terras por 15 mil latifundiários e
o controle da agricultura por bancos e empresas transnacionais, e acusou
como manipulação de ambiente as imagens da fazenda Santo Henrique, grilada
pela Cutrale, e cobrou a apuração dos fatos.
“Os dados do censo agropecuário do
IBGE revelam que menos de 15 mil latifundiários são donos de mais de 98
milhões de hectares. Cerca de 30% dos moradores do meio rural não sabem ler
e escrever! E 80% não terminou o ensino fundamental. A renda média dos
assalariados do campo é menos do que um salário mínimo”, afirmou Stedile,
que acrescentou: “Diante dessa realidade, reafirmamos que é fundamental
democratizar a propriedade da terra, como manda a Constituição, e mudar o
modelo agrícola, para priorizar a produção de alimentos sadios - em
equilíbrio com o ambiente e sem agrotóxicos - para o mercado interno. Os que
acham que a Reforma Agrária não é mais necessária estão completamente
alheios aos problemas e aos interesses do povo brasileiro”.
Em entrevista concedida ao
jornal Folha de S. Paulo publicada na segunda-feira (12), Stedile apontou a
necessidade da Reforma Agrária: “Os grandes proprietários de terra se
misturaram com o grande capital financeiro. Bancos e empresas transnacionais
controlam a agricultura. E quando ocupamos uma terra para pressionar a
aplicação da Reforma Agrária, enfrentamos todo esse mundão de interesses”.
Ele desmentiu as acusações de
vandalismo que teriam sido praticados pelos sem terra na fazenda Santo
Henrique, em São Paulo. “As famílias acampadas nos disseram que não roubaram
nada, não depredaram nada. Depois da saída das famílias, e antes da entrada
da imprensa, o ambiente foi preparado para produzir imagens que impactaram a
população. Propomos a constituição urgente de uma comissão independente que
investigue a verdade”, frisou.
“A direita, por meio do
serviço de inteligência da PM, soube utilizar as imagens contra a Reforma
Agrária, se articulando com a Rede Globo para usá-las insistentemente. Nunca
a Globo denunciou a grilagem, nem a superexploração que a Cutrale impõe aos
agricultores”, observou. E enfatizou: “O fato de a área ser grilada,
confirmado pelo Incra, não é algo secundário. Esse é o fato”.
Stedile apontou a
diferença entre o modelo do agronegócio e o defendido pelo MST. “Cerca de
98% da produção de suco no pais é exportada. Esse suco não vai para a mesa
dos pobres, com ou sem Bolsa Família. Já o nosso modelo para a agricultura
brasileira quer assegurar a produção de alimentos, a geração de emprego e
renda no meio rural. Queremos produzir comida e, inclusive, suco de laranja,
para chegar à mesa de todo o povo brasileiro. Não para o mercado externo.
Mesmo assim, a área de exploração da laranja diminuiu em 400 mil hectares
nesses dez anos, pela exploração que a Cutrale impõe aos agricultores”,
sublinhou.
Em sua avaliação, a
proposta de CPI tem apenas motivação eleitoral: “O Roberto Caiado [líder do
DEM na Câmara e fundador da UDR] confessou que o objetivo da CPI é provar
que o governo repassa dinheiro para a Dilma. Essa afirmação no mínimo é
ridícula para qualquer sujeito bem informado, se não viesse de uma mente
improdutiva como todo latifúndio”.
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