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Um prêmio pouco
pacífico
Não temos razões para duvidar da surpresa manifestada pelo presidente dos
EUA, Barack Obama, ao saber que havia sido agraciado com o Prêmio Nobel da
Paz. Da mesma forma, a sua declaração de que “não vejo isso como
reconhecimento dos meus feitos” demonstra senso de realidade.
Porém, feitas todas as contas, Fidel Castro tem razão: o Prêmio Nobel da Paz
para Obama não deixa de ter um lado positivo. Como aventou Gilson Caroni
Filho, poderiam ter premiado o Negroponte... Evidentemente, Obama, apesar do
Afeganistão e das bases na Colômbia, não é a mesma coisa que esse açougueiro
da política externa americana. O prêmio é que, há muito, não honra ninguém.
Os primeiros prêmios Nobel foram distribuídos em 1901. Nessa época, havia
unanimidade sobre quem era o mais ilustre pacifista do mundo: Lev Tolstoy,
que também era, de longe, o maior escritor vivo. Independente da
concordância ou não com suas ideias, como pacifista e como escritor, o autor
de “Guerra e Paz” era um consenso absoluto. No entanto, Tolstoy, que faleceu
somente em 1910, jamais recebeu Prêmio Nobel algum, da paz ou de literatura.
O motivo foi sua oposição ao czarismo. Os conferidores do Prêmio Nobel
preferiram bajular Nicolau, o Sanguinário, czar de todas as Rússias, a
premiar Tolstoy.
Porém, em 1906, com Tolstoy vivo, o laureado foi o então presidente dos EUA,
Theodore Roosevelt - aquele que propugnava por “falar suave, mas carregar um
grande porrete” (big stick).
Quando recebeu o Nobel da Paz, Theodore Roosevelt já havia sido um dos
promotores da intervenção norte-americana para desmembrar o Panamá da
Colômbia, um dos principais forjadores da Guerra Hispano-Americana,
comandante de uma tropa de vândalos na invasão de Cuba, defensor inveterado
da anexação das Filipinas - e já havia pronunciado a sua inapagável frase:
“eu daria boas vindas a quase qualquer guerra, pois penso que este país
necessita de uma” (I should welcome almost any war, for I think this country
needs one).
Mohandas Gandhi também nunca recebeu Prêmio Nobel da Paz algum, apesar de,
como no caso de Tolstoy, não haver dúvida, entre 1918 e 1948 (portanto,
durante 30 anos), sobre quem era o mais eminente pacifista do mundo. Porém,
o parlamento norueguês, a quem cabe decidir sobre o prêmio, preferiu bajular
o Império Britânico (como todo mundo sabe, um exemplo para a paz no
mundo...) do que conceder o prêmio a Gandhi.
Gandhi nem Tolstoy receberam um Prêmio Nobel da Paz. O que não diminuiu em
nada a biografia desses homens - apenas reduziu o prêmio a uma dimensão
mesquinha. Por outro lado, que alguns outros grandes homens, como Martin
Luther King e Yasser Arafat, o tenham recebido, também em nada contribuiu
para que esses homens fossem maiores. Eles não precisavam disso - embora, é
melhor que tenham sido eles a recebê-lo do que algum canalha.
Por exemplo, em 1925 o premiado foi o banqueiro e vice-presidente
norte-americano Charles Dawes (do “plano Dawes”, que permitiu aos trustes
alemães se reerguerem após a I Guerra Mundial - o que seria a base econômica
para o nazismo). Em 1953, George Marshall (que tinha lá suas qualidades, mas
recebeu o prêmio pelo plano de levantar a economia da Europa Ocidental sob
hegemonia americana, com o propósito de isolar a URSS - a base da chamada
“guerra fria”). Em 1973, foi premiado Henry Kissinger, o assassino do
Vietnã, Chile, etc., etc. Em 1974, Eisaku Sato, o arquiteto, depois da II
Guerra, da submissão do Japão a uma impiedosa casta monopolista, sob
proteção norte-americana. Em 1978, Menachem Begin, o terrorista da Irgun,
que levou o terrorismo oficialmente à política de Estado em Israel. Em 1983,
Lech Walesa, o corrupto traidor polonês. Em 1986, o falsário Elie Wiesel,
aproveitador do sofrimento dos judeus sob o nazismo. E ficamos por aqui,
embora ainda haja vários outros dessa cepa - inclusive o Dalai Lama e
Gorbachev.
Obama recebeu o prêmio “devido ao seu trabalho por um mundo sem armas
nucleares” (cf. Fundação Nobel, “The Nobel Peace Prize for 2009”). Como até
agora os EUA não desmontaram uma única de suas milhares de ogivas nucleares,
isso só pode significar uma coisa – o prêmio foi pela tentativa de chantagem
dos EUA sobre a Coreia Popular, o Irã e outros países.
Portanto, um prêmio dado por um mau motivo. Mesmo assim, é bom ver os
republicanos estrebuchando com o prêmio de Obama, ainda que o Nobel da Paz
não exista para premiar quem faz alguma coisa pela paz. Não se pode esperar
muito de um prêmio da paz instituído por alguém que se tornou magnata com a
invenção da dinamite. Não por acaso, Obama falou que o prêmio era “afirmação
da liderança americana no mundo” - é verdade que essa afirmação e essa
liderança, nesse caso, não ultrapassam àqueles que concederam o prêmio...
CARLOS LOPES
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